Eu me sinto descompassado em relação ao frenético ritmo de vida da atualidade, da correria que vai não sei para onde, das notícias divulgadas e é justamente por isso que depois que os fatos acontecem é que dou conta e me manifesto. Sim, realmente sou lerdo em comentar fatos ocorridos e noticiados. Muitas vezes com grande destaque como este a que vou me referir. Estou justificando porque algum leitor que, feliz ou infelizmente, vive no ritmo do tempo poderá questionar-me: "Mas agora? Essa notícia já era". Porém, sigo a máxima que afirma de que "sempre é tempo".
Fundamentando-me pois nesse sábio dito é que vou referir-me a um triste e inadmissível fato acontecido recentemente, muitíssimo noticiado pelos jornais e tv e que obviamente circulou ao redor do mundo através da internet. Um triste acontecimento que causou revolta entre as pessoas de bom senso e que não pode ser considerado como uma simples ocorrência policial com apuração dos fatos pelo Ministério Público, mas que evidencia muita profundidade, motivo de reflexão e estudo para educadores, sociólogos, filósofos e outros especialistas. Após este longo introito, em curtas palavras, vou à triste ocorrência. Refiro-me à covarde agressão sofrida pela colega professora Marcia Friggi, 51 anos, em sala de aula de uma escola pública de Indaial, SC, por um adolescente de 15 anos, com antecedentes e certamente do ensino médio. E que afirmou na polícia 'que se arrependeu"!
A foto da colega com o olho direito roxo provocado certamente por um potente soco, estampada pelos jornais e divulgada pela net provocou comoção e repúdio geral pelo lamentável fato e, em contrapartida, felizmente, uma calorosa solidariedade humana. Paradoxais extremos: solidariedade e repúdio; uma avaliação que não poderia ser diferente. Mas aí entra a profundidade a que me referi. Como deve ter sido a infância desse adolescente agressor?
Acredito que como a sua, há milhões de famílias iguais neste país e no mundo! Como deve ter sido o seu trajeto ou percurso de vida familiar e escolar até chegar a esse ponto? Será que em sua vida escolar houve algum trabalho que detectasse tal tendência à agressividade? E será que tal assistência e prevenção existem na escola pública em geral deste nosso país? Pois, estatisticamente falando, estas agressões e desvios ocorrem em sua maioria absoluta na rede pública devido à universalização da clientela. Como aposentado do ensino público estadual, após ter ocupado inúmeros cargos em minha carreira do magistério, afirmo categoricamente que não houve porque a realidade daqueles tempos era outra; não há e duvido que haja no futuro dentro deste "modus vivendi". Realidade em que, infelizmente, como se vê pelos jornais e principalmente pela mídia televisiva, as desgraças e a violência estão banalizadas nas sociedades, no mundo em geral com respingos na escola. Entenda-se de que a escola não é uma ilha, faz parte do mundo global e, consequentemente, esta banalização está chegando à mesma, porém e felizmente, em menor intensidade.
Ressalte-se que esta violência não tem chegado à escola particular em que os pais têm que pagar muitas vezes altas mensalidades havendo uma natural seleção em relação ao acesso e onde também a vida escolar e comportamental do aluno é acompanhada por coordenadores que estão sempre informando os pais. Há casos excepcionais em que, após esgotados todos os recursos preventivos, assistenciais e pedagógicos da própria escola, alunos provocadores de faltas graves são "convidados" a procurarem outra unidade. Diga-se de passagem, medida muito triste e decepcionante para os pais e para a própria escola. Enfim, aonde eu quero chegar poderá perguntar algum leitor.
Eu "não quero", pois já cheguei de há muito a tristes conclusões. Uma, de que a profissão de professor, um verdadeiro e apaixonante sacerdócio, está se tornando a cada vez mais perigosa, vulnerável a agressões físicas e prejuízos materiais. De que existe uma desmotivação muito grande dentro desta nova geração para a formação de professores para o ensino fundamental e médio. Poderá até acontecer de que no futuro queiram substituir o professor pelo robô. Só que o robô, por mais eficiente que seja, não dá a formação necessária e esperada e nem o amor que o professor dispensa aos seus alunos. E, como agravante ao desinteresse pela profissão ou sacerdócio, prevalece sua aviltante remuneração. É vergonhoso o que o professor recebe mensalmente. Que o digam os aposentados! Finalizando, embora com atraso, fato natural para mim, hipoteco a minha irrestrita solidariedade à colega Márcia Fruggi que, sem querer, mas felizmente, tornou-se uma bandeira que conquistou o mundo. Tornou-se um ícone.