08 de julho de 2026
Geral

"Sala de aula invertida" já é realidade

Cinthia Milanez e Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 6 min

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A “sala de aula invertida” consiste em deixar o aluno resolver os problemas dados pelo professor, com base em leituras antecipadas; na foto, universitários na FIB
Cinthia Milanez
José Munhoz Fernandes explica que o modelo tradicional de ensino, no qual o professor fala e o aluno escuta, não funciona mais

Novas tendências para o Ensino Universitário vêm sendo discutidas Brasil afora e, entre elas, está a chamada "sala de aula invertida", que consiste em deixar o aluno resolver os problemas dados pelo professor, com base em leituras antecipadas. Tal metodologia já é aplicada em Bauru e o objetivo é tornar o estudante mais participativo, além de dar dinâmica às aulas.

É o que observa o professor do curso de Administração da Instituição Toledo de Ensino (ITE) e coordenador do curso de pós-graduação em administração pública do Senac, José Munhoz Fernandes. Recentemente, ele participou da 1.ª Conferência Global sobre Sala de Aula Invertida: Metodologias Ativas no Ensino Superior, em São Paulo. O evento reuniu 270 participantes de todo o País e foi promovido pelo Universia Brasil, com o apoio do Santander Universidades e do grupo GEN Educação.

Fernandes explica que o modelo tradicional de ensino, no qual o professor fala e o aluno escuta, não funciona mais. "O jovem não tem mais paciência para esse formato, quer coisas rápidas. Atualmente, em função da facilidade do acesso à informação, a exigência é de que haja dinamismo em sala de aula".

Inclusive, conforme o JC noticiou no domingo, na abertura da série "Educação & Vocação", até os pequenos, no Ensino Infantil, já deixaram de ser passivos para, agora, compartilhar conhecimento.

O educador acrescenta, ainda, que a "sala de aula invertida" é uma das tantas metodologias ativas, cujo propósito é tornar o aluno protagonista e o professor, tutor. "O primeiro passo é passar textos para o estudante ler em casa. Já em sala de aula, ele resolve os problemas arquitetados pelo professor", exemplifica.

Ainda segundo Fernandes, estudos apontam que, a cada uma hora de aula expositiva, o cérebro humano só consegue absorver 20 minutos. "Com a participação do aluno, o conhecimento é melhor adquirido, não simplesmente decorado", argumenta.

Algumas universidades brasileiras alteraram a sua metodologia de ensino, conforme revela o professor. Entre elas, está o Instituto Militar de Engenharia (IME), no Rio de Janeiro. Pública, a faculdade decidiu aplicar a chamada "sala de aula invertida" aos poucos e, hoje, a alteração já é total.

CONTROVÉRSIA

Ao mesmo tempo em que o universitário não quer mais ser mero expectador em sala de aula, não está pronto para uma alteração radical do modelo de ensino. É o que avalia o professor José Munhoz Fernandes, que defende uma mudança cultural, também por parte do estudante. "Ele tem de ler os textos em casa, senão a metodologia é ineficaz", contrapõe.

Ainda assim, Fernandes acredita que a alteração seja necessária, principalmente, para preparar o universitário para um mercado de trabalho que não quer alguém que obedeça ordens, mas sim, que tenha iniciativa e criatividade.

Uma aliada da aprendizagem

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Educação está totalmente envolvida com a tecnologia, diz Flávio Toledo, da ITE

As transformações que a tecnologia trouxe para a sociedade mudaram a vida de todos, desde as searas individuais até as coletivas. A educação está totalmente envolvida nesses processos e não pode ignorar tal evolução, conforme avalia o gestor da ITE, Flávio Toledo.

"A tecnologia é uma aliada do processo de aprendizagem, pois amplia os acessos informativos e oferece, aos alunos e professores, uma maior possibilidade de interação. Por meio dos processos digitais, é possível acessar revistas científicas do mundo todo e entrar nas salas de aulas da grande maioria das universidades espalhadas pelo mundo", exemplifica.

Ainda segundo o gestor da ITE, os processos de comunicação entre alunos e professores podem ser aperfeiçoados por meio da tecnologia. Entretanto, é preciso apenas direcionar muito bem isso, para não pulverizar a atenção e, assim, permitir o aproveitamento à construção do conhecimento.

Novo perfil do aluno impulsiona a utilização de novas tecnologias

João Rosan/JC Imagens
Chiara Ranieri, da FIB, vê a tecnologia cada vez mais aliada ao processo de ensino na universidade

Chiara Ranieri, diretora acadêmica das Faculdades Integradas de Bauru (FIB), vê a tecnologia cada vez mais aliada ao processo de ensino na universidade, muito em função do próprio perfil do aluno.

"Quando começamos, em 1998, há 19 anos, tínhamos um perfil de aluno que tinha mais dificuldade com a tecnologia. Muitas vezes, eles estavam ainda aprendendo a lidar com o computador, com o mouse. Hoje, é totalmente diferente. A geração que está chegando agora na faculdade trata a tecnologia com muita naturalidade e essa é uma ferramenta que deve ser cada vez mais usada em sala de aula", considera.

O contato dos chamados nativos digitais com a tecnologia é tão forte que exige uma remodelação dos métodos tradicionais de ensino. "O corpo docente passa por treinamento constante, se atualiza, que é para, justamente, oferecer métodos de aula mais modernos e que já utilizem a tecnologia como ferramenta. E isso não apenas em sala de aula, mas fora também", reitera.

Em sala de aula, a participação do aluno é outro fator que colabora com a introdução de métodos mais avançados, com uma sala de aula invertida, na qual todos são ativos no processo. "O estudante não é passivo, ele participa. Essa construção do conhecimento vai desde o conteúdo passado pelo professor, com as bibliografias básica e complementar, até as discussões em sala de aula, e atividades que valorizem um conhecimento ativo, em que o aluno participa e não é apenas ouvinte", completa Chiara Ranieri.

Em Bauru, Medicina é ‘divisor de águas’

Foi com queima de fogos que a cidade recebeu, em julho de 1958, a notícia de que a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) havia aprovado o projeto de lei apresentado um ano antes pelo então deputado estadual José Ferreira Keffer para criar a Faculdade de Medicina de Bauru.

Agora, exatos 60 anos após o movimento ter se iniciado, uma ação coordenada de representantes do Estado (governador Geraldo Alckmin, deputado Pedro Tobias e secretário estadual da Saúde David Uip), com dirigentes da USP (reitor Marco Antonio Zago e diretora da Faculdade de Odontologia, Maria Aparecida Machado Moreira), mais a participação e o incentivo do Jornal da Cidade em conversações e negociações, o sonho, finalmente, se realizou.

Na ocasião, conforme o JC noticiou, os representantes de diversas escolas de Ensino Médio de Bauru avaliaram que a implantação do curso traria uma série de benefícios para a cidade, como o aprimoramento do sistema educacional local e o estímulo à economia. Logo, funcionaria como uma espécie de "divisor de águas".

Não bastando a notícia da implantação de uma Medicina pública no município, o novo câmpus da Uninove passou a oferecer o curso privado, cuja aula inaugural se deu no último dia 4.

Na ocasião, o professor Jefferson Capeletti, diretor da Uninove de Bauru, alegou que o curso seguiria a metodologia ativa, citada pelo educador José Munhoz Fernandes. "No passado, o aluno era visto como um ser passivo, à espera do professor. Agora, eles terão diversas atividades para se envolver e fazer parte da própria formação", comentou Capeletti, em entrevista recente.

Com essa metodologia, o plano é de que os alunos tenham contato, desde o primeiro semestre, com a realidade dos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Programa Saúde da Família (PSF).

Ensino a distância

Já o diretor da unidade da Unicesumar, em Bauru, Rodolpho Bernardi Neto, afirma que as metodologias ativas também são exploradas pelo Ensino a Distância (EaD). “As aulas não passam de 40 minutos e trazemos vídeos, além de links, relacionados ao conteúdo. Hoje, o aluno tem de ser visto como parte integrante do processo de geração do conhecimento”, argumenta.

Aceituno Jr
Rodolpho Bernardi Neto comenta sobre EaD