Mudar de carreira não é uma tarefa fácil. Requer cuidados e muita atitude. Incertezas, dúvidas e até incompreensão da família são obstáculos a serem enfrentados. A decisão, contudo, pode marcar o início de uma vida mais feliz: as frustrações se dissolvem diante do novo caminho profissional. Este cenário já desponta há algum tempo e especialista atribui a longevidade como um dos estímulos principais no processo de mudança da profissão.
"A média de vida de um brasileiro hoje é bem maior do que alguns anos atrás. Por isso, ocorre um movimento natural em que a pessoa busca, cada vez mais, o que efetivamente tem a ver com ela em termos de carreira, numa fase da vida em que este profissional está mais maduro para realizar essa transição", destaca a psicóloga organizacional e do trabalho, Célia Roccio Garcia Lopes - que também atua como consultora em gestão de pessoas e coach.
A preocupação com rendimentos mais altos e maior satisfação pessoal tem despertado, cada vez mais, o interesse na mudança de carreira. "Antigamente, nós escolhíamos uma área e íamos vida afora naquele segmento, sem pararmos para questionar a nossa escolha. Existem vários aspectos que permeiam essa questão. A geração mais antiga ia muito cedo para o mercado de trabalho, sem ao menos buscar uma graduação escolar", pontua Célia.
"Esse mundo mudou bastante. Embora ainda existam muitas dificuldades no processo educacional do País, hoje é muito mais fácil conseguir graduação universitária. E nós sabemos que tomar uma decisão importante em relação à carreira aos 17, 18 anos, quando a maioria entra na faculdade, é mais difícil. Eles estão numa fase de busca de autoafirmação. Falta autoconhecimento", acrescenta a psicóloga.
Além dos casos de "equívocos" na escolha profissional enquanto jovem (alguns dão conta disso depois de muitos anos de atuação na área), outra frente apontada pela especialista é a necessidade de encontrar satisfação no emprego. Embora seja maior a quantidade de pessoas que mudam de carreira por necessidade em razão da crise econômica e do desemprego (leia mais abaixo), o trabalho não precisa mais ser algo desagradável.
"Ainda existe um exagero de padrões em que você tem que ter sucesso e ganhar dinheiro. Se a pessoa não se enquadra nessa realidade, entretanto, se sente frustrada. Por isso, é importante desenvolver o processo de autoconhecimento. Todos nós temos talentos e precisamos investir nas nossas habilidades. Já que vai mudar de área, temos que resgatar os sonhos, aquilo que faz os olhos brilharem", ressalta Célia.
RESISTÊNCIA DA FAMÍLIA
| Malavolta Jr. |
| Formado em TI, Christiano nocauteou as incertezas e foi fazer o que gostava: hoje, ele tem sua própria academia |
Foi em busca de realização profissional que o professor de jiu-jitsu e empresário Christiano Catala Paes de Almeida, 38 anos, decidiu enfrentar a família e mudar de carreira. Contrariado, ele cursou Tecnologia da Informação (TI) por sugestão dos pais, mas a sua vontade sempre foi ser professor de educação física. "Cheguei a trabalhar na área de informática por muitos anos. Mas aquilo não tinha nada a ver comigo".
É comum esse tipo de resistência familiar diante da escolha profissional, pontua a psicóloga. "Os pais não querem o mal do filho. Porém, a maioria das famílias tem uma certa tendência em direcionar o jovem para uma profissão com maior estabilidade financeira. Por isso, em muitos casos, depois de um tempo, a pessoa se questiona e muda de carreira".
Exemplo de Almeida. "No início, conciliei o trabalho de informática com as aulas. Agora tenho a minha própria academia e não me vejo fazendo outra coisa. Sou realizado. Quando estou em casa, sinto falta da academia, mas quando estou na academia não sinto falta de nada. Já a preocupação dos meus pais, hoje, é bem menor", brinca.
'O MAIOR MEDO É PENSAR: SERÁ QUE VAI DAR CERTO?'
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| Michelle Terra: "É muito bom fazer o que te faz bem. Cada dia é um aprendizado" |
Bióloga por formação, Michelle Terra Moizés, 41 anos, chegou a ser pesquisadora no Instituto Butantã, em São Paulo. Mas a profissão não a agradava mais há um bom tempo. "Foi uma união de coisas. Insatisfação com a área em que eu atuava e veio também a vontade de procurar algo que eu realmente gostasse", conta, ao justificar a mudança de carreira.
Hoje, ela e o marido, Fábio Moizés, 45, produzem artigos de couro: bolsas, carteiras, pulseiras e acessórios fazem parte dos produtos comercializados há pouco mais de um ano. Ele, professor universitário de design e arquitetura, também está fazendo a transição para a nova área. "Estou conciliando os dois, atualmente", diz.
Michelle é filha de costureira e conta que o incentivo veio de casa. "É como se algo que estivesse dentro de você voltasse à tona em algum momento da sua vida. Foi um processo longo, de amadurecimento. O maior medo é pensar: 'Será que vai dar certo?'. É muito bom fazer o que te faz bem. Cada dia é um aprendizado, mas precisa de planejamento".
Planejar-se para mudar de carreira é um dos cuidados necessários para não tomar a decisão errada, alerta a profissional em Recursos Humanos (RH) na área de recrutamento e seleção de candidatos Endi Lee Penteado. "Alguns conhecem realmente o mercado e outros estão mudando por necessidade. Por isso, é essencial avaliar vários aspectos, como questionar o motivo da insatisfação e se perguntar se tenho condições de me sustentar durante a transição".
Penteado ressalta que é preciso ter um "plano B". "Concilie os dois empregos, inicialmente. Quando o novo trabalho começar a prosperar, largue o outro. É importante, também, avaliar como está o mercado escolhido e a empresa em que pretende-se atuar".
| Douglas Reis |
| Bruno buscou novo segmento para trabalhar menos e ganhar mais |
CRISE
Penteado aponta que há um aumentou do número de pessoas que trocaram de carreira, mas a grande busca ainda é por conta da crise e o desemprego. "A gente percebe que 80% dos casos se dá por necessidade e somente 20% por realização de um sonho profissional".
QUALIDADE DE VIDA
Bruno Zulian Coimbra Barbosa, 31, atuava como técnico em informática. Agora, entrou para o segmento do marketing multinível - um modelo comercial de distribuição de bens ou serviços em que os ganhos podem advir da venda efetiva dos produtos ou do recrutamento de novos vendedores. Além de ter o próprio negócio, o objetivo era também a qualidade de vida. "Hoje, trabalho três vezes menos e ganho três vezes mais", comemora.
A profissional em RH Endi Lee pondera que, em alguns casos, ocorre o contrário. "Há trabalhos em que as pessoas preferem ganhar menos e ter uma qualidade de vida do que receber 'mundos e fundos' e ter aquela cobrança exaustiva. O mercado está bastante assim", frisa.