Até o final do século 19, poucos tinham acesso à informação. Décadas depois, o conhecimento se expandiu no século 20. No campo da educação, o professor deixou de ser a única fonte do saber. Com o surgimento das novas tecnologias de comunicação e informação, que já pariu algumas gerações de nativos digitais, o mundo se horizontalizou e os alunos agora também querem compartilhar conhecimento, exigindo que o modelo de ensino tradicional seja reinventado.
Antes, o professor, do alto de sua autoridade, ensinava. Agora, também deve trocar informações com o estudante. Ã? o que defende Viviane Mosé, uma das educadoras referências da área no PaÃs e que abriu a 17.ª Semana Municipal de Educação, na última terça-feira, em Bauru. Segundo ela, o professor capaz de levar adiante o conteúdo, com uma boa metodologia, já não é mais suficiente, porque não atinge o aluno. "Os estudantes deixaram de ser passivos e isso mudou a educação. Agora, você só educa se você centra no aluno. Não importa o que o professor ensina, importa o que o aluno aprende", argumenta.
| Douglas Reis |
| Alunos Usando Aplicativo que Ilustra o Núcleo da Terra Sofia Vellosso Ventrilho e Pedro D? Incao |
Ainda segundo Viviane, o aluno é pesquisador, não mais mero ouvinte em sala de aula, e o professor tem de estar disposto a estimulá-lo. "Hoje, há alunos que sabem pontualmente, sobre alguns conteúdos, até mais que os professores. Cabe aos professores direcioná-los e auxiliá-los a selecionar o que é lixo e o que é conteúdo", aconselha.
Para o professor e diretor do D'Incao Instituto de Ensino, Pedro D'Incao, o avanço do sistema de apostilado "adestrou" os alunos e a educação tradicional perdeu o seu significado. Porém, ele acredita que a interatividade, proporcionada pelas novas tecnologias de comunicação e informação, está mudando esse cenário.
"No Ensino Fundamental do colégio, por exemplo, os alunos aprendem sobre a convecção no núcleo da Terra. � um tema bastante abstrato, mas utilizamos um aplicativo que permite que os estudantes interajam com o processo. Isso traz um novo sentido sobre o conteúdo", descreve.
Já a mantenedora da escola bilÃngue FourC, Sara Hughes, acredita que o desejo de compartilhar conhecimento em sala de aula sempre existiu, ou seja, não é caracterÃstica exclusiva dos chamados nativos digitais. "O ser humano vive em sociedade, trocando informações e experiências", explica.
| Samantha Ciuffa |
| Juliana Tancredi Amorim, ao lado de seu filho Pedro, quebra aquele velho tabu de que os bebês não aprendem |
O problema, segundo ela, é o modelo de ensino, que permaneceu o mesmo por muito tempo.
NA PRÃTICA
E a mudança já começa no ensino infantil. Para Sara, o foco desse tipo de educação não está em passar conteúdo, mas em explorar curiosidades, experiências e descobertas. A prioridade, nessa fase da vida, é aprender a conviver. "Criança gosta de aprender falando e trocando experiências".
Diretora pedagógica das unidades Maple Bear Bauru e Santos, Ana Sgarbi traz exemplos do que ocorre na unidade de ensino. Ainda no infantil, as crianças estudam os animais que botam ovos e é comum que levem, até a escola, pessoas que têm bichos do tipo. Estas, por sua vez, são entrevistadas pelos alunos, que trazem dúvidas formadas dentro e fora da sala de aula. "O aluno não quer mais ser passivo e precisa fazer parte do processo de aprendizagem", argumenta.
Essa também é a proposta da pedagoga e coordenadora de ensino da escola Quintal da Anita, Juliana Tancredi Amorim, que quebra aquele velho tabu de que os bebês não aprendem. "Eles precisam de estÃmulos sonoros e visuais. Além disso, a criança precisa vivenciar, em seu corpo, todo o conteúdo". Para se ter uma ideia, o tempo médio em que o aluno fica em sala de aula, na escola de Juliana, não passa de 20 minutos. O alfabeto, por exemplo, é mostrado com blocos de letras palpáveis, permitindo combinações e brincadeiras lúdicas. De acordo com a pedagoga, a criança deve ser encarada como um ser integral, estimulada a querer, a sentir e, finalmente, a pensar. "Só assim que não se esquece o que se aprende", finaliza.
Troca de informações
A estudante do 3.º ano do Ensino Médio da escola FourC Julia Segala Pietro, de 17 anos, está matriculada na unidade de ensino desde pequena e acredita que qualquer aluno tenha vontade de compartilhar o que sabe em sala de aula. "Aquela regra de que o professor tem de ficar na frente falando e o aluno, escutando, mudou. Nós temos ganhado voz", alega. Colega de sala de Julia, o também estudante Lucca Bertolani Travain, de 17 anos, revela que está cada vez mais comum levar o que aprende fora da sala de aula para dentro dela, desde os anos inciais. "Ã?s vezes, eu vejo notÃcias, principalmente, na aula de Atualidades. Já chego à aula e pergunto, a gente começa a debater, os outros alunos participam, interessados. Uma coisa vai complementando a outra", afirma. E não é só o professor de Atualidades que permite interrupções para que os alunos compartilhem conhecimento. Lucca tem bastante interesse por notÃcias sobre atendados e ataques quÃmicos e troca informações nas aulas de FÃsica e QuÃmica, por exemplo.
Um 'empurrão' para compartilhar
| Douglas Reis |
| Professor da Maple Bear, Gilson percebeu mudanças |
Professor da educação infantil e do ensino fundamental I da Maple Bear Bauru, Gilson Rodrigo Carraro atua na área há dez anos e percebeu mudanças. Recém-formado, o profissional se deparou com alunos e escolas, igualmente, engessados. De cinco anos para cá, após o "boom" das redes sociais, Carraro percebeu que os alunos mudaram, fato que exigiu uma alteração do modelo tradicional de ensino. "Na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I, nós trabalhamos com materiais e carteiras compartilhados, com o propósito de promover a socialização dos estudantes, já que os aparelhos eletrônicos tornam a interação mais difÃcil", revela.
JC na Escola
Há 15 anos, o programa educativo e cultural JC na Escola também funciona como uma ferramenta de compartilhamento de informações, conforme avalia o seu coordenador, Sérgio Purini.
Segundo ele, o jornal trata de fatos relacionados ao conteúdo escolar, mas traz novidades, fato que não ocorre com os livros didáticos. "Além disso, dá oportunidade para que o aluno e o professor façam uma releitura, em sala de aula, do que acontece no bairro onde a escola está situada, por exemplo", destaca.
Para o municÃpio, tecnologia é aliada
Titular da Secretaria Municipal de Educação, Isabel Cristina Miziara pondera que todas as escolas, desde os anos inciais, devem estar preparadas para aceitar o uso consciente da tecnologia como ferramenta de ensino, já que faz parte do cotidiano do ser humano.Â
Embora boa parte das escolas públicas sequer possibilitem o acesso à Internet, a secretária defende que os professores são orientados sobre a possibilidade de usar o recurso como uma estratégia de melhoria das aulas. "Dá para criar 'links' com o que está sendo discutido em sala, através do compartilhamento de notÃcias, por exemplo", complementa.
Com os smartphones, tudo fica mais fácil, inclusive, não é preciso ter um laboratório inteiro de informática à disposição dos alunos. Há diversas maneiras de utilizar os recursos tecnológicos durante as aulas, através do ensino hÃbrido, da lousa digital, da gamificação e da plataforma escolar (veja ilustração acima).
Porém, não são todos os alunos que possuem esse tipo de aparelho. O ideal, segundo Isabel, seria que o professor fizesse uma pesquisa, em sala. "Quem tiver, se junta com quem não tem e ninguém fica excluÃdo de determinada atividade", conclui.
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