| Samanta Ciuffa |
| Crianças do Colégio São José fizeram passeio pela região central ontem, o despertar do civismo em torno da independência simbolizado em balões amarelo e verde |
Eis nosso 7 de setembro de 2017 e com ele o desfile de velhas questões. Entre elas, que modelo de independência nos trouxe até aqui e de que forma ele ajuda a compreender nossos defeitos como sociedade, em meio a mais um episódio de repetição, cíclica, de grave crise institucional, política e social? Quais elementos entre passado e presente nos ajudam a realizar reflexão sobre nossas mazelas neste dia de celebração da independência?
Da controvérsia sobre a dita, ou não dita, frase "Independência ou morte" por Dom Pedro, às margens do Ipiranga, à mula que supostamente o carregava rumo ao inevitável rompimento com a Corte Portuguesa em 1822, os festejos da pátria permanecem sob pouca reflexão. Para estudiosos de ciências humanas da Unesp-Bauru, as dúvidas acerca do meio de transporte passam ao largo, tanto quanto nossa capacidade de fazer releitura da história brasileira. Ou seja, nossa carga de desigualdade e de contrastes sociais permanece.
Professor da área de ciência humanas da Universidade Estadual Paulista, campus Bauru, doutor Maximiliano Martin Vicente, contribui que nosso modelo de independência nos provoca. "Se história é entender o passado pelo presente e o presente pelo passado, o que temos é uma relação muito forte de construção de diferenças sociais que se repetem em nosso tempo, do grito do Ipiranga até aqui", pontua.
Sob qualquer recorte histórico, ou de leitura social, de início Maximiliano pondera que não há como fugir da compreensão de que "independência é feita pelas elites que se rebelaram, aqui em quase todas as outras ocorrências, contra a exploração, o pagamento de muitos impostos para o colonizador. Esse modelo só não se repetiu com os EUA porque lá a mineração do ouro foi feita depois da independência".
De qualquer forma, o docente da universidade pública retoma a relação entre a manutenção de privilégios pela elite, em qualquer fase de nosso processo de construção de País. "A independência é a reação das elites ao pagamento elevado de impostos a Portugal. E os processos seguintes mantêm as gritantes desigualdades, onde as elites não atenderam, e não atendem, à população carente. É um movimento de sofrimento que se repete, dos privilegiados de um lado e dos que têm nível e poder aquisitivo muito baixos, de outro", acrescenta.
Ou seja, na visão de Maximiliano, o modelo de independência se repete, no passado e presente. "Esse conceito de construção de privilégios e de profundas diferenças sociais se repete no tempo, no passado e no presente. E, para mim, nos ajuda a compreender, a fazer leitura. Um modelo que inclui alienação midiática e que, em boa parte, também explica a boa dose de anestesia social que nos abate nesse momento", amplia.
REPETIÇÃO DE FRACASSOS
| Malavolta Jr. |
| Maximiliano Vicente ressalta pouca prática democrática |
Maximiliano Martin Vicente ressalta outro eixo de reflexão necessária. As poucas idade e experiência de nosso exercício democrático.
"Eleição democrática de fato e de direito tivemos a de 1989, com o Fernando Collor de Mello. É muito recente para nossa história. Em 1989 foi que todos pudemos votar. E é um fator que precisa ser lembrado ao avaliarmos nosso processo de construção de um modelo democrático", ressalta.
Além disso, o docente da Unesp menciona dois dilemas. "Um é a crise de representatividade na construção de nossa independência real. Somos um povo que não é representado pelos políticos e não se sente representado. Outro dilema é o fracasso da democracia de coalização. Os modelos de construção de nossa independência real repetem fracassos. E esses dilemas criaram uma distensão grande da democracia", conclui.
O PAPEL E A POSTURA DE CADA UM NO CENTRO DO DIÁLOGO
Para o também professor, com doutorado, de ciências humanas da Unesp, antropólogo Cláudio Bertoli, o 7 de setembro oferece duas dimensões para reflexão.
Uma é factual, a lembrança do conceito de Nação a partir das festividades, da realização de desfile em espaços públicos, do cantar do hino às ações educacionais e institucionais a respeito do conceito de pátria realizadas por todo o País.
| Neide Carlos/JC Imagens |
| Cláudio Bertoli sugere reflexão do papel de cada indivíduo |
Outra dimensão é sugerida por Bertoli para a forma como cada cidadão expressa sua avaliação sobre nosso modelo de independência. "Nossas explicações para nossos problemas na construção de nossa independência no tempo, regra geral, apontam sempre para o outro, para endereços externos e nunca na postura, no comportamento de cada um", incita.
Cláudio Bertoli faz dois recortes para exemplificar sua inquietude com o tema. "Se falamos do século XIX costumamos pensar que nossas deficiências são explicadas em função dos reflexos da hegemonia britânica no Brasil. Os problemas aqui se explicavam pelos problemas vindos da Inglaterra", aborda.
Se o raciocínio sobre nosso modelo de construção de sociedade desembarcar no século XX, muda o alvo. "Neste período tendemos a explicar nossos problemas a partir do imperialismo americano que predomina sobre a sociedade brasileira a partir de então", exemplifica.
Mas a advertência de Bertoli não é para a origem do problema, mas pela postura do brasileiro diante de suas fraquezas enquanto sociedade. "A explicação sobre ausência de democracia plena, sobre nossas mazelas no modelo de independência, sempre são colocadas no outro, em um modelo, em instituições. Eis uma sugestão de reflexão. Que este 7 de setembro nos instigue a refletir sobre o eu, como cada cidadão está atuando nesse processo, qual a postura de cada um?", propõe.
O professor indaga que, qualquer que seja a discussão sobre nossas diferenças e crises, a explicação não leva em conta as nossas condutas pessoais. "Repetimos o tempo todo que nossos problemas estão em todos os partidos, estão na origem partidária, que os responsáveis são os políticos, os corruptos, os corruptores e os partidos. Nunca o problema é do cidadão. Então minha contribuição é que o cidadão pensa sobre qual papel ativo ele está desempenhando. Qual é meu papel nisso? Qual é minha conduta? Quais ações e sob qual referência ética, de valores, estou assumindo?", sugere.
DESFILE DEVE LOTAR O SAMBÓDROMO
O tradicional Desfile Cívico será realizado no Sambódromo hoje, a partir das 8h45. O evento é uma realização da Prefeitura Municipal, através das secretarias, Polícia Militar e Forças Armadas.
Mais de 50 organizações devem participar do desfile. São escolas públicas e privadas, instituições de caráter social, clubes de serviço, associações, bandas marciais, além de corporações e serviços da Polícia Militar.
Dentre as participações, destacam-se a Capitania Fluvial do Tietê-Paraná, representada pelos militares e embarcações da cidade de Barra Bonita; os animais da Polícia Militar (Grupamento Canil e Grupamento Montado da Cavalaria); o sobrevoo do Helicóptero Águia; e as Bandas Marciais, com suas evoluções em frente ao palanque.
Dentre as organizações estreantes, a organização ressalta o Aeroclube, inclusive com sobrevoo de aeronave; a Polícia Federal; a Força Pré-Militar Brasileira (Fope); a Fatec Bauru; e Associação Bauruense de Desportes Aquáticos (ABDA).
Mais de 2,8 mil pessoas desfilarão pela pista do Sambódromo e o evento, como nos anos anteriores, deverá ter lotação das arquibancadas.
A solenidade de abertura será às 8h45, com hasteamento das bandeiras e execução do Hino Nacional e Hino da Independência. A partir das 9h, inicia-se o desfile efetivamente.