Passaram-se alguns anos após a mudança de minha família para esse vilarejo. Os tempos eram duros, a luta diária pela sobrevivência tornava a vida muito difícil. A vila era de casebres insalubres, sem conforto algum, as doenças eram comuns, poucas pessoas viviam mais que 35 ou 40 anos.
Alguns viajantes trazem notícias de terras longínquas, dizendo que uma doença terrível está se espalhando pela Europa. Ficamos apreensivos. Meu pai, sempre cuidadoso com a segurança de sua prole, busca mais informações, porém pouco consegue. Nesses tempos, mulheres eram apenas para dedicar-se aos afazeres domésticos, nada nos era permitido. Alfabetização nem pensar!
Diziam que mulheres com visões diferentes daquelas impostas pela sociedade eram consideradas bruxas. Em toda história, a mulher carrega o peso do pecado, a culpa pela queda do Éden! Eu, em minha rebeldia, queria sempre saber mais. Procurava tentar entender os desmandos dos senhores do poder, eternamente inconformada com tal situação.
Minha família temia por minha segurança, diziam pra que eu não falasse em público sobre minhas ideias. Poderia me colocar em má situação, sim! Os homens não entenderiam! Não é possível uma sociedade inteira ser subjugada por meia dúzia de pessoas? Não podemos nos conformar, simplesmente concordar! Dizer amém para tudo. Soberanos de outros reinos sempre a procurar terras para invadir e oprimir os mais fracos, não, isso não é viver!
As doenças trazidas por terras distantes, pragas carregadas em navios, assolam os vilarejos! Se existe um Deus, ele nos proverá! Sim! Em meus devaneios, acredito que posso falar com ele, perguntar-lhe sobre a vida, a morte e a missão de cada um na terra!
Penso ser uma desgraça nascer mulher em um mundo dominado por calças! Nada nos é permitido, nem lutar, nem discordar, somos menos que porcos no chiqueiro! Onde está escrito que somos menores, menos capazes, que não raciocinamos, onde? Sempre acreditei que a determinação e a disciplina podem nos levar à vitória. Uma batalha só será vitoriosa com a força de nossos ideais. A história se repete! Por milhares de anos, as mulheres foram subjugadas, escravizadas, relegadas a segunda classe, objetos para procriar!
Não haverá avanço, em nenhuma sociedade, sem união, sem preconceito, para se empunhar uma espada é preciso ter calças? Nascer homem? Por quê?
Qual a diferença da coragem de um ser humano? Homens ou mulheres, iguais no intelecto! Coragem não pertence a nenhum sexo. Esse relato fictício foi feito por uma mulher da era medieval. Entremos em nossa máquina do tempo para desembarcar no presente.
A história se repete! Chegamos ao século XXI. Os absurdos pré-conceituais são os mesmos ou piores que aqueles dos dias longínquos de séculos passados. A história se repete diariamente na discriminação de todo tipo. De cor, sexo, posição social, estereótipos físicos, opções sexuais, religião e uma infinidade de outras tantas formas de subjugar o semelhante. A história se repete! E sempre se repetirá. Até quando? Que evolução é essa? Que sociedade moderna é essa? Uma sociedade que escolhe levantar muros de intolerância e abismos intransponíveis de convivência!
Antes de qualquer escolha, ou diferenças, não podemos nos esquecer que sempre seremos seres humanos e habitantes do mesmo planeta. A história se repete. Apenas um manifesto!
"Sei agora o seguinte. Todo homem dá sua vida pelo que ele acredita. Toda mulher dá sua vida pelo que ela acredita. Há pessoas que acreditam em pouco ou em nada e, ainda assim, dão suas vidas por esse pouco ou por esse nada. Tudo o que temos é a nossa vida, e a vivemos como acreditamos que devamos vivê-la, e então ela se vai. Mas renunciar ao que se é e viver sem acreditar em nada é mais terrível do que morrer - mais terrível até do que morrer jovem."