De acordo com dados da Polícia Judiciária de Bauru, a cidade tem cerca de um estupro a cada dois dias e meio. Naturalmente que uma parcela considerável dos atos de violência sexual não são denunciados, de modo que esse número é apenas uma amostra da nossa cruel realidade.
Essa triste estatística pairou essa semana nas redes sociais e gerou alguns comentários, mas logo assuntos mais empolgantes tomaram espaço, como a última partida de futebol ou o capítulo da novela. E não podia ser diferente, afinal, violência contra a mulher é um assunto batido, é "mi-mi-mi", é algo irrelevante, rotineiro, cotidiano.
E o mais estarrecedor é o contrassenso de tudo isso: se por um lado o respeito com o corpo, com o querer, com o pensar, com o ser não é importante, não sei quantas vezes ouvi pedidos de desculpas pós palavrões.
Alguém me explica o que isso quer dizer? Que tipo de "respeito" é esse que impede uma mulher de ouvir xingamentos ou xingar quando lhe der vontade? Que tipo de respeito é esse que gera desculpas pós palavrões, mas permite assédios, subjugações e depreciações públicas?
Que sociedade é essa que ainda vê a mulher como uma "dama recatada e do lar", que tem que ser bajulada com flores, mas pode ser tocada sem permissão?
Da minha parte, asseguro-lhes: não quero flores, portas abertas ou cadeiras puxadas; quero respeito real, que representa oportunidade, acesso, voz, espaço, voto, poder. E também o direito de xingar à vontade. Afinal, ao c@#@!%© com tanta hipocrisia.