08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Um sonhador

Mário Lima, estudante de jornalismo da Unesp
| Tempo de leitura: 5 min

A primeira vez que o vi foi através da música tocando violão na Missa e fazendo a segunda voz com uma mulher. Sim! Fazendo segunda voz em uma banda que toca nas celebrações católicas de uma cidade do centro-oeste paulista. Por um instante tive vontade de ser amigo daquele rapaz, mas a vontade sumiu como esvaem os devaneios momentâneos.

A segunda vez que o encontrei foi em um grupo de jovens de uma comunidade da cidade. Desta vez sem ouvir sua expressão vocal. Neste dia, ele veio conversar comigo como que se alguém tivesse dito a ele que deveríamos ser amigos.

A partir daí tudo começou a ficar mais claro acerca do jeito de artista que aquele rapaz me causou, o seu sorriso radiante e tímido ao mesmo tempo como se dissesse: "sim tenho um bonito sorriso, mas devo me conter".

A terceira vez consagrou a nossa amizade! Um convite para ir à sua casa. Convidar alguém para ir a casa é um ato que na nossa cultura se faz a verdadeiros amigos. Aí me senti parte do círculo de sua amizade, aquele convite parecia um ritual que se concretiza para dizer: você faz parte de minha vida, assim como o batismo é um sinal para os cristãos de que a partir dessa imersão na água o ser humano se torna irmão de Jesus Cristo.

Era um domingo como qualquer outro, peguei a minha bicicleta e pedalei para a casa do rapaz que agora se tornara meu amigo. Durante o percurso de minha casa a sua, pensava no que dizer e como me comportar, ser eu mesmo ou tentar me conter para causar a impressão de um jovem comportado? Decidi ser eu, mas mesmo assim cheguei um pouco retraído e aos poucos fui me embalando no ritmo do local até estar à vontade.

Ao chegar a sua casa, sentei na sala e iniciamos conversas - somente eu e o rapaz - a minha maior curiosidade era saber o que ele fazia da vida, pois parecia ser um rapaz diferente e sereno. Um violão, um teclado, um Cajon, uma guitarra... e mais outros instrumentos faziam parte da ornamentação daquela sala, fiquei curioso para saber se tinha mais músico naquela casa, foi aí que descobri o amor de alguém por alguém, o amor de um rapaz pela música sertaneja.

As nossas conversas partiram para a pauta mais óbvia possível, a música sertaneja. O rapaz começou a se empolgar, parecia uma criança contando para um amiguinho sobre o primeiro beijo. A paixão desenfreada pela música sertaneja, as inspirações para compor, o sonho de ser um cantor. Tudo isso foi contado resumidamente porque quando estamos em êxtase não conseguimos lembrar dos detalhes, mas exalamos o que está guardado em nossos corações. Em minha mente vinham pensamentos que não tinham coragem de transformá-los em vocábulos, mas que tilintavam internamente: por que um jovem bonito, perseverante e carismático não conseguira o sucesso tão almejado?

Fomos chamados para a mesa, nesse espaço o assunto não foi a música, mas outros totalmente diferentes, parecia que o rapaz não ficava a vontade para expressar o seu amor platônico pelo sucesso diante da família. Observava o seu comportamento, como um psicólogo, mas na verdade, estava tendo um sentimento de irmandade por ele, uma espécie de orgulho e compaixão por um rapaz que parecia ser mais um menino do futebol que não conseguira o sucesso da arte dos seus pés, nesse caso, de suas cordas vocais. Aquela tarde passou como uma ave de rapina passa sob as nuvens e sobre os nossos telhados.

Voltei para minha casa, pensativo como fora, agora, com assuntos diferentes: como poderia ajudar aquele amigo? Quem poderia ser um canal para levá-lo a um empresário? Quais seriam as veredas para o sucesso? Uma vereda totalmente diferente dos retirantes que saem de suas terras; uma vereda absolutamente diferente dos intelectuais que trilham através das linhas dos livros; uma vereda totalmente diferente dos profissionais da indústria que aprendem técnicas na direção de professores. É um terreno que não conheço, sem marcação definida e com poucos atalhos do qual a derrota e a vitória são improváveis.

Chamei-o para irmos a são Paulo conhecer alguns empresários do meio de comunicação. Era uma sexta de agosto, saímos com destino a Sampa, pelas veredas paulistas com a esperança de dar um desfecho feliz a essa história. Como integrante do corpo de funcionários de um meio de comunicação, sentia-me dentro de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, como o personagem Diadorim que todo o tempo tinha o objeto desejado ao seu lado, mas não o enxergava. Assim era eu, mesmo trabalhando na mídia, não conseguia descobrir como propagá-lo.

A viagem de esperança e apreensão fazia o sangue pulsar convulsivamente com a responsabilidade diante daquele jovem, não sabia se estava dando esperanças falsas ou se estava tentando ajudá-lo verdadeiramente. Ao chegar a Pauliceia Desvairada, de Mário de Andrade, fomos bem recebidos em todos os lugares, ao apresentar o rapaz a um amigo empresário, não sabia como inserir o propósito desse ato. Não sabia se lhe estava mergulhando na vereda da música ou se estava mostrando uma vereda para chegar a ela. Passamos o final de semana na maior metrópole do Brasil, na qual não conversamos somente sobre a arte da música e a busca inconstante por ela, mas também sobre a vida que é feita de ações, provindas de sonhos como este, o qual não se sabe o caminho certo para alcançar o sucesso da música sertaneja.

E o tempo está passando... Ainda não sabemos qual é a vereda da música. Não sabemos o caminho que devemos trilhar para chegar ao sucesso da música que mais agrada a maior parte do povo brasileiro. O ritmo que parece estar nas raízes de nossa literatura, uma parte nos modernistas de 1930 e outra nos românticos de 1850. Mas como dizia Euclides da Cunha em Os Sertões, o sertanejo é antes de tudo um forte. Caro leitor, o desfecho desta crônica sobre as árduas veredas do sonho para o sucesso da música sertaneja ficará na imaginação de cada um de vocês.