Continua sendo exibido nos cinemas locais a refilmagem da famosa retirada de Dunquerque, cidade litorânea francesa, quando a força expedicionária britânica, mais soldados franceses, em maio de 1940, achavam-se encurralados na praia, à mercê dos ataques da Luftwaffe pelo ar e dos terríveis tanques Panzer por terra. O filme destaca a angústia dos soldados, em vias de serem dizimados, e o heroísmo da população inglesa que, finalmente informada da gravidade da situação pelo governo Churchill, acudiu com tudo o que dispunha de embarcações numa operação que terminou sendo gloriosa, face às circunstâncias.
Um livro de 2001 ('Cinco Dias em Londres', John Luckacs, editora Jorge Zahar), esgotado nas livrarias e que fui buscar num sebo, relata que as coisas poderiam ter sido diferentes, e que a II Guerra Mundial poderia haver terminado ali, se...
A história está cheias de "ses", e naquela oportunidade não foi diferente. O filme não menciona e o livro relata, que a hesitação de Hitler e seu estado maior, determinando a suspensão do avanço das divisões Panzer, deixando a tarefa de dizimação por conta da força aérea, numa semana crucial, possibilitou o tempo suficiente para a salvação das tropas. O primeiro ministro inglês Churchill cogitara de as tropas atacarem os alemães, com quatro divisões Panzer, decisão que "é uma prova da terrível ignorância daqueles que conduziam essa campanha em White Hall" (pag. 51).
Exatamente no dia 24 de maio de 1940, uma sexta-feira, "havia apenas uma pequena brigada inglesa e umas poucas unidades francesas entre ele e Dunquerque. Tivesse isso acontecido, não haveria necessidade de intervenção de Hitler, que fez o (general) Guderian perder a histórica oportunidade de vencer a II Guerra Mundial praticamente numa única manhã" (pag. 52, citando o autor de um livro, "The Flames of Calais", sobre o incidente. )
Motivos militares e políticos estiveram presentes na suspensão do ataque. Entre os políticos, a esperança de Hitler que o gesto fosse encarado como de boa vontade, a fim de firmar uma paz em separado com a Inglaterra e aliados, e ambos voltarem suas atenções para aquele que seria, como foi, o inimigo principal: os soviéticos e o comunismo. Tanto que a Guerra Fria nada mais foi que uma continuação da II Guerra Mundial, sem tropas nem armas.
Mais uma vez vê-se que o cinema, como arte, fica muito a dever à história real, quando enfatiza um lado ou um apenas um aspecto do problema. E como certas decisões, tomadas no fragor das batalhas e principalmente pelo orgulho das irresistíveis vitórias dos alemães na época, cobrariam seu preço três anos mais tarde, com a destruição da Alemanha.
Para nossa sorte, diga-se a bem da verdade...