| Arquivo Pessoal |
| Os aficcionados posam em frente ao Dauphine, da família dos Gordinis: da esquerda para a direita, Dick, Alemão, Edu, José Nilton, Ivan Almodova, Benedito Carnaiba, Celso Bola, Celio Grisoni, Keller Solla, Lelos, Junior Franciscato |
A década era a de 70. O carro, um Gordini. A área, uma pista de terra improvisada. E o mote? Duas dezenas de intrépidos jovens que usavam suas horas vagas para preparar uma corrida inusitada e que não teve similar em Bauru: as "tarta rachas".
Antes de qualquer coisa vamos esclarecer: rachas, óbvios de corridas de carros e tarta é a corruptela de tartaruga, como sedãs Gordinis eram apelidados à época.
| Arquivo Pessoal |
| Ivan Almodova, Lelos e Sagui, três dos pilotos da época |
A bem da verdade, os Gordinis não nasceram para serem carros de alta velocidade. Ao contrário, o Gordini, derivado do Dauphine (quase seu meio-irmão) nascera como uma divisão da fabricante francesa, Renault, com o objetivo de fazer frente ao famoso sucesso popular alemão, o Fusca.
No Brasil, fabricado pela Willys sob licença da Renault, o Gordini começou a ser feito em 1964, em São Bernardo do Campo.
E, 40 anos depois, 16 remanescentes desses aficcionados dos Gordinis, se reuniram, no final do mês passado, para reviver essa paixão, lembrar os bons momentos e até para serem, de certa forma, homenageados e ganharem uma lembrancinha para a posteridade.
O encontro foi no tradicional Lelo's Lanches e Batidas. E não por acaso: o próprio dono do estabelecimento, Rogério P. Arcângelo, o Lelos, foi piloto à época.
Quase como um historiador, outro piloto, o Áureo de Freitas Nascimento, o Sagui, fez a garimpagem das fotos e até de vídeos (em v8).
Teve exposição das fotos e cada um dos pilotos presentes recebeu quadro com uma foto do seu Gordini ampliada e restaurada.
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‘Autódromo Rio Verde’
Para driblar o perigo dos rachas nas rodovias e avenidas da cidade (a Nações Unidas já existia) e, ao mesmo tempo, não abrir mão do prazer de dirigir em alta velocidade, amigos se reuniram e conseguiram construir uma pista dentro da fazenda de um outro colega no bairro rural Rio Verde, na região da rodovia Bauru-Iacanga.
Uma parte da área pertencente à fazenda fora cedida aos jovens pelo fazendeiro. E foi lá que as disputas começaram.
Depois, com o sucesso das corridas, o aumento do número de pilotos, e com a ajuda do prefeito da época Osvaldo Sbeguem a pista veio para local mais próximo. A pista acabou ocupando uma área ao lado do Bauru Country Clube, (hoje região do Bairro Tangarás) com dezenas, para não dizer centenas de expectadores.
Aliás, foi justamente o sucesso que fez com que o então “autódromo de terra” e os “grandes prêmios” tivessem vida curta.
Era tanta gente para assistir que se passou a temer um acidente em grande escala e, por falta de segurança profissional, os rachões acabaram.
Vale lembrar também que, a crise do petróleo (para quem não sabe houve até racionamento do combustível no país) contribuiu para as provas cessarem.
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Disputas também ocorriam em ocasiões especiais
Havia regras rígidas e a ordem de largada para a primeira bateria se dava no sorteio; sucesso chegou a elevar o valor dos Gordinis?
| Fotos: Arquivo Pessoal |
| Ivan, o número 33, fotografado em uma das corridas: o ano era 1979 |
| Corrida de 1978: dada a largada e os pilotos levantavam literalmente poeira nas competições |
Apesar do clima de descontração, alegria e divertimento que havia à época, e do ímpeto dos jovens conduzindo suas máquinas, tinha também a seriedade com que cada prova era disputada. Tomando como exemplo a já então poderosíssima Fórmula 1, com diretor de prova e estrutura profissional, embora fosse uma iniciativa amadora que premiava seus líderes (até o quinto lugar) com troféus e medalhas.
Primeiro, havia regras rígidas: a ordem de largada para a primeira bateria era feita no sorteio, anotados os nomes em um papel dentro de um capacete; na segunda bateria ficava valendo a colocação que cada um havia conseguido. Assim, havia novo grid de largada, até a bandeirada final.
Havia corridas em ocasiões especiais como o "Grande Prêmio Goodyear/D. Paschoal" empresas que davam o nome e o suporte ao evento. E todos os carros, devidamente preparados, tinham seus patrocínios, afinal, manter um carro de corrida, nunca foi barato, não é mesmo?
Empresas como Expresso de Prata, a Norwagen, Motoclinica, a Higienilar, Somacar, Imobiliária Reis, Rodotec, Refrigerantes Bauru, H.Aidar, TV Manolo, Aquarius Imobiliária, Coelho Obras, Posto Terra Branca entre outras, estampavam sua logomarca nos carrinhos.
E além de troféus e prêmios para os vencedores, a pontuação de cada etapa realizada de 15 em 15 dias seguia o mesmo esquema da Fórmula 1. E havia fiscais de pista e tudo para deixar a Fórmula Gordini como grande disputa.
O fato repercutiu e chamou até a atenção da grande mídia, que dedicou várias páginas ao feito. Os grandes jornais, esportivos ou não, mandavam repórteres e fotógrafos a Bauru para relatar o que afinal eram aquelas disputas. E mais: o sucesso foi tanto que até o preço do carro inflacionou. Um Gordini bom para disputar uma prova atingia quatro vezes mais que o valor do mercado.
Há que se considerar o fato de que o Gordini saíra da linha de produção em 1968 e as corridas eram realizadas 10 anos depois, então, um espécime dele era mais valorizado ainda.
E para quem está curioso, os Gordinis atingiam a incrível marca de 90 km/hora, um espetáculo para a época.
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Velozes e identificados
Lelos - Rogério P. Arcângelo
Bicudo - Luiz Carlos Bicudo
Junior Franciscato - Alcides Franciscato Jr.
Sagui - Áureo de Freitas Nascimento
Carnaiba - Benedito Onofre Carnaiba
Claudinho - Cláudio Guedes Misquiati
Halin - Halin Aidar
Carlão Manolo - Carlos Cadaviego Erosa
Mortadela - Carlos Medeiros
Grizoni - Célio Grizoni
Dick - João Henrique Reis
Padaria - Fernando Comegno
Edu - José Eduardo Simões
Keller - keller Sola
Veloso - José Francisco Veloso
Akilles - Akilles dos Reis
Paulinho Coelho - Paulo Roberto Coelho
Alemão - Luiz Cezar Martins
Ivan - Ivan José Almodóva
Feitosa - Luis Feitosa Neto
Ricardo - Ricardo Sanches
Carlão - Carlão Segurança?
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