08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Brincando de escritor

Cinthya Nunes
| Tempo de leitura: 3 min

Viajamos com minha irmã, cunhado e afilhado, nessas férias, por alguns dias, para descansarmos um pouco. Em certa parte da viagem, fizemos um passeio de trem, da cidade de Curitiba até Morretes, Estado do Paraná.

Embora a paisagem fosse de arrasar, a viagem de quatro horas cansou um pouco o Otávio, meu sobrinho de cinco anos.

Quando o passeio começou e me dei conta de que nossos lugares eram encostados aos banheiros do vagão, fiquei em pânico. Entre as chatices que tenho na vida uma delas é o horror que tenho de banheiros. Eu recuso toda acomodação que ficar perigosamente próxima de um sanitário, por óbvias questões de higiene e de olfato.

Tão logo o trem iniciou seu trajeto eu mirei os assentos traseiros e descobri dois vazios. Corri para lá antes que alguém os ocupasse. O Otávio, que esteve grudado em mim durante as férias, tratou de ir junto, levando embora toda possibilidade de uma boa soneca ou de uma leitura calma e contemplativa.

Como passamos, para minha tristeza, poucos momentos juntos, não pensei duas vezes e tratei de curtir a oportunidade. Depois de ouvi-lo me perguntar, passada apenas meia hora de viagem, se já estávamos chegando, vi que precisava arrumar uma forma de ocupá-lo, de diverti-lo, e foi aí que inventei de escrevemos juntos um livro.

Curiosamente, ele tinha pedido para mãe comprar para ele, no dia anterior, uma caneta e um pequeno caderno, para desenhar. E foi com esse material que iniciamos nossa história. Eu comecei descrevendo uma situação e ele deveria continuar. Cada um se incumbiria de falar uma parte. E o que aprendi com isso vai ficar para sempre guardado comigo, sobretudo nas minhas mais bacanas lembranças afetivas.

Criamos uma história de um menino preso em um vagão de trem antigo e que lá dentro achou um fantasma. Rapidamente o fantasma virou um fantasma vampiro, com pés de lobisomem.

Resolvi superar minhas travas criativas e deixei que a história fluísse além da lógica que eu imaginava, não permitindo que eu tentasse, a cada ponto, trazer a história de volta para os rumos que eu queria.

A imaginação de uma criança é infinitamente mais poderosa do que a de um adulto. Para eles tudo é possível e se vampiros e lobisomens não existem (eu acho, né? Rsss), então qual o problema de um fantasma ser um pouco dos dois?

A ficção não tem amarras, mas é duro nossa mente lógica não ficar lutando contra o impossível.

A uma certa altura, em que a história já tinha tomado mil rumos, todos loucos e muitos legais, o menino, o protagonista, tornou-se um homem.

Eu perguntei para o Otávio como ele tinha crescido de repente, no meio das coisas, ao que ele me respondeu que como já estávamos escrevendo há muito tempo (cerca de uma hora), o menino já tinha crescido. De fato havia uma lógica nessa afirmação e isso eu não podia negar.

Construímos juntos também os vilões, porque durante a coisa toda, em algum momento, o fantasma cruza de vampiro com lobisomem acabou virando amigo do mocinho, em uma prova de que ninguém precisa ser ruim para sempre ou de que não é o fato de você parecer um monstro que te faz ser alguém ruim.

Fiquei encarregada de alguns vilões, mas depois que o Otávio construiu os primeiros, achei melhor que ele continuasse, pois os meus iriam parecer jovens donzelas perto dos criados por eles.

Posso dizer que foi uma experiência muito mais incrível do que qualquer sonho que eu pudesse ter dando uma cochilada pelo caminho. Ficou a lição de, na vida, muitas vezes, acabamos nos contentado com muito menos do que somos capazes e de que, sem se tratando de imaginação, o melhor é deixá-la correndo solta por aí.