09 de julho de 2026
Nacional

Aluno abre fogo na própria escola em GO e mata 2 colegas com arma da mãe

Cleomar Almeida
| Tempo de leitura: 8 min

Rogério Esteves/Estadão Conteúdo
Frente da escola onde ocorreu a tragédia nessa sexta-feira (20), em Goiânia, cercada por policiais e socorristas

Dois adolescentes, de 12 e 13 anos, morreram e outras quatro pessoas ficaram feridas no final da manhã dessa sexta-feira (20) em um ataque a tiros dentro de uma escola particular Goyases, em Goiânia. O adolescente que disparou os tiros tem 14 anos, é estudante do oitavo ano da escola e filho de militares. O nome dele não será informado em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ele foi apreendido pela polícia e encaminhado para a Delegacia de Apuração de Atos Infracionais (Depai), onde se encontra, acompanhado do pai.

Segundo o Corpo de Bombeiros, às 11h50, uma mulher ligou para um serviço de emergência e se identificou como professora do colégio, que fica no bairro setor Riviera. Ela contou que uma pessoa estava efetuando disparos no local. João Vitor Gomes e João Pedro Calembo morreram na sala de aula logo após os disparos.

Estão feridos duas garotas de 14 anos, uma de 13 e um garoto também de 13 anos. Ao menos três estão em estado grave. O helicóptero do Grupo de Radio Patrulha Aérea encaminhou uma das vítimas do tiroteio ao Hospital de Urgências de Goiânia.

O atirador utilizou uma pistola.40 de seu pai e, pelos relatos, escondeu a arma na mochila ao entrar no colégio. Os disparos ocorreram no fim do período de aulas.

A arma pertence à Polícia Militar. A polícia vai apurar de que maneira o adolescente teve acesso à arma.

Alunos disseram que o adolescente sofria bullying e tinha o apelido de "fedido", segundo eles, porque não usava desodorante.

Ao menos nove estudantes relataram o apelido à reportagem, seis da classe dele. A polícia confirma a mesma apuração. Atirador e vítimas eram da mesma sala. Na porta do colégio, estudantes disseram à reportagem que o atirador é "muito inteligente e muito calado."

Segundo o delegado Luiz Gonzaga Júnior, o atirador tinha apenas um dos colegas que morreu como alvo. "Em um desequilíbrio emocional, ele acabou atingindo todos os outros."

Alunos da escola estão transtornados e se lamentam. "Isso não está acontecendo. O ano acabou", disse uma estudante. Por serem menores de idade, a reportagem preserva a identidade. A escola, de classe média, fica na região leste de Goiânia, próxima a condomínios horizontais fechados. A unidade de ensino oferece aulas até o nono ano do ensino fundamental, com mensalidades em torno de R$ 500,00.

"Ele levantou a arma e atirou para todo lado", diz colega de atirador

Cristiano Borges/Estadão Conteúdo
Alunos choram perda de dois colegas, em escola de Goiânia

Eram 11h40 e acabara de soar o sinal do penúltimo horário de aula desta sexta-feira (20) no Colégio Goyases, uma escola particular em Goiânia. Neste momento um aluno de 14 anos deu o primeiro tiro. Dois adolescentes, de 12 e 13 anos, morreram e outras quatro pessoas ficaram feridas. "Eu vi o momento. A gente tinha acabado de bater o sinal do penúltimo horário. Eram 11h40. A gente escutou um barulho bem alto, parecia de bombinha. Como a gente tinha mostra (de ciência) amanhã (sábado, 21), a gente pensou que era um dos experimentos", disse uma estudante de 13 anos, aluna da mesma sala do atirador, no 8º ano. Ela disse que estava com uma colega e a professora próximo à porta da sala de aula. O atirador estava próximo ao fundo do ambiente. "A professora perguntou 'o que que é isso?' Ele levantou a arma e atirou para todo lado. Peguei na mão da minha amiga e saí correndo", afirmou a aluna. "Ele não era calmo. Ele era bem estranho."

Sobreviventes

Dos quatro alunos feridos, três - duas meninas e um menino - estão no Hospital de Urgências de Goiânia. A vítima mais grave é uma menina de 13 anos atingida nos pulmões, na mão e no pescoço. De acordo com o hospital, a menina está em coma induzido na UTI, respira com ajuda de aparelhos e teve que fazer uma drenagem nos dois pulmões atingidos. Uma outra menina de 13 anos teve o pulmão esquerdo perfurado e também passou por drenagem, mas está acordada e respira espontaneamente. Um menino também de 13 anos também levou um tiro no tórax, mas não houve perfuração do pulmão. Nenhuma das vítimas tem previsão de alta. Uma quarta pessoa está internada no Hospital de Acidentados, que não deu informações.

Jovem se inspirou em ações no Rio e EUA e planejou crime por 3 meses

Reprodução Internet
Sobrevivente chora com mãe, nessa sexta-feira (20), em Goiânia

O adolescente de 14 anos que matou dois colegas nessa sexta-feira (20), em Goiânia, disse à polícia que se inspirou em duas outras tragédias envolvendo atiradores em escolas - o massacre de Columbine, em 1999, nos EUA, e o de Realengo, em 2011, no Rio. De acordo Luiz Gonzaga Júnior, delegado titular da Delegacia de Polícia de Apuração de Atos Infracionais, o estudante usou uma pistola .40 da mãe que, assim como o pai, é policial militar em Goiás. Ele disse que planejou o ataque por 3 meses.

Gonzaga Júnior afirmou que o adolescente esvaziou um carregador e deu mais um tiro de um segundo carregador. O estudante disse à polícia que ninguém o tinha ensinado a atirar. O delegado de Homicídios de Goiânia Francisco Costa afirmou que ao menos 11 tiros foram disparados. As marcas de tiros do atentado estão por toda parte na sala de aula. "Tem marcas de tiros nas paredes e no chão. A gente encontrou até agora 11 cápsulas (de balas) e alguns projéteis espalhados", afirmou Costa. "Vi dois corpos dentro da sala revirados, várias marcas de sangue, do terceiro andar até o térreo, algumas salas revirados", contou o delegado.

Os corpos das vítimas foram levados da escola em um camburão do Instituto Médico Legal, no final da tarde de ontem. O menino disse à polícia que matou os colegas porque sofria bullying. Gonzaga Júnior não quis entrar em detalhes, mas amigos disseram que ele era chamado de "fedorento" por não usar desodorante.

O jovem pegou a arma em um móvel de casa na noite de quinta-feira (19) e levou a pistola para a escola dentro da mochila. A arma ainda guardada fez um disparo acidental. Ele então atirou e matou um colega que tinha como desafeto. Em seguida, ele disse: "vocês vão todos morrer" e atirou nos outros colegas. João Vitor Gomes, amigo do atirador, também morreu.

A polícia disse que o atirador foi contido pela coordenadora. Ele apontou a arma para própria cabeça, mas ela o convenceu a não atirar. O jovem travou a arma, mas não a entregou à profissional, que o levou à biblioteca e chamou a PM. O pai do atirador, que já foi ouvido pela polícia, disse que ele já fez acompanhamento psicológico, é um ótimo aluno e tem boa relação em casa. A mãe ainda será ouvida. O delegado disse que ele aparentava arrependimento, mas não chegou a pedir desculpas. O jovem foi apreendido, mas os pais, que podem ser responsabilizados pelo crime, estão em liberdade.

‘Sempre ameaçava matar estudantes’

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Faixa de luto na escola em Goiânia

Duas adolescentes que estudavam na mesma sala do adolescente que atirou contra colegas nessa sexta-feira (20), em Goiânia, afirmam que o garoto tinha comportamentos estranhos. Ambas dizem que o jovem já chegou a levar um livro sobre satanismo à escola. "Numa prova de ética dele, ele desenhou o símbolo nazista, e em uma roda literária, ele levou um livro satânico", relatou. De acordo com elas, o estudante era uma pessoa "muito estranha e muito fria". "Se você fizesse uma brincadeira ele falava que ia te levar para o inferno, que ia matar sua família e te matar".

Amiga de João Pedro - uma das vítimas fatais - uma das jovens o descreve como alguém que brincava com todos, mas desconhece qualquer apelido específico em relação ao atirador. Quanto a João Vitor, outra vítima, a garota o define como "uma pessoa normal, bom aluno".

No portão de entrada do Colégio Goyases, uma faixa com os dizeres "Família Goyases em luto" foi colocada nessa sexta-feira (20).

Uma estudante disse que o atirador chegou a mirar em direção a ela por alguns segundos, mas mudou de ângulo e não a atingiu. O colégio, segundo estudantes e ex-estudantes que circundavam o cordão de isolamento, exige disciplina dos alunos.

Um deles disse que já havia sido suspenso de classe porque estourou um "estralinho".

Três alunas do 9º ano, sentadas na calçada, comentam que há aula de ética toda semana. Em uma dessas aulas, o autor dos disparos teria desenhado uma suástica.

Relembre atiradores de escola no País

TAIÚVA

Em janeiro de 2003, em Taiúva, Edmar Aparecido Freitas, 18 anos, ex-aluno da escola estadual Coronel Benedito Ortiz, invadiu o pátio da instituição, atirou em alunos, professores e funcionários e depois se matou. Ele feriu 8 pessoas, uma morreu e outra ficou paraplégica.

REALENGO

Em abril de 2011, em Realengo (RJ), 12 adolescentes - dez meninas e dois meninos - morreram no massacre da escola municipal Tasso da Silveira. Eles foram vítimas de Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, que atirou contra as vítimas na sala de aula.

SÃO CAETANO DO SUL

Em setembro de 2011, em São Caetano do Sul um aluno de 10 anos atirou contra uma professora e depois se matou na escola Professora Alcina Dantas Feijão. O adolescente, aluno do 4º ano, disparou contra a professora Rosileide Queiros de Oliveira, 38 anos, na sala de aula. No momento do disparo, 25 alunos estavam na sala. Em seguida, o aluno se retirou da sala de aula e disparou nele próprio, na cabeça.

PIAUÍ

Em abril de 2011, um adolescente de 14 anos que se disse vítima de bullying matou um colega com golpes de faca no interior do Piauí. O caso ocorreu na zona rural da cidade de Corrente, no extremo sul do Estado. O rapaz disse à polícia que era "agredido quase todos os dias física e verbalmente".

Arquivo
Realengo: atirador Wellington