| Malavolta Jr. |
| Estação de Captação de Água do Rio Batalha |
Estudos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (em inglês, FAO) mostram que o Brasil desperdiça mais de 45% da água tratada. O número choca. É um escândalo para padrões internacionais. O Japão, por exemplo, tem uma perda de apenas 4% e faz campanhas e mais campanhas para chegar a pouco mais do que zero. Menos de 1% é a meta dos japoneses, que dão a devida importância para a educação ambiental.
No caso de Bauru, o próprio Departamento de Água e Esgoto (DAE) reconhece que essa perda chega, em média, a 50%. E antes que alguém jogue a primeira pedra, sim, o órgão reconhece que é responsável por grande parte do que vai, literalmente, pelo ralo, sem uso. Mas promete já começar a mudar isso com uma obra de fôlego na região que é a campeã dos buracos - o Jardim Bela Vista.
É importante que fique clara a noção de perda. Esta se refere à diferença entre o que é captado nos mananciais e depois tratado, e o que é entregue ao consumidor e daí devidamente consumido. A perda quase sempre se dá à má conservação da rede de água.
Bauru convive (e muito!) com isso. São os nossos tradicionais buracos no chão, por onde escoa água limpinha e tratada. São mais de 450 deles todos os dias. Essas são as perdas devido à infraestrutura da rede de água. E os problemas são sentidos, via de regra, nos bairros mais antigos.
Mas há também o desperdício, aquele que poucos admitem. De uma forma ou de outra, todo mundo contribui.
Cantar no chuveiro
Mas e a população, está consciente de que precisa fazer a sua parte?
O desperdício do morador é grande também e contribui para esses números altos. Todo mundo conhece quem varre a calçada com mangueira de esguicho. E você já parou para pensar que usamos a saudabilíssima água potável para lavar carros? Isso sem falar naqueles que no chuveiro demoram tanto que parecem estar a cantar uma ópera em vários atos.
Quanta gente, no mundo todo, sofrendo com a falta do líquido, ainda mais devidamente tratado, não é mesmo?
É fácil responder que não. Basta uma olhada em todos os bairros que tenham calçamento e asfalto e a cena de pessoas lavando as calçadas é uma constante. Mas também não é difícil encontrar cada vez mais pessoas conscientes e fazendo a sua parte.
*Dados de 2015
DAE já se preocupa com o alto verão
| Malavolta Jr. |
| Eric Fabris monitora vazamentos e consertos todos os dias |
A ONU diz que cada ser humano não precisa de mais de 110 litros de água por dia. Essa quantidade é suficiente para atender todas as necessidades diárias de uma pessoa adulta, inclusive, um bom banho.
Apesar disso, a média de consumo no Brasil é de 150 litros. E nas grandes cidades o consumo é bem maior do que isso. Sabe-se que em São Paulo é de 221; no Rio de Janeiro, 226; em Vitória, 236.
Em Bauru, o DAE trabalha com um padrão - também definido internacionalmente pela OMS - Organização Mundial de Saúde - de média de 200 litros per capita ao dia, como o ideal. É algo bem generoso comparado com a recomendação da ONU, então, nesse quesito não há o que reclamar. Vale lembrar que não há um levantamento recente do quanto o bauruense usa do líquido e, sabe-se também que quanto maior a classe social, maior é o consumo, em bairros nobres da capital de São Paulo, o consumo ultrapassa os 400 litros por dia para cada pessoa. Em Bauru, cidade pródiga em temperaturas - e em piscinas domésticas - não há um levantamento exato.
Os economistas dizem que o desperdício é grande porque, no Brasil, a água ainda é muito barata. Com isso concorda o presidente do DAE, Eric Fabris. Mas sua preocupação hoje é de outra ordem: para haver demanda tem que haver o líquido. Debruçado em números ele mostra que a captação está caindo. Esta semana, por exemplo, na lagoa de captação, ou seja, tem caído em media dois centímetros por dia. Isso claro, tem a ver com a falta de chuva. Mas também há a outra ponta: é preciso fazer render o que se tem. Ou seja, se captar menos e gastar mais, vai faltar.
| Malavolta Jr. |
| Eric Fabris mostra mapa de setorização |
Ele lembra que em 2015 ainda com a memória do impacto da grande crise hídrica de 2014, quando houve o racionamento, no inverno, o bauruense consumiu bem menos do que está consumindo hoje. Ou seja analisando os números a corda afrouxou. Veja números ao lado.
Por isso ele teme um verão de temperaturas altas e já alerta para que a população economize, ou ao menos, use o líquido de forma bem racionalmente. "Lavar calçada, nem pensar e, chão tem que fazer como em casa, onde minha mulher ordena: tudo a seco. Um balde e passar pano é o suficiente".
Enquanto ele espera essa ação da população, a autarquia sofre para estancar a sangria da perda, dos vazamentos. E admite que os buracos são muitos. Em um quadro em sala, Eric monitora tem os números atualizados todos os dias. Não se sabe quantos litros são desperdiçados em cada um dos buracos cuja água escorre a céu aberto, há os maiores, há os menos. Mas sabe quantos vazamentos há. E sabe que seriam preciso seis dias úteis de trabalho (sem mais nada) para zerar a conta. Parece pouco, especialmente para quem telefona e fica quinze, vinte dias esperando pelo conserto na frente de casa. Mas há as outras demandas e, há também a logística. "às vezes a gente tem que deixar um lado que o prejuízo é menor para atender outro". Mas a população não entende disso.
Especialmente a região do Bela Vista, transformada em uma colcha de retalhos de tantos vazamentos e que é a que concentra maior número de reclamações.
Engenheiro ambiental dá o exemplo
| Malavolta Jr. |
| O engenheiro ambiental Jeanan Bason e seu pai David Bason, engenheiro de segurança: empresa com consciência |
Há várias ações que as donas de casa já conhecem como efetivas para diminuir o consumo de água potável que deveria ser só para alimentação e beber.
Num exercício diário muita gente usa a água da máquina de lavar para, por exemplo, daí lavar o quintal, limpar áreas suja por urina dos cães domésticos e até as garagens e, daí, por que não?, com essa água já lavar sim, a calçada, mas aposentando a mangueira, com os baldes retirados da máquina de lavar roupas. Primeiro baldes de água com sabão e na sequência o balde de água do enxágue. Dá mais trabalho? Sim, dá. mas é muito melhor, o orçamento doméstico agradece e, o planeta Terra também.
Ah! falando em cachorros, nesse quesito Bauru também é imbatível: tem muitos cães e se é fácil recolher as fezes, fica mais difícil acabar com o cheiro de urina pelos quintais e calçadas. Como fazer?
Está aí um bom uso da água da máquina de lavar roupas. Outra opção é usar o recurso de 1x1. Um balde de água com cloro, muito cloro e outro de água limpa. E só. Jogando isso é o suficiente para fazer a limpeza do xixi, acabar com as bactérias garantem os especialistas.
Branka Roos, empresária tem o exemplo dentro de casa. O filho, Jeanan Roos Bason, formou-se engenheiro ambiental e esclarece a família sempre da importância do reuso. E ele próprio dá o exemplo. Tanto que na empresa deles, de troca de óleo de automóveis, manutenção e limpeza de ar-condicionado, limpeza de radiadores, entre outros seviços, não se vê pelo chão as famosas marcas de óleo das empresas semelhantes. E nem são utilizados químicos para a limpeza. Ao contrário, desde que a empresa abriu há quatro anos, a reciclagem, o descarte do material, sendo uma empresa ecologicamente 100% correta está na linha de frente. A obra com um desnível faz com que o líquido escorra para um setor sem ir para a rua e depois para o lençol freático, a água passa por um processo de filtragem de tal forma que uma vez decantado o óleo (que vai para o descarte possa ser aproveitado para a lavagem do local. No sistema, todas as impurezas, os produtos químicos são separados, tanto que há até um jardinzinho dentro do estabelecimento, algo impossível de se imaginar.
'Teremos uvas no Natal'
As águas de chuva são consideradas, muitas vezes, como esgoto, pois, usualmente, passam pelos telhados e pisos e vão para as bocas de lobo onde, como “solvente universal”, carregam todo tipo de impureza dissolvida. Resultado: acabam sendo levadas mecanicamente para um córrego e, posteriormente, ao rio Bauru. Porém, se for captada em áreas de acesso restrito antes desse caminho, pode ser aproveitada para fins não potáveis, sem a necessidade de um tratamento mais complexo.
Sabendo disso, o dono de uma residência no Jardim Bela Vista resolveu captar a água que cai do telhado nos dias de chuva. Tudo para poder cultivar uma horta orgânica no quintal, com direito até a parreira de uvas que ele pretende colher já nas festas do final do ano.
O sistema é simples e consiste em canos e quatro galões para onde a água é direcionada e o chamado popularmente “ladrão” no último dos galões que, ao encher, aciona um esquema para que o excesso seja direcionado ao chão, justamente onde está a parreira e os demais canteiros da horta.
Como o local ainda está em reforma, a família não quis se identificar, nem ao local. Até para não atrair os chamados “amigos do alheio” , porque “quero experimentar o sabor destes cachos no Natal”, diz, em anonimato, o dono da casa.
População: para o bem e para o mal
Se os economistas dizem que o desperdício é grande porque, no Brasil, a água ainda é muito barata e, com isso todos os especialistas concordam, sendo que em Bauru, o DAE pratica, segundo seu presidente uma das mais baixas tarifas do país, então, o desperdício não pesa no bolso da classe média alta. Mas para as classes média, média baixa e baixa faz, sim, muita diferença. E para as empresas quando o consumo é em larga escala, mais ainda.
Mas é a conscientização para uma matéria que deveria já ser ensinada na tenra idade que faz a diferença: a educação ambiental. É ela que leva as pessoas as apostarem no baixo consumo e, ao mesmo tempo, terem excelente qualidade de vida.
Como educar leva tempo, nossas escolas (e pais) precisam intensificar muito mais a conscientização das crianças. Não só as escolas, mas todos os logradouros públicos e privados, as empresas, as associações, os locais de lazer, os clubes e vários outras devem essa instrução à sociedade como um todo. E o exemplo de cidadãos conta muito mesmo.
A racionalização do consumo é um requisito básico para garantir a disponibilidade de água no futuro e acesso mais inclusivo, para que mais e mais pessoas tenham água pura, limpa, potável em casa. A Terra possui uma certa capacidade de se regenerar, mas sabe-se também que os recursos hídricos não são infinitos e, por isso, não dá mais, com certeza para encontrar no dia a dia pessoas fazendo a varrição de calçadas com esguicho ou lavando carro que pode ser muito bem limpo a seco, com panos úmidos.