08 de julho de 2026
Articulistas

A casca do bicho

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

A vida, só a conhecemos pelo jogo das oposições. Da luz sabemos graças à escuridão. Do amor temos certeza pela existência do ódio. A virtude só ganha definição a partir do vício que se lhe opõe. Um oposto gera o outro: não existe o belo sem o feio. O poeta Mário Quintana um dia perguntou o que seria do amarelo se não fosse Van Gogh. O amarelo muito menos seria, certamente.

Nesse jogo dos contrários, quem primeiro nasce conosco é o ódio, parte constitutiva da nossa natureza. Só depois, vem o amor. Para a psicanálise freudiana, só o ódio é genuíno, o amor não. Por ser produto, o amor vem posteriormente, nasce do ódio, o seu oposto.

Faz sentido. Ao produzir o homem, a natureza teve que escolher entre o ódio e o amor. Escolheu o ódio, claro, afinal o bicho-homem precisava atacar o outro e dele se defender. O ódio decorre, portanto, das pulsões de autopreservação, ou seja, de um repúdio primordial do eu narcísico para com o mundo externo. Odiar é assim autoproteger-se. Só depois, pelo imperativo da convivência, um outro morador, então racional e civilizador, foi se instalando dentro desse homem animalesco. Foi assim que começou o eterno conflito entre o bicho e o civilizado. Nunca mais se entenderam. De um lado, os instintos querendo; de outro, as grades éticas proibindo.

Nenhuma saída haverá para tal confronto. O homem-bicho continuará, por todo o sempre, brigando com o homem-civilizado, pudera dois antagonistas num corpo só. O bicho quer a liberação instintual, mas o civilizado, a desanimalização. Briga eterna. Foi o que disse, o poeta romano Horácio (65 aC): "Você pode expelir a natureza com um varapau pontiagudo, mas ela sempre retornará". A filosofia kantiana vai no mesmo sentido: "quanto mais civilizados se tornam os homens, mais eles se tornam atores". É só uma questão de casca, a qualquer momento o verniz poderá se romper, deixando o bicho solto. Sob a máscara civilizatória, a ferocidade instintiva continua brutal como sempre. Haja verniz.

Verniz não, casca não. Precisamos de tijolos, ferro e concreto, construção. Precisamos nos construir solidamente como seres humanos fraternos e tolerantes para conviver em harmonia com os diferentes.

É aí que a coisa complica. Construir é difícil, mas destruir é fácil. Sendo o ódio natural, para odiar basta abrir a porta da ferocidade. Não sendo o amor natural, ele precisa ser lentamente construído em penoso aprendizado, que exige, sobretudo, a libertação progressiva do ego, para abrir espaço e o outro acolher.

O psicanalista Francisco Daudt, falando sobre vício e virtude, enfatiza que a inércia é viciosa, mas a virtude, difícil e trabalhosa. E para bem ilustrar, dá-nos o exemplo: "Qualquer idiota quebra os vitrais de uma catedral e a deixa emporcalhada com pichações em dois minutos, enquanto ela levou séculos de trabalho árduo, de inteligência e de arte aplicadas para ser erguida".

Foi o que fizeram os soldados do Estado Islâmico em Palmira, na Síria, quando destruíram, entre tantos monumentos, o templo de Baalshamin, do século XVII, patrimônio mundial da humanidade. A mão brutal, num momento só, transformou em poeira uma história inteira de arte e construção.

Em face dessa besta solta que, nestes tempos de ódio, campeia entre nós, a urgência de construir é vital. Diria que três coisas são fundamentais: educar, educar e educar. Chega de verniz. Urgência: tijolo, ferro e concreto.

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras