08 de julho de 2026
Articulistas

Em mim mesmado

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Falta conversa neste mundo. Tanto desentendimento, tanto sofrimento e pensar que tudo poderia ser resolvido com uns bons dedinhos de prosa. Conversando, tudo se ajeita. Um diz que não vale a pena, o outro concorda e emenda que é melhor deixar pra lá. Esse ainda é o melhor jeito de negociar. Às vezes, custa mais, outras, menos, não importa o preço, estar bem com o outro é o que melhor se pode desejar.

Eu, por exemplo, ando conversando muito. Por isso, nunca estive melhor. Tenho conversado muito, mas comigo mesmo. É que ando sem saco, melhor dizendo, sem ouvidos, pra escutar histórias e opiniões alheias. As pessoas estão falando demais. Não é que precisem realmente nos dizer alguma coisa. Não, a necessidade é outra. Elas precisam mesmo é dar vazão à corrente nervosa - muita ansiedade e todo tipo de pressão - que vai se acumulando nesta nossa vida de louco. A urgência é de pôr pra fora o que não mais conseguem suportar, assim como vomitar. Daí, a metralhadora verbal giratória. Atiram para todos os lados, mas só falam de si mesmas. Na verdade, estão esvaziando-se, por isso alugam nossas orelhas, nenhum interesse elas têm de saber o que conosco se passa. Então, já que ninguém me escuta, eu resolvi me escutar. Falo sozinho sim, e daí? Assim faço e não me culpo, ajo em legítima defesa. Atento, me escuto, concordo comigo, às vezes de mim discordo, me elogio, mas também me xingo, digo-me sim, outras vezes, digo-me não, mas quando esse papo chega ao fim, sei exatamente o que fazer.

Não é coisa de louco não, coisa sem cabeça nem pé; ao contrário, falar sozinho coisa de sábio é. Duvida? O professor e pesquisador Antonis Hatzigeorgiadis, da Universidade de Thessaly, na Grécia, berço de toda filosofia, garante que aquele que fala consigo mesmo ativa dialogicamente os circuitos neuronais, o que potencializa as melhores decisões. Quando se fala sozinho, o cérebro dinamiza o circuito mesocorticolímbico do prazer, produzindo níveis maiores de dopamina. Falar sozinho ou falar consigo mesmo é tudo de bom, assim como comer chocolate, fazer sexo, coisinhas gostosinhas assim. Li tudo e tudo devidamente aprendi.

Mesmo não sendo sábio (bem o contrário sou), gostaria de fazer duas observações. A primeira: a conversa deve ser em voz alta. A segunda: tem que ser cara a cara, daí a necessidade de espelho ter. Bem isso: olho no olho e a coragem de ouvir e responder. Conversa assim tão sincera, nada ao diálogo verdadeiro fica a dever. Exatamente assim tenho feito e me sinto satisfeito com a cara no espelho. Eu me falo e me respondo, me elogio e me critico, doa em mim o que tiver de doer. Contudo, tenho visto gente falando alto sozinho na rua, coisa nada agradável de ver. Nesse caso, não é sabedoria, é loucura mesmo. Agora, todo cuidado é pouco na hora de sozinho falar. Nem mesmo dentro de casa aconselho que se faça. Recomendo o banheiro, mas trancado. Ah, um detalhe importante: todos de casa devem ter saído. Veja bem o porquê.

Outro dia, comecei a conversar comigo (claro, no banheiro trancado) e me disse umas verdades que eu estava precisando ouvir. E não é que, não gostando da bronca, eu gritei comigo. Então, perdi a paciência e me mandei para a "fruta que partiu", expressão que, como se sabe, só se pronuncia berrando. Minha mulher, lá na cozinha temperando, ouviu o meu destempero e, sabendo-me sozinho no banheiro, desesperada veio saber com quem eu estaria brigando.

Esmurrou a porta, abre pelo amor de Deus! Abri, gaguejei, enrolei, nada achei que pudesse me salvar. Acabei confessando: eu tinha xingado a mim mesmo. Com tristeza, ela maternalmente pôs a mão no meu ombro, "precisamos ir ao geriatra, meu amor, a demência já chegou".

Nada disso, protestei. Você não sabe o que está falando, não estou gagá não! Fui correndo ao meu quarto buscar o livro do pesquisador grego. Estava tudo ali, era ler e entender. Inteligente como ela é, logo percebeu as vantagens e começou a falar sozinha também. O problema é que moramos em apartamento pequeno de um banheiro só. A situação anda complicada, eu diria infernal.

O pobre do banheiro não consegue dar conta da demanda fisiológica, então sobrecarregada com a nossa diarreia verbal.