10 de julho de 2026
Articulistas

A máquina de fazer dinheiro

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Na França, onde o futebol ainda não domina o imaginário popular, a contratação miliardária de um jogador choca sensibilidades. "Neymar quem?", perguntam os franceses ao ver, de repente, o assunto invadir o noticiário até então focado na política econômica do novo presidente da República Emmanuel Macron. Neymar vai ganhar, em cinco anos, um milhão de vezes o salário-mínimo de um trabalhador. Os gauleses já criticavam o salário de outro brasileiro, o "craque" de gestão empresarial Carlos Ghosn, presidente da Renault. Pelo menos ele emprega milhares de pessoas e tirou a montadora de veículos de uma situação difícil. Anteriormente marcou muitos gols na Nissan e faz jus a bonificações muito superiores a de qualquer esportista. Ele tem o céu como limite. Os políticos não podem se queixar porque, na França, o imposto sobre fortunas chega a 69%. No caso de Neymar, o que dá raiva é que ele vai ganhar R$ 213 por minuto, suficiente para o supermercado de uma família inteira. São R$ 308 mil por dia, livres. Imposto de Renda por conta do clube.

As cifras são mesmo indecentes, mesmo em países do primeiro mundo. A rescisão do contrato com o Barcelona custou R$ 830 milhões, pagos pelo bilionário Nasser Al-Khelaif, da família real do Qatar, dono do Paris Saint Germain. Daria para comprar os times do Corinthians, Flamengo, Palmeiras e São Paulo e ainda levar o Atlético Mineiro de troco. Na entrevista coletiva, Neymar garantiu que não foi movido pelo dinheiro para trocar de clube, mas pelo "novo desafio". Nem quer ser protagonista... Modestamente, está contente em somar com os "parças". Ao fazer essas afirmações, o entrevistado dá certos sinais corporais.

Um dos cantos da boca desce e o olhar vai para o outro lado - sinal de que não está sendo sincero, na leitura dos psicólogos. As perguntas sobre o "argent sur la table" o faz balançar a cabeça e levantar o ombro esquerdo, sinal que elas incomodam. De nada adianta esconder a verdade dentro da mentira, e nem seria necessário colocar a mentira dentro da verdade. O bom do capitalismo é o capital.

O pai da economia moderna, Adam Smith, morto em 1790, dizia que o esforço individual para maximizar o próprio bem-estar não tem nada de imoral. É da interação entre agentes de mercado, através da livre negociação, que a economia se sustenta. Essas duas situações juntas criam condições agradáveis para o indivíduo e a sociedade.

Os árabes fazem dinheiro com dinheiro. Em seis horas foram vendidas quinhentas mil camisas com o nome do craque. Cada uma custa R$ 400, em média. Ao assinar o contrato, o brasileiro apareceu de camiseta regata com a estampa do Batman. É o "look" peguei-qualquer-coisa-no-armário-e-vim. A camiseta cinza com uma rendinha está sendo vendida por R$ 1.200,00 cada. Dizem que é uma promoção em benefício da instituição filantrópica mantida por Mark Zukerberg e esposa. Ele, criador e dono do Facebook.

"Pagar um valor desses apenas por um homem é excessivo" - ouvi o Casagrande dizer na tevê. "O dinheiro matou o esporte" - dizem os saudosistas do tempo do amadorismo. Vale o raciocínio inverso. O dinheiro permitiu o desenvolvimento das altas performances no esporte. Hoje a transmissão de uma disputa chega a reunir mais de um bilhão de telespectadores. Quem atrai tanta gente, carrega uma massa publicitária multiplicadora que rende dinheiro de montão. O atleta tem "direito de arena". Seu quinhão nisso tudo acaba sendo a parte mais insignificante, embora protagonista do espetáculo.

A exploração do homem pelo homem, como criticava Marx, é o motor do capitalismo. Neymar será garoto-propaganda da Copa do Mundo de Futebol de 2022, a ser sediada pelo Qatar. Aquele país, uma nesga no deserto rico em petróleo, está investindo US$ 200 bilhões em estádios, infraestrutura e tecnologias. Os árabes sabem que os poços de óleo são finitos e o preço do produto está em baixa no mercado. É preciso criar novas fontes de renda. Doha, a capital, oferece todas as facilidades para os investidores. Lá, Neymar fixará residência porque os impostos são baixos e o dinheiro rola solto com muitas oportunidades de negócio.

Fala-se que o contrato firmado com o PSG pode ser anulado pela UEFA, entidade que gerencia o futebol europeu. Motivo: falta de fair play (jogo limpo) financeiro. Desde 2011 a entidade lançou uma série de medidas destinadas a controlar as contas dos times. Os gastos não podem ultrapassar mais do que 5 milhões de euros do orçamento do clube, para que se mantenha saudável, financeiramente. Bobagem. O dinheiro é da Qatar Investment e os interesses envolvidos são grandes. A UEFA vive do sucesso dos campeonatos que organiza.