08 de julho de 2026
Geral

Os 'ilhados' do Pousada da Esperança 1

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Malavolta Jr.
Natividade Silvestre, 66 anos, mostra a altura em que sua casa ficou em relação à rua

Aos 80 anos, Celita Teixeira Nunes não imaginava que, a esta altura da vida, teria que pegar marreta e enxada para quebrar piso e carregar terra da garagem de sua casa. Com a ajuda do marido, Alfredo Nunes, 82 anos, ela fez, de maneira improvisada, uma rampa na entrada do imóvel para conseguir ter acesso à rua.

Assim como o casal (leia mais abaixo), dezenas de moradores da quadra 3 da avenida Antônio Fortunato, no Pousada da Esperança 1, estão lidando com o mesmo transtorno há cerca de três semanas, quando as obras do PAC Pavimentação levaram ao rebaixamento da via em cerca de um metro.

A chegada do asfalto era um sonho dos moradores há mais de 25 anos, mas eles reclamam do ritmo lento das obras e da falta de uma solução provisória para que carros e pessoas possam sair e entrar nas casas. "Estão fazendo tudo bem devagar. A gente até entende que a rua precisava ser rebaixada, mas a demora não tem explicação. Hoje (ontem), mesmo, não foi feito nada aqui", reclama o músico Richardson Nunes, 37 anos.

Ele explica que, ao longo do tempo, a avenida foi sendo naturalmente aterrada pela lama que corria do bairro até a via durante as chuvas. Com isso, em um lado, as casas que já haviam sido construídas acabaram ficando abaixo do nível da rua e, do outro, os imóveis foram sendo posteriormente erguidos em um patamar mais elevado.

De início, a empresa Fortpav Pavimentação e Serviços, vencedora do processo licitatório do PAC Pavimentação, procedeu à retirada do acúmulo de terra para retomar as características iniciais da rua. O problema é que, com a medida, as casas construídas do lado mais alto ficaram ilhadas em um "barranco" de cerca de um metro de altura.

REAVALIAÇÃO

Nas últimas semanas, a empresa chegou a posicionar as guias para a construção das calçadas, mas, devido às reclamações, a Secretaria Municipal de Obras decidiu reavaliar o projeto inicial. Uma das possibilidades consideradas é aumentar a largura do passeio, diminuindo o tamanho da rua, para suavizar a inclinação das rampas de acesso às residências.

"Se o nível da rua fosse elevado, certamente as casas do lado mais baixo seriam prejudicadas com a entrada de água durante as chuvas. Precisamos encontrar outra saída e ampliar o passeio pode ser uma delas", explica o titular da pasta, Ricardo Olivatto, reconhecendo que a calçada com inclinação, ao menos neste lado mais elevado, teria de ser construída fora do padrão exigido para garantir acessibilidade a cadeirantes, por exemplo.

A visita da equipe técnica para definição sobre o encaminhamento das obras está agendada para a manhã da próxima terça-feira. Enquanto uma solução não é encontrada, a moradora Natividade Silvestre, 66 anos, continuará enfrentando dificuldades para sair de casa. "Preciso andar da minha casa até uma das rampas que foram feitas pelos vizinhos para fazer qualquer coisa. Minhas pernas doem", diz.

Avaliadas em R$ 57,2 milhões, as obras do PAC preveem a pavimentação de 704 quadras de asfalto na cidade, além da implantação de guias, sarjetas, galerias de águas pluviais e rampas de acessibilidade. Juntos, os bairros Pousada da Esperança 1 e 2 terão trechos de 32 ruas pavimentados.

IDOSOS PRECISARAM ATÉ CARREGAR TERRA

Vivendo sozinhos em uma das casas da quadra 3 da avenida Antônio Fortunato, Celita e Alfredo Nunes contam que tiveram de se desdobrar para conseguir garantir acesso ao Fiat Premio do casal após o rebaixamento do nível da rua. "Certo dia, trouxeram os tratores aqui, fizeram tudo e foram embora sem falar nada com ninguém. De uma hora para outra, a entrada da casa ficou desse jeito", lembra Celita.

Com o peso da idade, Alfredo conta que o trabalho para construir a rampa precisou ser feito "devagarzinho". "Fomos obrigados a arrancar o piso inteirinho para inclinar a garagem até chegar na rua. A gente não fazia direto porque não aguentava. Fazia um pouquinho, parava e, no outro dia, fazia mais um pouquinho. Mas foi muita terra que tiramos, viu? Fazer o quê?", diz.

OUTROS BAIRROS PODEM TER PROBLEMA

O secretário municipal de Obras, Ricardo Olivatto, adiantou que o problema ocorrido no Pousada da Esperança 1 já foi registrado ou deverá se repetir em outros bairros em que a pavimentação pelo PAC está prevista. Entre eles, estão o Tangarás, Pousada da Esperança 2, Jardim Ouro Verde, Jussara, Roosevelt, Jaraguá e Santa Edwirges.

"É um tipo de situação recorrente quando o asfalto é implantado em bairros já constituídos, principalmente quando não houve nenhum tipo de controle ou fiscalização sobre o nível em que as casas deveriam ficar", argumenta.