08 de julho de 2026
Bairros

A hora e a vez dos consertos e reformas

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 11 min

Fotos: Samantha Ciuffa
Sérgio Mineoka, técnico e empresário do setor de eletrônicos, diz que, com a aproximação do final de ano, demanda aumenta ainda mais
Hitoshi Asano, proprietário de empresa de conserto de eletrônicos: demanda de atendimentos cresceu até 20% no primeiro semestre deste ano na comparação com 2016

A crise e o consequente desemprego proporcionaram perda de poder aquisitivo de muitas famílias. No atual cenário econômico, é comum observar pessoas tímidas e receosas quando o assunto é contrair novas dívidas para a compra de bens. Da mais alta até a mais modesta classe social, a situação faz com que o descarte de produtos de consumo como mobílias, eletrodomésticos, eletrônicos entre outros utensílios utilizados na rotina do lar, perca o espaço que reinou quase absoluto nos últimos anos de crescimento. Na contramão, um setor, presente em diversos bairros de Bauru, tem ressurgido e estado em evidência: o de consertos e reformas de produtos.

Serviços que, geralmente, não ultrapassam 50% do preço do produto têm ajudado a alongar a vida útil dos mesmos e, assim, proporcionar economia para o bolso dos consumidores em tempos bicudos.

O economista Fernando Pinho reforça a tendência de crescimento do ramo pelos próximos anos em virtude da crise.

PANORAMA

Na região central da cidade, a empresa de consertos de eletrônicos dos sócios Hitoshi Asano e Sérgio Mineoka, que existe desde 1983, viu sua demanda de atendimentos crescer até 20% no primeiro semestre deste ano na comparação com 2016.

O cenário positivo também tem sido percebido por outra empresa de consertos de mobílias em vime e bambu, na Vila Mesquita. O artesão Carlos Alberto Dias, que está no ramo há 30 anos, contabiliza aumento de até 40% de serviços em relação ao ano passado.

O mesmo percentual é aplicado pelo técnico de conserto em fogões Adilson Quirino de Oliveira, do Parque Granja Cecília, sobre o número de atendimentos que ele tem registrado em toda a cidade nos últimos dois anos em relação a épocas anteriores.

Empresária do ramo de conserto de eletrodomésticos no Jardim Europa, Amanda Nicolau também tem notado ligeiro aumento em sua demanda por conserto de máquinas de lavar, geladeira e micro-ondas, principalmente. E para aproveitar, já projeta apostar em novos serviços.

A alta procura por reformas, especialmente nas últimas duas semanas, também impulsiona os negócios de uma empresa de conserto e fabricação de sofás tocada pela família Cunha, no Mary Dota.

Até um paneleiro na Vila São Paulo, que havia interrompido suas andanças pela cidade anunciando o serviço, está pensando em voltar à ativa com a expectativa de dias melhores.

Da mais alta até a mais modesta classe social, o descarte de produtos de consumo como mobílias, eletrodomésticos, eletrônicos entre outros utensílios tem perdido espaço

Atualizar é precisoâ??

Samantha Ciuffa
Equipamentos cada vez mais modernos, exigem renovação constante do conhecimento para serem reparados

Antes, eram os vídeos cassetes e as TVs de tubo, hoje são os home theaters e as grandes e finas TVs compostas por chips e LEDs. O avanço da tecnologia gera, automaticamente, a necessidade de atualização dos técnicos em eletrônica, principalmente de unidades autorizadas. "Quem não investe, acaba ficando para trás e, em momentos como este, recebe menos trabalho", reforça Hitoshi Asano, de 71 anos, proprietário de uma loja do tipo na quadra 2 da rua Monsenhor Claro, na Vila Mesquita.

Tanto investimento não é atoa. Além da expectativa positiva que o momento econômico proporciona ao setor, outro aliado tem garantido mais serviço ainda. "Os seguros residenciais ajudou bem a aumentar a demanda", complementa seo Hitoshi.

O sócio dele, o técnico Sérgio Mineoka, 57 anos, detalha ainda que períodos como fim de ano e verão são ainda melhores para o setor. "Os raios e as oscilações de energia causam danos aos aparelhos. O pessoal esquece que é preciso tirar da tomada", alerta.

Cenário é tendência para os próximos anos, diz economistaâ??

Consumidores estão mais preocupados em manter o que já possuem e em criar reservas, como a poupança, do que em consumir, avalia economistaâ??

Malavolta Jr./JC Imagens
Fernando José Martha de Pinho: a recessão tem deixado os consumidores confusos e com medo de contraírem novas dívidas

Ainda longe de acabar, devido à instabilidade econômica e política do País, o período de recessão tem deixado os consumidores confusos e com medo de contraírem novas dívidas, segundo aponta o economista Fernando Pinho. Para ele, o cenário econômico, que fortalece o mercado de reformas e consertos, é uma tendência para os próximos três anos.

"O mercado, quando começa a reacender, reage de forma um pouco lenta. A retomada na economia nunca é na mesma proporção para todos os setores", cita.

Outro ponto são os indicadores de melhorias na economia, que estão confusos, com a queda e aumento repentino da inflação, do nível de emprego e da arrecadação.

"Ao invés de comprarem novos produtos ou dar aquele 'Up' na casa, as pessoas acabam optando por reformar ou consertar aquilo que já têm para continuar tocando a vida. Afinal, os eletrodomésticos não baixaram, continuam caros", comenta o economista.

CAUTELA

Marcele Tonelli
José Carlos Lopes da Silva gastou cerca de R$ 1,5 mil para reformar o sofá de uma década da família: â??Um novo não sairia por menos de R$ 3 milâ?, diz

Fernando Pinho acredita que a situação deverá perdurar mesmo após o período de recessão. â??As pessoas estão muito mais preocupadas em manter o que já possuem e em criar reservas, como a poupança. Quando houver a retomada, o nível de emprego continuará caindo, porque será um período em que as empresas já terão apostado na automatização e racionalização do processo produtivoâ?, considera o economista.

Ã? o que fez há uma semana o instrutor de autoescola José Carlos Lopes da Silva, 51 anos, morador do Mary Dota, ao gastar cerca de R$ 1,5 mil para reformar um sofá. O móvel, agora em tecido lino branco, possui aproximadamente uma década. â??Pagamos caro quando compramos e, hoje, um novo não sairia por menos de R$ 3 mil. Estamos terminando a reforma na sala da casa e não temos motivos para nos desfazer dele.â?

SEM TEVÃ? NOVA

André Luiz Ponteado, 29 anos, também optou por consertar a tevê ao invés de gastar cerca de R$ 2 mil para comprar uma nova. â??Estava assistindo e, do nada, apagou tudo. Espero que tenha conserto, não dá para ficar semâ?, comenta o metalúrgico, que foi até a empresa de eletrônicos na Vila Mesquita procurar pelo reparo.

Marcele Tonelli
André Luiz Ponteado optou por consertar a tevê ao invés de comprar outra

O â??arrumaâ?? tudoâ??

Da mesma realidade que os outros bauruenses citados, partilha o aposentado Luiz Augusto Pereira, 63 anos, que na última semana foi até a assistência técnica de eletrodomésticos no Jardim Europa para tentar encontrar uma peça e consertar a máquina de lavar roupas de sua cunhada. â??Eu tenho esse costume de consertar as coisas e ela acabou me pedindo para ir, para não ter que comprar outraâ?, comenta Pereira.

â??Eu gosto de arrumar as coisas. O micro-ondas de casa mesmo já foi consertado três vezes. Se dá para consertar, por que vou me preocupar em comprar produtos novos iguais?â?, indaga o aposentado.

Samantha Ciuffa
Luiz Augusto Pereira foi em busca de reparos para uma máquina de lavar: se dá para consertar, por que comprar outra?

De olho no filão, empresas de consertos reformas já projetam crescimento

Considerando o aumento da procura pelo serviço e com olhos atentos ao mercado, Amanda Nicolau, 36 anos, proprietária da empresa de conserto de eletrodomésticos na quadra 18 da avenida Nossa Senhora de Fátima, no Jardim Europa, já projeta o término da reforma na sede da loja e até a ampliação dos serviços oferecidos.

Samantha Ciuffa
A empresária do ramo de conserto de eletrodomésticos Amanda Nicolau já projeta a expansão dos serviços na empresa, que vai passar a alugar eletrodomésticos

â??Queremos dar um â??upâ? no negócio. E aproveitar esse momento da economia para investir até em um novo serviço, o aluguel de freezers e geladeiras. Isso faria com que não ficássemos apenas restritos aos consertosâ?, pontua Amanda.

Queda e aumento repentino da inflação, do nível de emprego e da arrecadação deixa a economia e as pessoas confusas e receosas em gastar

O negócio possui cerca de 30 anos na cidade.

REFORMA SOFÁS

O mesmo ocorre com a empresa da família Cunha, que fabrica e reforma sofás há décadas no Mary Dota, na quadra 23 da avenida Marcos de Paula Raphael.

â??Ao reformar, a pessoa acaba gastando, em média, a metade do valor do que se fosse comprar um novoâ?, comenta Vinícius Souza Cunha, 28 anos.

â??Recebemos muitas reformas, mas queremos que o nosso forte seja a fabricação sob medida, que é o que pretendemos expandir nos próximos anosâ?, planeja Vinícius.

Por enquanto, a responsável pela tapeçaria da empresa da família é a dona Fátima Cunha, 60 anos, que é costureira de mão cheia.

Fotos: Marcele Tonelli
Vinícius Cunha e seu pai Marcos Antônio Cunha planejam expandir a fabricação de peças sob medida de uma empresa que reforma sofás no Mary Dota
Dona Fátima Cunha é a responsável pelos serviços de tapeçaria na empresa da família

â??Panela velha é que faz comida boaâ??

Atento aos sinais do mercado, paneleiro da Vila São Paulo que havia abandonado serviço nas ruas há quase 4 meses, projeta retomadaâ??

Fotos: Marcele Tonelli
Eufrásio Paes, conhecido paneleiro da Vila São Paulo, deve voltar a oferecer o serviço nas ruas de Bauru
A oficina móvel de seo Eufrásio Paes adaptada em um Fiat/Uno: de volta às ruas

Desolado com o mercado nos últimos meses, seo Eufrásio Paes, 70 anos, conhecido paneleiro da Vila São Paulo, já projeta voltar ao serviço nas ruas após quase quatro meses parado. Lidando apenas com encomendas em casa, ele diz que o sinal positivo do mercado de consertos e reformas é o que o tem motivado a acreditar que dias melhores virão.

"Por enquanto, ainda tá fraco, mas acho que isso se deve mais ao campo, que foi prejudicado pela concorrência. Tem muita gente que se faz de paneleiro por aí cobrando R$ 20,00 por um conserto que é R$ 10,00. E isso mancha a imagem da gente, que é honesto", critica.

Há 25 anos consertando panelas em Bauru, ele afirma que o serviço mais caro cobrado para a reforma de uma panela pressão, por exemplo, custa até R$ 35,00. "Já se você for comprar uma panela nova, você vai gastar mais de R$ 140,00, e mesmo assim pode ter problemas", defende o paneleiro.

"Sabe por quê? A verdade é uma só: panela velha é que faz a comida boa [risos]", completa o morador da quadra 12 da rua Baltazar Batista, na Vila São Paulo.

QUANTO MAIS ANTIGO, MELHOR

Das panelas para o fogão, Adilson Quirino de Oliveira, 38 anos, é quem comanda os consertos e manutenção de fogões do Parque Granja Cecília para toda a cidade. Desde criança ele acompanhava o pai no serviço e, hoje, possui sua própria empresa, localizada na quadra 16 da rua Pedro Redondo Olher, no bairro citado.

A experiência se traduz na duração dos serviços feitos em domicílios, que não levam mais do que 1h20 para terminar.

"Tenho feito mais consertos do que instalação de fogões novos, ultimamente", observa o Oliveira, reforçando o cenário positivo do mercado dos usados.

"O que é bom, porque quanto mais antigo, melhor o fogão, digo em relação à qualidade de peças. Não se faz mais peças como antigamente. Antes, um fogão durava de 20 a 30 anos. Hoje, dependendo da marca, não dura nem 3 anos", conclui.

Samantha Ciuffa
Adilson Quirino de Oliveira, técnico de conserto em fogões: reforma vale a pena, principalmente em equipamentos antigos, que têm durabilidade maior

Reformas: a arte de tecer poltronas e cadeiras

Com movimento atual de clientes 40% maior que em 2016, o artesão Carlos Alberto Dias comemora a prospecção do negócio que mantém há 11 anos na Vila Mesquita. Fabricante de poltronas, espreguiçadeiras e cadeiras em vime, bambu, ratan e junco, ele diz que tem atendido maior demanda por reformas do que por fabricação.

â??Uma espreguiçadeira, por exemplo, custa cerca de R$ 1,2 mil nova. Reformada por completo, a mesma sai por R$ 240,00â?, compara. â??Caminhões que estacionam pela cidade têm vendido elas em preço abaixo do mercado, mas quando algum problema acontece é para cá que os clientes corremâ?, completa.

Samantha Ciuffa
Carlos Alberto Dias: reformas têm superado fabricação de poltronas e cadeiras

â??Podem não ser os móveis da moda, mas são meus bibelôsâ??, Paulo César Rodrigues

Fotos: Samantha Ciuffa
Paulo César Rodrigues mostra fogão do início da década de 90 que irá para a reforma
TV de tubo já foi três vezes para o conserto, mas Paulo César Rodrigues não abre mão: â??tela plana não faz faltaâ?, crava

Tem gente que reforma e conserta móveis e eletrodomésticos por necessidade e contenção de despesas. Mas também existem pessoas que reformam pelo gosto em manter a casa com visual retrô e até pelo apego aos produtos e mobílias, como é o caso do engenheiro mecânico e ambiental Paulo César Rodrigues, 55 anos, que não abre mão dos lustres e móveis antigos, da TV de tubo e do fogão do início da década de 90.

â??Não me considero uma pessoa consumista e tenho orgulho disso. Meus móveis e eletrodomésticos podem não ser os da moda, mas são meus bibelôs. Procuro me desfazer só quando realmente não tem consertoâ?, conta Paulo César Rodrigues.

Mas tanto apego com utensílios, móveis e eletrodomésticos antigos não é à toa. â??Eles duram muito mais do que os atuais. Um fogão novo da qualidade do meu, por exemplo, é caríssimo. Se ele está funcionando bem, não tenho motivos para trocar, basta uma reforminhaâ?, finaliza Paulo.