09 de julho de 2026
Articulistas

Uso abusivo do mundo virtual e seus riscos

Fausi dos Santos
| Tempo de leitura: 3 min

É notório que o advento da internet e das redes sociais proporcionou uma verdadeira democratização da informação ao horizontalizar não somente ao usuário comum o acesso à informação, mas também ao oferecer a este a oportunidade de participar ativamente na elaboração de conteúdos que alimentam e realimentam constantemente o mundo virtual.

A hierarquia classista notada antes do surgimento da internet se fragmenta perante a emergência dos usuários em discursivizar as experiências diárias e eventos cotidianos que permeiam suas vidas, sejam por meio de fotos, vídeos e "lives" ao vivo, que convertem o internauta em um centro de produção e propagação de informação.

O que as análises em nossas pesquisas revelam é que o uso abusivo de tais ferramentas por alguns usuários está gerando o aumento da ansiedade aliada a compulsividade.

Entre os fatores desencadeantes de tal quadro está a necessidade constante, em muitos internautas, em publicar e evidenciar acontecimentos pessoais a todo instante; publicações que são monitoradas a cada minuto afim do usuário acompanhar o desempenho de suas postagens no mundo virtual.

A ansiedade e expectativa pelo recebimento de um grande número de curtidas levam certos usuários a um movimento compulsivo e perigoso de novas publicações, tornando público particularidades pessoais e intimidades que evidencia o uso abusivo e patológico de tais ferramentas.

Algumas pessoas chegam a produzir realidades paralelas, vivendo em torno de suas fantasias virtuais e promovendo um verdadeiro afrouxamento nos laços do convívio familiar e social.

Por isso, já é comum observar pessoas conectadas 24 horas à internet, criando uma realidade virtual dentro da realidade cotidiana e passando a oferecer crescente investimento afetivo em torno desta realidade virtual e se desapegando aos poucos dos acontecimentos reais que os circundam.

Os problemas advindos de tais comportamentos viciantes vão desde a superexposição de si, que torna o usuário dependente da própria máquina, o que ocasiona seu isolamento total ou parcial da vida profissional, amorosa, familiar e social, até tornando-o presa fácil a criminosos virtuais que exploram suas vulnerabilidades para obtenção de dados pessoais e rotinas que são utilizadas para a prática de crimes, sejam eles financeiros ou sexuais, como divulgação de nudez em fotos e vídeos utilizados por criminosos para obtenção de prazer à custa do usuário (a), ou, até mesmo para suborno em dinheiro.

A maior parte das vítimas da superexposição são os adolescentes, principalmente meninas, que ainda veem na internet um meio de expressão de seus sentimentos e ideias, bem como uma forma de iniciar e manter vínculos afetivos. Os meninos estabelecem uma relação um pouco diferente, pautada na aceitação por meio de seus atributos de virilidade, força e capacidade de competição, o que se evidencia, por exemplo, em jogos online de luta ou de guerra contra diferentes adversários.

Segundo dados da ONG Safernet Brasil, divulgados em 2017, em 2016 foram registrado 301 casos que envolvem o vazamento de nudez em território nacional. Deste total, cerca de 70% dos casos compreendem mulheres, sendo grande parte meninas na faixa etária de 13 a 15 e de 18 a 25 anos.

Pertencemos, ainda, a uma sociedade machista que disciplina e ordena o corpo e os desejos femininos e por conta disso cria se certo "fetiche" sobre a sexualidade da mulher.

Por isso, nem sempre estas experiências de compartilhamento de arquivos íntimos por parte das mulheres resultam em um final feliz, pois muitos homens acabam vazando tais imagens, o que causa prejuízos morais irreparáveis à muitas vítimas, levando algumas à medidas desesperadas como o suicídio.

Sendo o universo virtual constituído de espaços volúveis feito de múltiplas entradas e saídas, se torna difícil rastrear e impedir o envio e compartilhamento destes materiais.

Quase sempre, tal conteúdo acaba no mosaico de vídeos pornôs em sites e aplicativos que exploram a pedofilia e outras perversões sexuais.