11 de julho de 2026
Nacional

Lula foi denunciado por corrupção passiva enquanto era presidente

José Marques e Catia Seabra
| Tempo de leitura: 3 min

Ricardo Stuckert/Fotos Públicas
Lula ao lado de liderança indígena em Teresina, no início do mês

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi denunciado por corrupção passiva, pelo Ministério Público Federal do Distrito Federal, sob acusação de aceitar promessa para receber recursos ilegais em 2009, quando ainda ocupava a Presidência.

A denúncia, oferecida na sexta e divulgada nesta segunda, é um desdobramento da Zelotes, operação em que Lula já é réu desde o ano passado, ação que tramita no DF.

Segundo a Procuradoria, Lula e seu então chefe de gabinete, o ex-ministro Gilberto Carvalho, aceitaram promessa de vantagem indevida de R$ 6 milhões para favorecer as montadoras MMC e Caoa na edição da medida provisória 471, de novembro de 2009.

Em troca, o dinheiro serviria para arrecadação ilegal da campanha eleitoral do Partido dos Trabalhadores. O esquema era intermediado, segundo o Ministério Público, pelas empresas M&M e pelo lobista Alexandre Paes dos Santos.

Além de Lula e Gilberto Carvalho, denunciados sob acusação de corrupção passiva, o Ministério Público acusa Alexandre Paes dos Santos e José Ricardo da Silva (ambos da empresa SGR), Mauro Marcondes (M&M), Paulo Arantes Ferraz (MMC) e Carlos Alberto de Oliveira Andrade (Caoa) de corrupção ativa.

Os procuradores que assinam o documento, Frederico de Carvalho Paiva e Herbert Reis Mesquita, ainda pedem que sejam devolvidos R$ 12 milhões aos cofres públicos e multa por danos morais coletivos.

José Ricardo, Alexandre Paes e Mauro Marcondes, segundo os procuradores, formavam com outras pessoas uma associação criminosa para corromper agentes públicos e beneficiar as montadoras.

A denúncia do Ministério Público Federal usa como provas cartas que seriam endereçadas a Lula com pedidos de alteração legislativa, por meio de medida provisória, para beneficiar as montadoras, o que acabou acontecendo.

São usados ainda manuscritos, e-mails e atas de reuniões. Em uma mensagem, Alexandre Paes dos Santos diz que os "colaboradores" de Mauro Marcondes teriam exigido R$ 10 milhões e o valor foi reduzido para R$ 6 milhões.

Além da edição e posterior aprovação da matéria no Congresso, o Ministério Público diz que recursos foram usados para comprar o cancelamento de um débito de R$ 265 milhões no Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), órgão ligado ao Ministério da Fazenda -esse caso já é alvo de outra ação penal que tramita na Justiça Federal em Brasília.

ZELOTES

Deflagrada no fim de março de 2015 com origem em uma carta anônima entregue num envelope pardo, a Operação Zelotes da Polícia Federal investiga um dos maiores esquemas de sonegação fiscal já descobertos no país.

Suspeita-se que quadrilhas atuavam junto ao Carf, revertendo ou anulando multas. A operação também foca lobbies envolvendo grandes empresas do país.

A defesa do ex-presidente já foi contatada pela reportagem, mas não se manifestou.

Não levei uma caneta do governo’, diz ex-ministro sobre denúncia?

O ex-ministro Gilberto Carvalho negou nessa segunda-feira (11), as acusações de que é alvo no âmbito do Operação Zelotes. Junto ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele foi denunciado sob acusação de corrupção passiva em edição de medida provisória que, segundo o Ministério Público Federal, beneficiou montadoras de veículos.

Carvalho disse ter recebido com um misto de tranquilidade e indignação a decisão da Procuradoria do Distrito Federal de denunciá-lo.

"O que posso dizer sobre isso é que acabo de vender meu apartamento. Porque não consegui pagar o financiamento, estou vivendo de aluguel. Não roubei. Não tenho uma caneta esferográfica ou um clipe levados do governo", disse o ex-ministro.

O petista chama de absurda a denúncia por ser, segundo ele, apresentada sem prova. Carvalho diz que estava em Roma na data em que seu nome aparece em uma agenda do lobista Alexandre Paes dos Santos com a referência "Café: Gilberto Carvalho".

"Como o Ministério Público denuncia uma pessoa sem qualquer outra prova?", reclama.

O ex-ministro alega que a edição do Medida Provisória nasceu da necessidade de geração de empregos fora do Sudeste.

"Não houve outra intenção. Se houve negociação espúria no Congresso ou se algum lobista tentou criar dificuldade para vender facilidade, não temos nada a ver com isso."

Além de Carvalho, Lula, o PT e a Caoa negam ter cometido qualquer irregularidade. A MMC, que hoje se chama HPE , não se manifestou.