08 de julho de 2026
Regional

Restauradores informais de imagens

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 11 min

Aurélio Alonso
Flávia de Souza Ribeiro Soares, de Santa Cruz do Rio Pardo, é autodidata e se especializou em recuperar as imagens de santos de igreja 

A recuperação de imagens de santos e até de painéis de igrejas são feitos por artesãos autodidatas. É uma atividade que exige paciência e uma busca incessante por informações. Na região existe um acervo de obras a serem recuperadas, mas sempre esbarra na falta de pessoal especializado. A ex-funcionária de uma instituição bancária Flávia de Souza Ribeiro Soares descobriu o talento para recuperar imagens de santo depois que decidiu mudar de vida. O artista plástico bauruense Marcelino Castro Pestillo terminou há poucas semanas a restauração dos painéis da igreja São João Batista de Iacanga.

Tanto ele como a artista plástica Theresa Cristina Almeida Prado tiveram que se desdobrar para restaurar pinturas danificadas dos painéis da igreja Santa Terezinha de Guarantã. Os dois são responsáveis por recuperar as belas pinturas sacras do esloveno Franciscus Paulovichi, que produziu imagens para várias igrejas da região.

É o talento anônimo dessas pessoas que tem ajudado a recuperar imagens sacras, muitas delas danificadas pelo tempo ou por problemas de infiltração de água nos templos que põe em risco esse acervo histórico religioso.

Cada um tem uma história que se cruza. Flávia Soares, residente em Santa Cruz do Rio Pardo, aos poucos foi adquirindo um conhecimento e se "apaixonou" pela arte de repintar e praticamente deixar "nova" as imagens de santos. E entrou meio por acaso nesse ofício, após sofrer um acidente. Quando deixou um emprego com bom salário, mas com tarefa para lá de estressante. Tinha que viajar uma média de 300 quilômetros quase toda semana, Flávia trocou a vida agitada por uma jornada de longas horas dentro do seu pequeno "ateliê", um quarto nos fundos da sua casa, onde com pincel, espátula e tinta faz a recuperação de imagens. Muitas vezes tem que trabalhar na própria igreja pelo tamanho das imagens a serem recuperadas que não dá para ser removida pelo peso e tamanho.

Mas ela também já deparou com obra de reconhecimento histórico que estava guardada em uma sacristia. Como é o caso das imagens do século 19 de Marino Del Fávero que tinha assinatura no pé de uma imagem. A restauradora e historiadora em arte sacra do Vale do Paraína Cristiane Antunes Cavaterra confirma que as imagens de Del Fávero são reconhecidas de valor histórico.

O professor de artes e artesão Alexandre Paulino se especializou em customizar imagens religiosas. Ele explica que não tem como não ser procurado para recuperar imagens que tem muito valor sentimental até acima do valor histórico. "Faço uma repintura, recupero o gesso, mas não é uma restauração", conta Paulino, com curso de especialização com especialista em Mariana (MG). Todos, no entanto, adquiriram muito conhecimento na prática do dia a dia ao pacientemente restaurar importantes obras sacras. Leia mais nas págs. 22 e 34.

Artesão vira 'restaurador' de obra de arte sacra em igrejas da região

Divulgação
Flávia de Souza Ribeiro Soares descobriu o talento para recuperar imagens de santos

A restauração de peças religiosas na verdade é um trabalho meticuloso que exibe muita paciência. E isso Flávia de Souza Ribeiro Soares, de 33 anos, de Santa Cruz do Rio Pardo teve que adquirir depois de uma vida muito estressada na área bancária. Ela decidiu largar um cargo que ocupava que obrigava a viajar semanalmente na regional de Presidente Prudente, após um acidente automobilístico que quase custou-lhe a vida. Depois dali descobriu o trabalho de artesão até se transformar em "restauradora" de imagens de santos.

Atualmente ela está no sétimo mês de gravidez o que impediu de fazer um curso em Ouro Preto (MG) de especialização na área.  Flávia conta que sua jornada era de visitar nove agências para a regional de uma instituição bancária. Foi em uma dessas viagens que sofreu um acidente. O carro bateu de frente com uma carreta. Ela escapou ilesa. Nesse dia, levava uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida com detalhes em pérolas. Um presente para uma amiga. O veículo ficou destruído, porém a santa não teve nenhum arranhão.

Após o choque com o acidente, decidiu abandonar o emprego. A sua terapia foi trabalhar com as imagens sacras. Daí em diante ela vai descobrir esse novo ofício. Quando elaborou o presente, ela tentou customizar uma imagem, porque achou muito caro comprar uma similar já fabricada. Decidiu aprender como fazer esse tipo de obra o que abriu as portas para ganhar o primeiro trabalho proposto pelo padre Agnaldo Souza, de Espírito Santo do Turvo. O religioso precisava recuperar uma imagem de São Sebastião. Flávia ao ser procurada admitiu que sabia fazer a restauração, mas ainda estava aprendendo. Foi o maior desafio.

Mesmo sem experiência, Flávia tornou-se autodidata. Pesquisou pela Internet e contatou pessoal especializado. Acabou dando certo e daí em diante começaram a aparecer trabalhos de restauração maiores de igrejas e capelas do distrito de Caporanga, Espírito Santo e Bernardino de Campos.

"Desde que comecei, nunca procurei cliente nenhum. Todos foram encomendados por igrejas", conta Flávia, bem falante e entusiasmada com o que faz diariamente.

São jornadas que começam de manhã e se estendem até a noite. A maior parte das peças são imagens instaladas em altar ou na própria igreja. Nem todas são relíquias históricas. Deterioradas pelo tempo, essas estátuas precisam de nova pintura ou mesmo recuperar alguns detalhes.

Mas esse trabalho chega a durar mais de dois meses. Muitas vezes tem que ser executado na própria capela. Não é possível remover muitas dessas estátuas.

A própria Flávia explica que não é uma restauração, mas a dedicação é buscar ao máximo recuperar a cor original. Ela pretendia neste ano fazer um curso de especialização em Ouro Preto (MG), mas a gravidez abreviou. "Só adiei os planos. Pretendo me dedicar a isso", contou em sua residência no último sábado.

Até saliva ajuda

O Centro de Restauro São Sebastião funciona em pequeno quarto nos fundos da residência de Flávia de Souza Ribeiro Soares. Em meio a pincéis e imagens de santos em cima da mesa e tomando espaço no pequeno cubículo é onde a artesã passa o dia restaurando e pintando as imagens enviadas pelas igrejas.

Ali é possível colar e repintar as estátuas, após lixá-las para descobrir qual a cor original que havia quando ainda estava nova.

As técnicas vão sendo descobertas por testes, mas quando há dúvidas a própria Flávia acabou conhecendo especialistas na área. Pelo Facebook e e-mail essas "consultas" informais passam orientações valiosas.

"Não conseguia remover uma tinta original. Geralmente a gente consegue usar uma resina para lavar e retirar a tinta antiga, mas teve uma dessas imagens que não havia um produto que conseguia limpar. Num pedido de ajuda, um especialista recomendou: usa a própria saliva. E não é que deu certo", contou.

E tem fundamento, a saliva tem muitos produtos químicos na sua composição. E se ingerir frutas cítricas ajuda ainda mais para dissolver determinadas tintas.

Igrejas de Guarantã e Iacanga tiveram repinturas

Nas duas repinturas de imagens sacras que recuperaram acervos na região de Bauru contaram com trabalho de artesões para revitalizar patrimônio histórico ameaçado de ser perdido devido aos danos nos prédios onde abrigam as igrejas Santa Terezinha de Guarantã e a Matriz de São João Batista de Iacanga.

O JC acompanhou as obras em duas ocasiões quando foram feitas matérias para o Caderno Regional, quando ainda estava sendo feita a recuperação das imagens. No caso de Guarantã demorou um ano e meio.

Nos dois casos específicos são painéis do esloveno Franciscus Pavlovic que tem uma ampla obra de pinturas sacras em igrejas da região. Em breve, o JC vai trazer matéria completa de todo esse acervo.

A artista plástica Thereza Cristina Almeida Prado, de Bertioga, foi contratada para restaurar as pinturas na Matriz de Santa Terezinha por um convite feito pela irmã dela, Maria Cecília Siqueira Matheus, residente no município que também a auxiliou.

A parede da igreja estava caindo, a infiltração de água danificou demais a ilustração que ficava no teto. "A maioria dos desenhos estavam descascados. Tive que copiar a figura anterior e fazer o desenho o mais semelhante possível. Mudei as cores, porque já tinha sido feita uma restauração anterior e as cores não estavam combinando", contou Thereza Almeida Prado.

De acordo com a artista plástico, Paulovichi tem uma característica específica dele no desenho dos rostos e na confecção das mãos dos personagens sacros. Ao todo foram 10 painéis totalmente recuperados.

Já na igreja de São João Batista, em Iacanga, a restauração já está concluída, mas o artista plástico contratado, Marcelino Castro Pestillo, foi vai elaborar um novo painel (o céu e o inferno) que ficará exposto na parte dos fundos da igreja. É uma pintura nova que irá se incorporar com a de Paulovichi.

O artista plástico bauruense admite que quando iniciou a restauração se "assustou". "Não falo que que a restauração foi difícil, numa coisa que estou acostumado a fazer. Nunca tinha restaurado algo tão grande. Isso assusta pela responsabilidade", conta.

Mas o trabalho de Pestillo acabou reconhecido."Os que conheciam o painel anterior disseram que a repintura ficou muito semelhante ao trabalho original", declarou.

Sem saber descobriu até relíquia

Em meio as estátuas apareceu algumas relíquias que só estão sendo descobertas recentemente. É o caso de obras de Marino Del Fávero, um italiano que veio para o Brasil no século 19 e teve um ateliê em São Paulo onde produziu muitas imagens sacras.

A artesã Flávia Soares se deparou com obras desse entalhador italiano quando foi lixar uma imagem de Cristo e encontrou a assinatura dele. Decidiu pesquisar na Internet. Teve uma surpresa, o artista foi tema de uma dissertação de mestrado de uma historiadora de Guaratinguetá.

O artista nasceu em San Vito di Cadore e veio para ao Brasil em 1893. A data da sua morte é 23 de junho de 1943.

Não se sabe como vieram parar essas estátuas em capelas e igrejas da região de Santa Cruz do Rio Pardo. Em consulta a padres, eles atribuem ao empresário Francisco Matarazzo, que chegou a ter empreendimentos nessa região.

O mais interessante que a imagem de Cristo da paróquia São Sebastião de Santa Cruz do Rio Pardo estava guardada em guarda-roupa, porque foi considerada velha demais. Tinha sido substituída por outra mais nova. Ninguém sabia que é uma obra de Marino Del Fávero. Desse italiano Flávia encontrou dois anjos tocheiros que ficam no altar da igreja de Bernardino de Campos e uma estátua do Bom Jesus localizada em uma capela do Distrito de Caporanga. Todas elas a artista plástica fez a repintura. No pé da estátua havia a assinatura do artista com data de 1927.

 O JC teve contato com a restauradora de obras de arte e historiadora em arte sacra no Vale do Paraíba Cristina Antunes Cavaterra que confirma que a obra de Marino Del Fávero é significativa para o patrimônio histórico.

Ela é autora de uma dissertação de mestrado que possibilitou tirar do anonimato o artista italiano. Del Fávero tinha uma ateliê na capital paulista. "Ele fazia de tudo: imagens, altares, confessionário, lampadários e inclusive os bancos de igrejas. É uma produção muito grande, por isso é difícil achar as obras dele. Era desconhecido e ninguém sabia o período histórico que ele viveu", contou Cristiana Cavaterra. As imagens têm característica própria do artista. De acordo com a restauradora, são neoclássicas ou ecléticas. "As estátuas são mais altas do que as imagens barrocas. A fisionomia e a pele são pinturas próximas da realidade humana. Os olhos são feitos de vidro e policromia em tons diferentes do barroco brasileiro. O artista usava muito azul-claro, verde-claro, rosa-claro e tons próximos do rococó austríaco e francês", explicou a restauradora. O rococó é o estilo artístico que surgiu na França como desdobramento do barroco, mais leve e intimista.

Restauração exige técnica

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Estátua de Senhor Bom Jesus de 1934 do acervo de uma capela de Caporanga, distrito de Santa Cruz do Rio Pardo

A restauração de imagens ainda não segue tanto rigor na região com contratação de especialistas na área. Por enquanto se recorre a artistas plásticos e autodidatas. A restauradora Cristiana Antunes Cavaterra, com especialização em arte sacra, comenta que o correto seria que todo tipo de restauração obedecesse a algumas técnicas, como uso de material adequado.

"Há uma técnica específica, diferente da pintura que o artista cria e dos materiais que têm em mãos. A restauração tem que respeitar alguns critérios que envolvem material adequado. Cada obra é uma obra diferente. O material que o restaurador usa não é o mesmo que o artista plástico utiliza. É uma tinta própria", conta a especialista, que presta serviços na Basílica Nacional de Aparecida no Vale do Paraíba, com formação em artes na Unesp.

Ela afirma que, nos últimos anos, têm aumentado o número de cursos tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro para formar profissionais especializados em restaurações.

O professor Alexandre Paulino, de Santa Cruz do Rio Pardo, se especializou em customizar imagens, uma tendência de mercado que vem se expandindo, mas também ele é procurado para fazer pequenas restaurações de imagens.

Ele fez curso de policromia em Minas Gerais com participação de restauradora do Instituto do Patrimônio e Histórico Nacional (Iphan). "As imagens são de gesso e tem mais valor sentimental do que valor monetário. Esse tipo de restauração acaba indo para as mãos de artesões. Na verdade o que a  gente faz é uma repintura. Tenta-se o máximo possível deixar a imagem igual a original", diz.

Já a restauração exige uma prospecção. É necessário retirar uma placa, fazer teste químico para poder caracterizar o pigmento que será usado o mais próximo do original, explica o professor Alexandre Paulino, residente em Bernardino de Campos e exerce o magistério em Santa Cruz do Rio Pardo.