08 de julho de 2026
Articulistas

Educação dilacerada

Beth Sahão
| Tempo de leitura: 3 min

"Estou dilacerada". Este foi desabafo da professora Márcia Friggi, agredida a socos por um estudante, após encaminhá-lo à direção da escola onde leciona, na cidade de Indaial, em Santa Catarina. A agressão ocorreu no último dia 21 de agosto e a imagem de seu rosto desfigurado pela violência percorreu o Brasil, provocando um misto de comoção e revolta na sociedade.

À primeira vista, pode parecer um exercício de obviedade questionar as razões pela qual esse caso obteve enorme repercussão. Afinal, as marcas da violência na face da professora Márcia falam por si. Poderíamos, porém, tentar analisar o caso para além de seus aspectos individuais.

Antes de Márcia Friggi, quantas centenas (para não dizer milhares) de professores e professoras não foram vítimas de diferentes formas de violência neste país, dentro e fora da sala de aula?

Dados divulgados em março deste ano, provenientes de questionários respondidos por professores de português e matemática do 5º ao 9º ano de escolas que participaram da Prova Brasil em 2015, revelam que 51% desses educadores já presenciaram agressões físicas ou verbais de estudantes a funcionários que atuam na área da educação. Estamos no País em que a diversos municípios e estados não cumprem o piso nacional do magistério. Onde professores são obrigados a trabalhar sem as mínimas condições. E onde, não por acaso, oito em cada dez estudantes concluem o ensino fundamental sem aprender o básico em matemática.

Para incrementar sua renda, profissionais do magistério são forçados a se submeter a jornadas estafantes, de até três períodos diários. Reajustes salariais, só mediante greve - mas, ainda assim, correndo o risco de apanhar da polícia e sem ter a certeza de que o aumento virá de fato. Se a sociedade se importasse de fato com o bem-estar dos professores, deveria começar por não eleger governantes que pagam mal esses profissionais. Se a população se incomoda de verdade com a violência sofrida pelos educadores, deveria já ter se mobilizado por mudanças estruturais na escola pública.

Vivemos uma completa inversão de valores, onde governos transformam escolas públicas em depósitos de crianças e adolescentes, com um único intuito de obter índices que pouco dizem sobre a real situação da educação pública. Ao mesmo tempo, vemos as famílias terceirizando para a escola e para os professores a responsabilidade de ensinar a seus filhos aquilo que deveria ser aprendido em casa - o respeito ao próximo, por exemplo.

A comoção ante a violência sofrida pela professora Márcia não pode se centrar apenas nesse caso específico. Pois, como ela própria lembra em seu desabafo, o episódio está longe de representar um fato isolado. Da mesma forma que o rosto e a alma dessa educadora foram dilacerados, nossa educação pública também vem sendo agredida e vilipendiada por décadas a fio.

A todos que se indignaram com essa terrível agressão cabe a tarefa de se mobilizar e ir à luta para resgatar a escola pública brasileira do descaso e do abandono a que tem sido relegada pelos poderosos.

A autora é deputada estadual e presidente da Comissão de Educação e Cultura da Assembleia Legislativa de São Paulo.