08 de julho de 2026
Articulistas

Os cínicos

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

O cinismo nasceu idealista. Na Grécia Antiga, o cinismo começou como corrente filosófica. Pregava que o propósito da vida era a virtude. Viver em harmonia com a natureza. Os cínicos gregos eram radicais. Para eles, a única ferramenta para alcançar a felicidade era a da virtude. Para ser cínico, naquela época, palavras não bastavam. O candidato tinha que mostrar, na prática, ter abraçado um modo de vida de conduta moral irrepreensível.

Conquistas materiais e aparência exterior eram supérfluas e, por supérfluas, não eram parte da virtude. Diógenes (século V a.C.) vivia num barril, descalço, só com uma manta sobre o corpo. De vez em quando era visto com uma lanterna na mão, percorrendo as ruas da cidade onde vivia. Dizia estar "procurando o homem". Alguém imune ao poder do dinheiro como instrumento de corrupção. Hoje, os brasileiros exercem papel semelhante. Com tantos líderes políticos e empresariais presos ou envolvidos com a corrupção, precisamos achar alguém com condições morais ilibadas para nos representar e administrar. Difícil...

Até o Judiciário faz água. No tempo de Diógenes, a lanterna era apenas um lume, mecha embebida em óleo. Hoje, nem com os poderosos focos de led conseguimos distinguir uma sombra reverberada na parede. Repetimos o mito da caverna de Platão. Os brasileiros, atados a correntes, são obrigados a ver cópias imperfeitas de objetos reais, projetadas na parede da caverna, pela luz de intensa fogueira. A única e verdadeira realidade são os ecos das vozes de figuras fantasmagóricas.

Os cínicos se tornaram críticos ácidos e implacáveis do comportamento da sociedade grega. Sequer Platão escapou da mordacidade corrosiva de Diógenes. Em uma de suas aulas, Platão conceituou o homem como um bípede sem penas. Na aula seguinte, Diógenes jogou dois frangos depenados na sala de aula: - "Eis aqui, dois homens..." O mestre viu-se obrigado a complementar sua definição: "O homem é um bípede implume e de unhas chatas". Cínico, em grego, significa "viver como um cão".

Diógenes fazia uma distinção: os cães mordem seus inimigos e ele mordia mais os amigos para salvá-los. Quando Alexandre, "O Grande", conquistou a Grécia, quis conhecer Diógenes. Perguntou-lhe o que desejava. "Quero o Sol". O filósofo, abrigado na boca do barril deitado, só queria aproveitar o calor dos raios solares, interceptados pelo corpo do general. De crítica em crítica, de frustração em frustração, o cinismo foi cedendo em expectativa e crescendo em amargura. Virou aquilo que conhecemos e reconhecemos hoje. Reduziu-se apenas a atitudes de desdém negativo e cansado, manifestado na desconfiança geral quanto a integridade de pessoas que deveriam primar por exemplos de virtudes. Foi a transformação dramática de uma corrente filosófica que, em sua origem, destacava a busca obsessiva da virtude e da perfeição moral.

Hoje, nós brasileiros, vivemos um dilema moral semelhante. Diante de tanta corrupção, cresce a descrença, em face da evidente degradação ética. Somos confrontados com a inutilidade aparente da coerência; e afrontados cotidianamente por insultos à inteligência e ao bom senso. Floresce a frustração. Vem a desilusão. Cinismo, ao logo do tempo, adquiriu conotação de indiferença, de insensibilidade ao sentir e ao sofrer dos outros. Cínicos são aqueles que desviam recursos públicos, guardam dinheiro da propina em malas e caixas de papelão, fazem depósitos em ouro na Suíça, falsificam recibos. E juram de pés juntos que é tudo legal. Reclamam serem vítimas de "perseguição" política ou de delações premiadas. Caras-de-pau, é a denominação mais justa.

Nos cafundós de Minas, a professorinha morre tentando salvar crianças do fogo ateado por um insano. Foi capaz de sacrificar a própria vida, pensando nos vulneráveis. Enquanto isso, no Congresso Nacional, a preocupação é com o Fundo Partidário para assegurar a próxima eleição. O presidente, denunciado pela segunda vez, o que quer é garantir a própria felicidade, com a continuação no poder.

E assim, em cada passo; em cada desilusão; em cada frustração... A esperança morre um pouco, em lenta agonia. O desdém negativo e cansado brota das paredes do coração de cada um. Haverá um ponto em que haveremos de emergir como uma nação de cínicos, como queria Diógenes: vamos morder como os cães, nem que sejam os amigos. Para salvar o país.