Professores... Se a profissão é predominantemente feminina (cerca de 73%) por que tratamos no masculino? Penso na cruel idealização da profissão algo idêntica à cruel idealização da mulher. Oscila entre santa, heroína, "faz por amor", abnegada e vagabunda, corruptora dos valores da família de bem (a família patriarcal).
Os professores e as professoras reais são trabalhadores e trabalhadoras, com suas contradições, nem heróis nem vilões, que vivem um processo de acelerada degradação das suas condições de trabalho, do salário aos instrumentos de trabalho, das escolas. A escola vem se tornado um front de resistência contra a destruição da coisa pública, das duras conquistas da classe trabalhadora e é, contraditoriamente, também (e talvez principalmente) o espaço de uma violência cega, da guerra de todos contra todos, de estudante contra professor, professor contra estudante etc. A escola é o aparelho ideológico do Estado, espaço de opressão, de imposição de hierarquias e autoridade, que não se realiza completamente, que fracassa, mas inevitavelmente acaba transmitindo rudimentos de disciplina para formar a mão de obra minimamente disciplinada e obediente, que tenta de toda forma se ajustar a uma sociedade que a impele todo o momento para a marginalidade e o crime, para a informalidade, para a beira do abismo social.
Como se não bastasse, além de suportar tudo isso, esse embrutecimento cotidiano, o professor que tenta resistir e transformar essa realidade insuportável tem agora que lidar com o assédio ideológico do conservadorismo, da direita, do "escola sem partido", dos fundamentalistas. De ser idealizado como herói abnegado, o professor (aquele que luta) tornou-se o doutrinador perigoso, corruptor da juventude, que não é capaz de manter a ordem em sala de aula, mas pode transformar crianças e adolescentes puros em comunistas que se viram contra os valores da família ou passam a ter dúvida sobre a própria sexualidade, já que lhes é imposta uma tal de ideologia de gênero, que transforma jovens criados na igreja em homossexuais, bissexuais, transsexuais. Por incrível que pareça essas mistificações absurdas são aceitas como verdade por um número crescente de pessoas e a lei da mordaça está sendo seriamente discutida pelo poder público em várias cidades.
Ou seja, ao invés de tratarmos os problemas que estão levando a uma terrível precarização da educação, a destruição da profissão, do professor, os governos, em todas as instâncias, estão trabalhando - junto com esses movimentos e organizações de direita - para tentar aumentar o controle e a censura sobre os educadores, destruindo qualquer possibilidade de transformação por meio da própria luta dos professores e estudantes, além de, por meio de um falso moralismo e conservadorismo que tem um certo respaldo popular, vetar a necessária discussão sobre sexualidade nas escolas, sobre o respeito a diversidade, num país machista que mata mulheres, LGBTs, que têm crescentes episódios de violência contra religiões de matriz africana. Em suma, somos um país formado pela violência da colonização, de 400 anos de escravidão e genocídio, mas essa realidade vivida nas escolas não poderá mais ser debatida (a questão da matança generalizada da população negra, por exemplo, a questão do racismo), a pretexto de se manter uma neutralidade que prega o escola sem partido, ao mesmo tempo que o dogma religioso (pseudocristão) invade as escolas. Não se poderá mais tratar das assim chamadas "questões de gênero" (coisa que por sinal, raramente é debatida nas escolas. Ideologia de gênero não existe!) se alegando que isso fere os princípios transmitidos pela família, a doutrinação, que agora foi oficializada pelo STF. Contra a suposta doutrinação comunista, doutrina. Ué, mas a escola é sem partido, deveria ser neutra... eu não estou entendendo. Minto, estou sim. A escola sem partido é como o nazismo, a escola de um único partido.
Nada a comemorar no recem-celebrado Dia dos Professores. Temos muita luta pela frente. Espero tê-los ao meu lado. Venceremos!