08 de julho de 2026
Polícia

Aluno é pego com 51 pinos de cocaína e tráfico nas escolas volta a preocupar

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Aceituno Jr.
Delegado Luiz Puccinelli, titular da Dise: "Os casos são mais recorrentes no período noturno, na saída ou entrada da escola" 

O número crescente de jovens sendo aliciados pelo tráfico tem preocupado a polícia. Nas imediações ou até mesmo dentro das escolas, eles são utilizados por traficantes para infiltrar e distribuir entorpecentes a outros adolescentes.

Na tarde da última terça, um aluno de apenas 14 anos foi flagrado por funcionários com 51 pinos de cocaína em uma mochila. O jovem estava dentro da escola estadual onde estuda e, com a chegada da Polícia Militar e dos pais, alegou ter encontrado as porções fora das dependências da unidade.

Mesmo assim, foi apreendido em flagrante e encaminhado à Cadeia Pública de Avaí, onde permanecia até a tarde de ontem em uma cela especial. A família não falou com a reportagem sobre o ocorrido. O nome do garoto, assim como da escola, será preservado em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Segundo o titular da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), Luiz Augusto Puccinelli, flagrantes como este não são tão comuns principalmente devido à dificuldade para realizar investigações dentro ou mesmo no entorno das instituições de ensino. Ele pontua, contudo, que há um volume preocupante de denúncias envolvendo estudantes e o tráfico em Bauru.

"Os casos são mais recorrentes são o período noturno, na saída ou entrada da escola. São alunos ou mesmo jovens moradores do bairro atuando a mando de um traficante maior. É um tipo de ocorrência que já atendemos há um bom tempo, mas fica difícil avançar nas investigações porque, em meio aos jovens, o policial é facilmente percebido", pontua.

DANO

Samantha Ciuffa
Coronel Flávio Kitazume, da PM: "Eles não integram uma estrutura criminosa organizada, mas é algo que preocupa"

Comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM-I), o tenente-coronel Flávio Jun Kitazume confirma esta dificuldade. E, embora destaque que a prática seja classificada como "microtraficância", reforça o quanto a entrada de drogas dentro das escolas é danosa à sociedade ao prejudicar, muitas vezes, a evolução escolar de uma parcela significativa de jovens, sejam eles vendedores ou consumidores.

"Eles não integram uma estrutura criminosa organizada, não há uma 'boca de fumo' instalada na porta da escola. Não é uma forma tradicional de comércio e ocorre com pequenas quantidades. Embora não haja registros oficiais sobre este tipo de situação, é algo de que temos conhecimento e que nos preocupa", observa.

Para o delegado Puccinelli, os adolescentes são aliciados por traficantes ao serem movidos pelo imediatismo. Sem capacitação profissional para conquistarem um emprego que lhes garantam renda satisfatória, eles se deixam levar pela tentação do "dinheiro fácil" para, assim, adquirir os bens de consumo a que os jovens de famílias de classe média têm acesso. "Além disso, podem acabar sendo convencidos pelos adultos dentro do tráfico de que ser um deles é ter status dentro da comunidade em que vivem", completa.

'ELE NÃO PRECISAVA DISSO', DIZ MÃE

Ainda bastante abalada, a mãe do garoto flagrado com cocaína falou com o JC na noite de ontem. “Foi um baque para toda a família. Ele tem mais cinco irmãos e ninguém mexe com nada errado. Foi um baque pra mim, pro pai dele, pra todos”. Nem a própria mulher de 31 anos acredita na versão de que o filho achou a droga e diz estar inconformada porque “ele não precisava disso”. “Na medida do possível, damos tudo a ele... tênis bom, Internet, tudo. Ele não precisava”. A mãe relata ainda que o adolescente não apresentou qualquer atitude suspeita, com exceção de chegar atrasado alguns dias na escola ou voltar tarde para casa. Questionada sobre qual conselho daria a outros pais, ela é direta: “tem que ficar de olho nas amizades. Amigo é aquele que chama pra coisa boa, pra fazer um curso. Amigo não é aquele que oferece porcaria”, conclui a mulher, que ainda reclama da falta de informações sobre os trâmites judiciais desde a apreensão.

INSEGURANÇA AFETA ROTINA NAS ESCOLAS

Lidar com a presença de traficantes e de drogas dentro ou perto das escolas também é um desafio para as unidades de ensino. Coordenadora de Pedagogia da Universidade do Sagrado Coração (USC), a professora Ketilin Mayra Pedro lembra que a proximidade física de toda a comunidade escolar com a criminalidade afeta a rotina das instituições, podendo repercutir até mesmo no processo de ensino e aprendizado de forma generalizada.

"Lidar com as questões externas à escola, mas que refletem diariamente neste processo, é um dos grandes desafios do professor contemporâneo. Seria importante colocar em pauta estas discussões em sala de aula, mas as ações ainda são muito pontuais", analisa.

Ainda com formato bastante conservador, a estrutura e a grade curricular da rede de ensino pública, observa Ketilin, não se conectam com a realidade onde os estudantes estão inseridos, o que pode, inclusive, torná-los mais vulneráveis ao aliciamento por traficantes. "Este descompasso pode causar desmotivação e afastá-los da escola. Discutir determinados assuntos, como o uso de drogas, de uma maneira crítica e realista, não deveria ser tabu, mas continua encontrando resistência dentro das unidades e até mesmo entre os pais de alunos", pondera.