08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Piripaque

Prof. José Marta Filho
| Tempo de leitura: 2 min

Aconteceu há cerca de 20 anos. Eu era diretor de uma faculdade e, numa noite, um grupo de acadêmicos muito apavorados chegou na diretoria e foi logo dizendo: tem uma aluna pelada na sala 5.

Bem, pensei: se existe alguém nu, preciso levar roupa para protegê-la. Peguei uma manta do sofá mais próximo e me dirigi para o local da cena. O público expectador já era grande nas imediações da sala onde se encontrava a aluna despida. Entrei e me deparei com uma cena diferente: quatro alunos tentavam imobilizar a aluna e um grupo de alunos-pastores fazia o exorcismo, com palavras de ordem como: "Eu ordeno, saia desse corpo, satanás". Completava o ambiente uma grande plateia que tomava todos os espaços possíveis da sala, do corredor, das janelas e das árvores próximas, assistindo tudo de olhos "regalados".

Quando entrei e a cobri com a manta, ela teve um relaxamento profundo e adormeceu. Seus berros e movimentos convulsivos pararam. Até hoje não sei o que a fez melhorar: se as orações, a manta ou ambas. Alguns diziam que ela adormeceu no espírito. Outros se impressionaram tanto que se afastaram. Muitos, por muito tempo, passaram longe da sala.

Aos poucos os curiosos se dispersaram e o marido da aluna chegou para levá-la para casa. Senti pena dela, que pelas informações dos colegas tinha ingerido drogas e bebidas alcoólicas, e, principalmente, do marido, que teve que passar por tamanho constrangimento. Ela abandonou a faculdade. Esse fato era lembrado como o piripaque da aluna pelada.

A Academia de Medicina de São Paulo publicou (http://www.academiamedicinasaopaulo.org.br/?pg=conteudo&cont=1&setor=6&chave=41&id=802&idioma=&acao=1) a história presenciada pelo professor de medicina José de Souza Meirelles Filho que relata que certa vez, no ambulatório da USP, onde atendia, chegou uma jovem, acompanhada da mãe, que em prantos dizia: "Doutor, salve minha filha. Esta maluca brigou com o namorado e resolveu se matar tomando um copo de manga com leite". Um médico presente disse-lhe: "Não se preocupe, minha senhora, recentemente, dois médicos alemães, de nome Pillie e Pak, estudaram o veneno da manga com leite e desenvolveram uma injeção, que nós temos aqui, e que acaba com os efeitos desta maldita mistura". Aplicaram uma dose de soro glicosado e a jovem acordou muito bem.

Gostaram tanto da história do Pillie e Pak que passaram a usar a expressão "pilipak" para os pacientes que apresentavam quadro exagerado de reação psicossomática. Mais tarde foi mudado para "piripaque".

Não sei, ao certo, qual a origem da palavra piripaque mas, em ambas as histórias ela traduz um estado de turbulência emocional complicado. Ainda bem que a jovem acadêmica da primeira narrativa pode contar, no momento certo com a ajuda dos amigos e, principalmente do marido.

Coitado chegou com uma camioneta cabine dupla novinha para um translado nada romântico. E bom, também, que a garota despeitada com o namorado pode se recuperar com a "vacina contra o veneno de manga e leite", que desde a escravidão apavora muita gente.