10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Manifesto dos servidores do IPMet - Centro de Meteorologia de Bauru

Servidores do IPMet
| Tempo de leitura: 5 min

O IPMet nos seus 45 anos de existência enfrentou inúmeros desafios. O primeiro foi o de implementar a meteorologia com radar no Brasil, o que conseguiu levar a efeito com sucesso, tornando-se referência no país e no exterior.

O segundo foi de abranger sua área de atuação para todo o estado de São Paulo, desenvolvendo mecanismos de disseminação dos dados gerados à população, principal interessada e beneficiária das informações produzidas. O terceiro desafio apresentado foi o envolvimento em atividades de apoio ao ensino, o que se concretizou com a implementação do curso de meteorologia pela Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru a partir de 2013. Mas nenhum desses se compara ao que se apresenta neste exato momento: o desafio de continuar a existir. Se anteriormente o IPMet contou com todo apoio para crescer e prosperar mesmo diante de situações tão desafiadoras, hoje vê-se, de uma hora para outra, transformado num ônus para a Universidade.

Ao longo de sua existência o IPMet teve como meta garantir sua posição de destaque no campo da meteorologia com radar, cuja excelência se caracteriza não só pela qualidade e precisão das informações, mas também pela disponibilidade, rapidez e eficiência com que essas informações chegam ao usuário final. Para atingir esse padrão de eficiência tem assegurado especial agilidade e comprometimento com a manutenção e conservação dos equipamentos que compõem o sistema de radares, pois são condições imprescindíveis para conduzir atividades criticas como é a meteorologia. Porém, infelizmente, a burocracia oficial da universidade e a crise financeira atual impõem obstáculos que colocam em risco essa necessária dinâmica operacional, cuja superação exige a combinação do esforço e a dedicação da Unidade com a parceria e compreensão da administração central da Unesp.

Buscando contornar essas dificuldades, o IPMet vêm formando uma reserva financeira para atendimento de necessidades emergenciais e reposição de peças, em sua maioria importadas e de custo elevado, para seus dois radares meteorológicos, instalados em Bauru e Presidente Prudente. Para nossa surpresa, esses recursos estão sendo reivindicados pela Unesp para cobrir despesas de custeio do IPMet, tais como pagamento de contrato de vigilância, limpeza, reformas, compra de materiais diversos, gastos que entendemos ser de responsabilidade da Universidade.

Preocupa-nos sobremaneira o fato de que, esgotados esses recursos, não será mais possível solucionar, em tempo hábil, qualquer problema técnico que porventura venha a surgir, comprometendo a importante prestação de serviços à comunidade (extensão), o que inclui a emissão de alertas de tempestades às defesas civis e outros órgãos públicos, além da população em geral. No ano de 2016 foram registradas mais de 21 milhões de visitas ao site do IPMet. Em 2017, até o momento, já foram registradas mais de 15 milhões. Além do mais, chamamos atenção para o fato de que o esvaziamento dessa reserva de forma alguma solucionará o problema de financiamento do hoje Centro de Meteorologia.

Outro ponto preocupante é a situação da produção acadêmica e científica. A universidade alicerça-se na publicação de trabalhos científicos como uma forma de avaliar o conhecimento produzido e também para prestação de contas à sociedade. Porém, quando a Unesp se utiliza desses parâmetros de forma isolada e fora do contexto histórico para avaliar negativamente o IPMet, na verdade tenta se eximir de sua parcela de responsabilidade pois desconsidera, no mínimo, dois aspectos fundamentais. O primeiro é o fato de não ter feito a reposição dos pesquisadores aposentados do IPMet, situação que não só prejudicou a produção de trabalhos científicos, como também impossibilitou, nos últimos anos, o acesso a recursos disponibilizados pelas agências financiadoras de pesquisas para projetos específicos da área. O segundo é que os docentes contratados para o curso de meteorologia e cadastrados junto ao IPMet para o desenvolvimento de pesquisas ainda estão em fase de adaptação à realidade do IPMet e, a despeito dos esforços e evidente engajamento, ainda não tiveram acesso a valores mais significativos advindos de projetos, já que as agências de fomento vêm diminuindo as verbas destinadas a esse fim. Ainda assim, somente em 2016, tiveram o envolvimento em quatro projetos com verbas aprovadas.

Ainda maior perplexidade nos causa a clara intenção de demitir engenheiro e técnico contratados via Fundunesp e que desempenham os imprescindíveis trabalhos de manutenção, correção e atualização dos sistemas de operação dos radares do IPMet. Trata-se de trabalho altamente especializado que não conta com profissionais capacitados no país. Justamente por esse motivo são constantemente chamados a orientar instalações de outros radares pelo país. O trabalho desses técnicos é de tal forma importante para garantir a continuidade do funcionamento dos equipamentos que a ausência pode decretar a inviabilidade dos mesmos em curto espaço de tempo. Aliás, destacamos que os profissionais que atuam no IPMet receberam treinamento na própria instituição ao longo dos últimos vinte anos, período em que o Centro contou com especialistas na área.

Entendemos a gravidade da situação econômica por que passa o país e a própria Universidade, mas também entendemos que a destruição do IPMet, com sua história construída a duras penas nas últimas quatro décadas causará um enorme prejuízo à sociedade e à própria Unesp.

Considerando a conjuntura apresentada, os servidores do IPMet reunidos em Assembleia decidiram manifestar-se publicamente através deste documento. A inviabilização da continuidade da existência do IPMet está tomando forma e, por não concordarmos com a situação, e cientes da importância da Instituição para a sociedade, conclamamos aos órgãos representativos da Universidade a posicionar-se quanto à questão. É chegada a hora da Unesp decidir se de fato o ensino, a pesquisa e a extensão são indissociáveis e prover o apoio mínimo à continuidade do IPMet.