Quem colocou o deputado federal Wladimir Costa (o da tatuagem Temer) em sua cadeira na Câmara? A propósito, quem colocou lá os seus 512 colegas? Dez entre dez membros das classes civilizadas deste país ficaram escandalizados com o "deputado da tatuagem". Mas não gostam de considerar que ele, e gente como ele, só está no Congresso Nacional porque os eleitores decidiram com seus votos que deveriam estar lá. Este mesmo deputado da bancada do Pará está no seu quarto mandato, nunca se destacou por algum grande feito parlamentar. Seu voto a favor do governo, como tantos outros, corria o risco de passar despercebido, mas graças à tatuagem garantiu que não será esquecido pelos atuais gerentes da máquina pública.
Este mesmo deputado foi cassado pela Justiça Eleitoral por compra de votos, mas até agora não lhe aconteceu nada; está recorrendo da sentença, como também no momento responde a indagação no Conselho de Ética da Câmara do Deputados. É óbvio que essa comissão não vai fazer coisa nenhuma e, o que é pior, provavelmente será reeleito para o quinto mandato.
O resultado é simples, o eleitorado do Brasil vota horrivelmente mal. Preconceito, elitismo, raiva do povo, negação da democracia, coisa de direita etc. - escolha qualquer uma dessas expressões para condenar a afirmação acima.
Deixe-se enganar à vontade. Se é errado dizer que o brasileiro e brasileira vota mal, por que os deputados e senadores do Brasil, para não dizer do resto da tropa, são tão ruins assim? De quem é a culpa pela entrega de cargos públicos aos políticos? A culpa é dos eleitores brasileiros, é claro - ou seria dos eleitores mexicanos?
A verdade é que o tempo passa e o desempenho da população brasileira na escolha de seus governantes continua sendo definido com perfeição em duas frases que causaram grande escândalo na época em que foram ditas.
A primeira é de Pelé, de 40 anos atrás, e se mostra cada vez mais certeira. "Brasileiro não sabe votar", disse. A segunda frase, dita há 25 anos, é do ex-presidente Lula. "Há uma maioria de 300 picaretas no Congresso", afirmou. (Mas na realidade deveria ter dito 500).
Mas o que realmente interessa, nos dois casos, é o seguinte: quem está disposto a dizer em público, hoje em dia, que o brasileiro sabe votar muito bem, ou que o Congresso Nacional é um lugar de gente séria? O eleitorado brasileiro é esse, e não dá para trocá-lo por outro. O máximo que se pode fazer é reduzir suas possibilidades de decidir errado - e isso poderia ser conseguido com uma reforma nas leis eleitorais que os políticos se recusam a aprovar. O resto é hipocrisia. Devemos votar com ética, e em quem tem ética, e não reeleger políticos com problemas de corrupção, citados e condenados pela Lava-Jato.