09 de julho de 2026
Nacional

Oficinas em São Paulo revelam inventores

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 3 min

Foi quase como montar um quebra-cabeças. Por 12 horas, Amélia de Souza Pereira, de 41 anos, imprimiu e encaixou as 64 peças que compõem o primeiro objeto que inventou em toda a sua vida: uma boleira.

Ex-diarista, Amélia perdeu parte do movimento da mão esquerda após sofrer um acidente de trânsito há mais de três anos. Desde então, tarefas simples, como preparar um bolo, ficaram mais difíceis. Para despejar a massa na forma, por exemplo, precisava segurar a vasilha com a mão direita e esperar até que todo o conteúdo caísse sozinho, apenas com o apoio da gravidade.

Agora, basta prender a vasilha na boleira e despejar a massa com a ajuda de uma colher.

Amélia também criou uma tábua de cozinha com peças que se ajustam e seguram o alimento enquanto é cortado. Antes, colocava um garfo na boca para prender o que queria cortar ou pedia ajuda a uma irmã que mora na vizinhança.

"Hoje, quando eu vejo um problema, já penso em uma solução, não só para mim, mas para outras pessoas", diz a ex-diarista que, além da boleira e da tábua, desenvolveu outros projetos, todos voltados para resolver dificuldades cotidianas de quem não tem plena mobilidade manual. "Aumentou a minha autoestima", diz.

Laboratórios

O lado inventora de Amélia surgiu no início de 2016, quando começou a frequentar o Fab Lab CEU Três Pontes, no Jardim Romano, no extremo leste da capital. O laboratório digital pertence à rede municipal Fab Lab Livre criada em 2015 pela Prefeitura de São Paulo e que tem outras 11 unidades espalhadas pela cidade.

Os espaços são alinhados com o movimento maker, que propõe o aprendizado na prática, utilizando equipamentos tecnológicos, como a impressora 3D e máquinas de corte a laser, mas também instrumentos básicos de marcenaria. A ideia é que pessoas sem experiência sejam capazes de desenvolver projetos apenas com a ajuda de um instrutor ou a realização de um curso rápido com duração de quatro a 96 horas.

Um dos líderes da rede Fab Lab Livre, o arquiteto Ricardo Delgado, de 27 anos, afirma que o programa pretende, com um pequeno apoio, "deixar as pessoas aptas" para que tenham "liberdade de criar".

Sustentável. Foi no Fab Lab Heliópolis, na zona sul da capital, que o designer Marco Zarif, de 23 anos, pôde desenvolver dois projetos de pranchas de surfe que encontrara na internet disponíveis para serem replicados e adaptados. Ambas têm como base o papelão. Em uma delas, o material substitui o poliuretano e suas variações na parte interna. A outra, que ainda está em desenvolvimento, é quase toda feita de papelão e ganha apenas uma laminação de fibra de vidro para resistir à água.

Segundo Zarif, as pranchas são totalmente recicláveis e, quando danificadas, podem ser transformadas em outros produtos, como brinquedos.

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Foi nos cursos do Fab Lab da Chácara do Jockey, na zona oeste da cidade, que jovens professores de Ciências Biológicas da Universidade de São Paulo (USP) conseguiram desenvolver os microscópios caseiros que agora usam no programa João de Barro Ensina, que oferece oficinas de ciência para crianças e professores da educação básica. O "cabeloscópio" e o "cuboscópio" foram feitos apenas com uma webcam e papel ou MDF e têm alcance de 100 a 300 vezes o tamanho real.

Integrante do projeto, o professor de Ciências da rede municipal Rodrigo Tsuzuki, de 29 anos, diz que as imagens captadas pelos microscópios podem ser projetadas para todos. "Na aula é ótimo, porque todo mundo interage junto. Se fica só um aluno por vez, o resto da turma acaba perdendo interesse", diz.