07 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Amnésia

Faukecefres Savi, advogado e blogueiro (www.fsavi.com)
| Tempo de leitura: 2 min

Finalmente, o bom senso prevaleceu e o STF, pela minista Rosa Weber, exarou liminar suspendendo os efeitos da malfadada portaria baixada por um obscuro ministro do Trabalho que, cedendo aos interesses oportunistas da "bancada ruralista", resolveu aplicar.

O que mais revolta neste episódio é que 200 votos da "bancada ruralista" para Temer valem mais que os 200 milhões que habitam esta terra, grande parte deles descendentes diretos dos que foram libertados, após os mais de 300 anos de trabalho forçado.

No dia em que for possível indenizar aos descendentes daqueles que foram escravizados pelo nosso colonizador, pelas vidas que lhes foram subtraídas, não haverá dinheiro que pague.

Por isso e por outras, o melhor que tentam fazer é fingir que essa vergonha mundial que contaminou irremediavelmente nossa história não seja matéria lecionada corretamente nos currículos escolares.

Sofremos de amnésia. 'Amnésia' é o título de um filme alemão, relatando a vida de uma cidadã germânica que após a II Grande Guerra vai viver solitária em Ibiza, paradisíaca ilha espanhola do Mediterrâneo, o mais longe possível do seu próprio país onde floresceu o nazismo.

Lá, encontra um jovem alemão, cujos pais o visitam. Esses pais, já idosos, são da geração que manteve Hitler e o nazismo, e criticam a compatriota expatriada, que não aceita as críticas e os fulmina com o exercício da amnésia. O conflito se instaura.

Só atentamos à razão do título, uma perda de memória, por que em seu desenrolar aborda-se a amnésia em que o povo alemão, próspero no pós-guerra, tudo faz para esquecer seu passado tenebroso.

Algo parecido se passa no Brasil, onde a falta de ensino correto nos currículos escolares de abordagem sobre a desumanidade da escravidão, como se não tivesse existido, representa a nossa amnésia, vez que não há como apagar o passado.

Mesmo na literatura histórica, os volumes dedicam apenas capítulos à escravidão, numa abordagem superficial, que revela-se muito longe de enfrentar e escancarar o verdadeiro problema que mancha nosso passado.

Sabe-se que o festejado historiador Laurentino Gomes se afastou de tudo para pesquisar o tema, levantando todos os arquivos malditos, com vista à obra que pretende entregar quando sua exaustiva tarefa finalizar, escrevendo exatamente sobre o tema da escravidão. Será a oportunidade de, finalmente, quando esse texto vier à lume, olhar abertamente pelo que se passou nos trezentos e tantos anos de escravidão, cuja ferida permanece aberta em nossa história.