09 de julho de 2026
Nacional

Dia da Visibilidade Bissexual combate adjetivos contra segmento LGBTI

Por Letycia Bond | ABr
| Tempo de leitura: 4 min

Promíscuos, indecisos, complicados e confusos. Comumente atribuídos aos bissexuais, formando estereótipos negativos desse segmento LGBTI, esses adjetivos estão sendo combatidos neste sábado (23), no Dia Internacional da Visibilidade e do Orgulho Bissexual, em diversos atos ao redor do mundo.

Contra esse estigma, serão realizados piqueniques, caminhadas, lançamentos de balões, festas e rodas de debate, que acompanham a publicação, em redes sociais, de conteúdos relacionados à bissexualidade, também celebrando a BiWeek (Semana Bi, em português), encerrada neste fim de semana de setembro, eleito o mês da causa.

Dezoito anos depois da criação da data, a bissexualidade ainda não é reconhecida como orientação sexual independente, pois as pessoas do segmento são tratadas como se fossem metade heterossexuais e metade homossexuais. Com isso, sua orientação é vista como se resultasse de partes que se somam, em um sistema que não acomoda a dualidade.

Identidade

É o que explica o coordenador do grupo paraibano Diversidades, Marcos Dias. “Bissexual é invisibilizado porque é visto como pessoa em cima do muro, entre hétero e gay, hétero e lésbica”, diz.

Outro mal-entendido é achar que a orientação dos bissexuais muda conforme a identidade de gênero do parceiro com quem mantém um relacionamento afetivo. “Para ser considerado bissexual, não é preciso que, necessariamente, se tenha tido um relacionamento com mulher ou homem”, esclarece o coordenador, que é bissexual assumido. Não é, portanto, como se a orientação fosse flexível ou fluída.

“As pessoas insistem em perguntar ‘Agora você está com a ou b?’, para tentar te definir. Quando o bissexual busca alguns serviços de saúde é questionado sobre com quem esteve. Alguns profissionais ainda não estão preparados, buscam subtextos e fazem insinuações que constrangem. Sofremos pressões a mais”, acrescenta.

Os movimentos argumentam que a cobrança por dar satisfações acerca da intimidade é uma das consequências da heteronormatividade da sociedade, que prioriza percepções padronizadas a partir da orientação heterossexual. 

Brasil

“A bissexualidade é vista no Brasil como em muitos lugares. É um reflexo dos problemas estruturais que encontramos”, afirma o estudante de psicologia Daniel Eisenberger, uma das sete lideranças do coletivo Bi-Sides. 

Ele explica que, como modo de empoderar o grupo, diversas formas de discurso são "ressignificadas". Para responder às tentativas de ocultação da bissexualidade, o segmento escolheu, como um de seus símbolos, muito difundido em São Paulo, o unicórnio. “A gente escolheu porque é um bicho que também não existe e aí faz piada em cima disso”, brinca Eisenberger.

A chacota e a ridicularização da bissexualidade, que geram altas taxas de suicídio, encontram brechas na própria sigla LBGTI e nem sempre há compaixão de grupos representados pelas outras letras. Uma pesquisa da entidade LGBTI Equality Network, do Reino Unido, mostrou, em 2015, que 66% dos entrevistados se sentiam pouquíssimo ou totalmente excluídos da comunidade LGBT, índice que aumentava para 69% quando a sensação de pertencimento era em relação a grupos heterossexuais.

“Os bissexuais sofrem invisibilização fora ou dentro da comunidade LGBT. Gays falam que homens bissexuais são enrustidos e que as mulheres bissexuais querem chamar a atenção”, ressalta o estudante.

Mobilização

Ontem (22), em uma mobilização LGBT que reuniu 15 mil pessoas no Museu de Arte de São Paulo (Masp), Eisenberger viu somente três bandeiras com as cores rosa, roxo e azul, combinação de tonalidade que simboliza a comunidade bissexual. Segundo ele, os itens vendidos por camelôs também são raros, embora os de outros segmentos sejam abundantes.

Ele afirma que essas manifestações de bifobia, isto é, o preconceito e a discriminação aos bissexuais, brutalizam especialmente as mulheres bissexuais. “Vão desde comentários como ‘Você não é bissexual, você só beija garotas em baladas para provocar os homens’ a coisas extremas. Algumas mulheres lésbicas dizem que as bissexuais são ‘depósito de esperma’. São coisas pesadas, agressivas, incluindo estupro corretivo.”

Como futuro psicoterapeuta, Eisenberger, hoje com 23 anos e assumidamente bissexual há quatro, intercede pela validação do discurso e dos pleitos dos bissexuais, no interior de consultório e nas ruas.

"Eu, que já sou assumido e milito há algum tempo, lembro, desde 2013, quando saí do armário, das pessoas falando de outras que descobriam sua sexualidade. No ambiente de consultório, ao chegar um paciente, a primeira coisa, a mais importante, é o psicólogo validar o que esse paciente está sentindo. É importante dizer a ele  que está tudo bem e que se questionar faz parte’. É normal, porque lidar com sexualidade é algo difícil mesmo. Foi muito importante ter tido pessoas que me validaram.”