09 de julho de 2026
Geral

Em busca de felicidade, longevidade dá impulso a mudanças de carreiras

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 5 min

Mudar de carreira não é uma tarefa fácil. Requer cuidados e muita atitude. Incertezas, dúvidas e até incompreensão da família são obstáculos a serem enfrentados. A decisão, contudo, pode marcar o início de uma vida mais feliz: as frustrações se dissolvem diante do novo caminho profissional. Este cenário já desponta há algum tempo e especialista atribui a longevidade como um dos estímulos principais no processo de mudança da profissão.

"A média de vida de um brasileiro hoje é bem maior do que alguns anos atrás. Por isso, ocorre um movimento natural em que a pessoa busca, cada vez mais, o que efetivamente tem a ver com ela em termos de carreira, numa fase da vida em que este profissional está mais maduro para realizar essa transição", destaca a psicóloga organizacional e do trabalho, Célia Roccio Garcia Lopes - que também atua como consultora em gestão de pessoas e coach. 

A preocupação com rendimentos mais altos e maior satisfação pessoal tem despertado, cada vez mais, o interesse na mudança de carreira. "Antigamente, nós escolhíamos uma área e íamos vida afora naquele segmento, sem pararmos para questionar a nossa escolha. Existem vários aspectos que permeiam essa questão. A geração mais antiga ia muito cedo para o mercado de trabalho, sem ao menos buscar uma graduação escolar", pontua Célia.

"Esse mundo mudou bastante. Embora ainda existam muitas dificuldades no processo educacional do País, hoje é muito mais fácil conseguir graduação universitária. E nós sabemos que tomar uma decisão importante em relação à carreira aos 17, 18 anos, quando a maioria entra na faculdade, é mais difícil. Eles estão numa fase de busca de autoafirmação. Falta autoconhecimento", acrescenta a psicóloga.

Além dos casos de "equívocos" na escolha profissional enquanto jovem (alguns dão conta disso depois de muitos anos de atuação na área), outra frente apontada pela especialista é a necessidade de encontrar satisfação no emprego. Embora seja maior a quantidade de pessoas que mudam de carreira por necessidade em razão da crise econômica e do desemprego (leia mais abaixo), o trabalho não precisa mais ser algo desagradável.

"Ainda existe um exagero de padrões em que você tem que ter sucesso e ganhar dinheiro. Se a pessoa não se enquadra nessa realidade, entretanto, se sente frustrada. Por isso, é importante desenvolver o processo de autoconhecimento. Todos nós temos talentos e precisamos investir nas nossas habilidades. Já que vai mudar de área, temos que resgatar os sonhos, aquilo que faz os olhos brilharem", ressalta Célia.

RESISTÊNCIA DA FAMÍLIA

Malavolta Jr.
Formado em TI, Christiano nocauteou as incertezas e foi fazer o que gostava: hoje, ele tem sua própria academia

Foi em busca de realização profissional que o professor de jiu-jitsu e empresário Christiano Catala Paes de Almeida, 38 anos, decidiu enfrentar a família e mudar de carreira. Contrariado, ele cursou Tecnologia da Informação (TI) por sugestão dos pais, mas a sua vontade sempre foi ser professor de educação física. "Cheguei a trabalhar na área de informática por muitos anos. Mas aquilo não tinha nada a ver comigo".

É comum esse tipo de resistência familiar diante da escolha profissional, pontua a psicóloga. "Os pais não querem o mal do filho. Porém, a maioria das famílias tem uma certa tendência em direcionar o jovem para uma profissão com maior estabilidade financeira. Por isso, em muitos casos, depois de um tempo, a pessoa se questiona e muda de carreira". 

Exemplo de Almeida. "No início, conciliei o trabalho de informática com as aulas. Agora tenho a minha própria academia e não me vejo fazendo outra coisa. Sou realizado. Quando estou em casa, sinto falta da academia, mas quando estou na academia não sinto falta de nada. Já a preocupação dos meus pais, hoje, é bem menor", brinca.

'O MAIOR MEDO É PENSAR: SERÁ QUE VAI DAR CERTO?'

Malavolta Jr.
Michelle Terra: "É muito bom fazer o que te faz bem. Cada dia é um aprendizado"

Bióloga por formação, Michelle Terra Moizés, 41 anos, chegou a ser pesquisadora no Instituto Butantã, em São Paulo. Mas a profissão não a agradava mais há um bom tempo. "Foi uma união de coisas. Insatisfação com a área em que eu atuava e veio também a vontade de procurar algo que eu realmente gostasse", conta, ao justificar a mudança de carreira.

Hoje, ela e o marido, Fábio Moizés, 45, produzem artigos de couro: bolsas, carteiras, pulseiras e acessórios fazem parte dos produtos comercializados há pouco mais de um ano. Ele, professor universitário de design e arquitetura, também está fazendo a transição para a nova área. "Estou conciliando os dois, atualmente", diz.

Michelle é filha de costureira e conta que o incentivo veio de casa. "É como se algo que estivesse dentro de você voltasse à tona em algum momento da sua vida. Foi um processo longo, de amadurecimento. O maior medo é pensar: 'Será que vai dar certo?'. É muito bom fazer o que te faz bem. Cada dia é um aprendizado, mas precisa de planejamento".

Planejar-se para mudar de carreira é um dos cuidados necessários para não tomar a decisão errada, alerta a profissional em Recursos Humanos (RH) na área de recrutamento e seleção de candidatos Endi Lee Penteado. "Alguns conhecem realmente o mercado e outros estão mudando por necessidade. Por isso, é essencial avaliar vários aspectos, como questionar o motivo da insatisfação e se perguntar se tenho condições de me sustentar durante a transição".

Penteado ressalta que é preciso ter um "plano B". "Concilie os dois empregos, inicialmente. Quando o novo trabalho começar a prosperar, largue o outro. É importante, também, avaliar como está o mercado escolhido e a empresa em que pretende-se atuar".

Douglas Reis
Bruno buscou novo segmento para trabalhar menos e ganhar mais

CRISE

Penteado aponta que há um aumentou do número de pessoas que trocaram de carreira, mas a grande busca ainda é por conta da crise e o desemprego. "A gente percebe que 80% dos casos se dá por necessidade e somente 20% por realização de um sonho profissional". 

QUALIDADE DE VIDA

Bruno Zulian Coimbra Barbosa, 31, atuava como técnico em informática. Agora, entrou para o segmento do marketing multinível - um modelo comercial de distribuição de bens ou serviços em que os ganhos podem advir da venda efetiva dos produtos ou do recrutamento de novos vendedores. Além de ter o próprio negócio, o objetivo era também a qualidade de vida. "Hoje, trabalho três vezes menos e ganho três vezes mais", comemora.

A profissional em RH Endi Lee pondera que, em alguns casos, ocorre o contrário. "Há trabalhos em que as pessoas preferem ganhar menos e ter uma qualidade de vida do que receber 'mundos e fundos' e ter aquela cobrança exaustiva. O mercado está bastante assim", frisa.