08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

'Para Nóia'

Demerval Assis da Silva
| Tempo de leitura: 3 min

Do rapaz franzino, que em frente ao mercado corria de cliente em cliente e pedia a famosa moedinha pra comprar o que comer, apesar de sua atitude já ser peculiar aos viciados em droga, tinha algo mais que me chamou atenção: os óculos de grau e um português de quem teve certo grau de estudo.

Quando finalmente ganhou o dinheiro que daria para comprar o que todos nós duvidávamos, a porta já havia se fechado. Foi quando o rapaz de nome Gabriel, vinte e cinco anos que aparentava, apesar de judiado, bateu a porta de vidro já fechada do mercado e levou uma metralhada de 'xingos' de um dos funcionários. Eu, que estava ali apenas esperando pela minha mulher, disse ao funcionário que não precisaria ter tratado o rapaz assim, no que solidarizou-se comigo a mulher que deu-lhe a quantia final para a compra de um refrigerante e mais algum, pois com certeza ele precisava de açúcar, quando finalmente um funcionário de folga, que também assistia à cena, adentrou com autorização ao mercado e comprou um refrigerante. Eu disse ao Gabriel na posse do seu refri que fosse embora, no que ele obedeceu de pronto e se foi.

Mas a questão dos "nóias" é muito mais profunda, mais um mal dos novos tempos ou apenas a metamorfose deste, como qualquer outra doença que se transmuta para driblar o efeito da eficácia dos medicamentos, pois sobre esses cristais (crack), é sabido ser subproduto da cocaína e nesse "novo formato" um tanto mais sério, devido ao seu poder de viciação. Ao cairmos no dilema das internações compulsórias e mesmo que consentidas pelo "doente", ainda não se tem nenhum tratamento específico e com reais chances de cura.

Os números em relação a esta são muito baixos, sendo que a participação da família, onde lê-se também sociedade, o apoio destas seria importantíssimo, porém, o viciado tem um histórico de dificílima convivência. Um fator a se levar em consideração é a curta duração da droga, em média cinco minutos apenas, e a abstinência sem algum tipo de tratamento é tão violenta física e psicologicamente que torna suas vítimas zumbis sujos e maltrapilhos, principalmente de hábitos noturnos em sua procura interminável por tudo que possa ser transformado em dinheiro, sejam furtos ou a prostituição para a compra das "pedras".

No dia seguinte ao episódio com Gabriel, ao passar, vejo-o a poucos metros do mercado, com dois policiais perto da viatura de polícia, dei a volta na quadro e sem saber o que fazer parei, desci do carro e fui tentar dialogar com os policiais e saber o que o Gabriel havia "aprontado". Sem sucesso no diálogo, ainda vi o rapaz sendo embarcado, algemado na viatura, imaginei o pior, o rapaz "doente" em um presídio em vez de uma clínica.

Seria o fim da linha para ele?

Errado! No mesmo dia, com "certo alívio", encontrei-o em frente ao mercado atrás das "moedinhas da sorte". Mas não nos enganemos, a "sorte" deste Gabriel não se restringe a ele. Nossa sociedade está cada vez mais enferma e engana-se ainda quem acha que muros ou classes sociais são capazes de separar o "joio do trigo", pois da alta sociedade, através da nosso classe política (está ai todos os dias na mídia), encontra-se o maior foco dessa deterioração. Ou nos ajudamos realmente uns aos outros ou perderemos o "paciente sociedade" que já agoniza.

"Quando você não tem nada, você não tem nada a perder" (Like a Rolling Stones - Bob Dylan).