Entre 2004 e 2014, cerca de 28,6 milhões de brasileiros saíram da chamada linha da pobreza. O Banco Mundial, que estimou estes números, também aponta que em 2016 entre 2,5 milhões e 3,6 milhões de brasileiros fizeram o caminho de volta.
Viver, ou melhor, sobreviver abaixo da linha da pobreza é ter que sustentar com menos de R$ 140,00 por mês por pessoa. Pense em passar o dia tendo que comer, se vestir, se locomover, fazer a higiene pessoal, enfim, realizar tarefas diárias com menos de R$ 5,00. É um absurdo, é inacreditável, mas é a realidade, dura e crua.
Este caminho de volta é muito mais traumático do que o ponto anterior. Quem nunca teve conforto por vezes não sente falta, mas quem melhorou de vida, por comparação, sabe o quanto é penoso este, diria, rebaixamento nas condições de vida.
Sempre que analisamos o pífio desempenho da economia brasileira dos últimos anos, o alerta sempre foi no sentido de que em algum momento os mais pobres seriam afetados, e isso ocorreu.
O desemprego jogou na lama o sonho de dias melhores e sem políticas públicas adequadas e na dimensão necessária, a pobreza se prolifera.
Os anos dourados da economia brasileira criaram uma ilusão de que tudo estava equacionado. O pré-sal, com expectativas positivas para o petróleo brasileiro, mais os preços elevados das commodities no mercado internacional, passaram a falsa impressão que o Brasil prosperaria infinitamente. O governo de Lula e o de Dilma estimularam o consumo, o modelo econômico brasileiro se demonstrou frágil demais para garantir crescimento econômico sustentável, e as consequências vieram.
Das peladas fiscais ao descontrole de preços, o que se observou foi um País sem rumo. Jogou praticamente 14 milhões de brasileiros na fila em busca de emprego e pelo menos mais 10 milhões no subemprego.
De bola da vez, viramos motivo de chacota mundial. Uma verdadeira quadrilha se apoderou das principais estatais brasileiras, derrubando praticamente pela metade o valor de mercado destas empresas ligadas ao governo.
Modelo frágil, como colocado, joga para gerações futuras os erros ali cometidos. Pelo que observo nas propagandas partidárias, os provocadores do crescimento da pobreza brasileira colocarão a culpa no Cabral. Não no Sérgio Cabral, mas em Pedro Alvares Cabral. São verdadeiros caras de pau que não têm a menor parcimônia em transmitir à sociedade inverdades e venderem promessas cujo resultado prático está aí: economia debilitada.
No atual governo, a coisa seria pior se não houvesse uma equipe econômica focada em resultados. A queda da inflação foi uma grande conquista, com ela a queda dos juros e o que se observa é a gradativa retomada da confiança.
Em meio a denúncias de corrupção, Michel Temer, que tenta se sustentar no que de pior tem no jogo político, que é o toma lá dá cá, a maioria dos brasileiros que opera no lado real da economia quer condições para gerar riqueza e auxiliar na minimização da pobreza gerando emprego e renda.
Fica o alerta: cuidado com os discursos populistas, que tendem a levá-lo a ter uma visão limitada, de um recorte político que não pode ser visto como retrato, mas como um filme.
O que somos hoje é reflexo das decisões do passado. Se a pobreza cresceu é porque alguém falhou ali atrás. Com senso crítico poderemos mudar o rumo das coisas no Brasil.
Que venha logo 2018 e com ele uma discussão madura dos caminhos para sustentar o crescimento econômico brasileiro que promova, acima de tudo, igualdade social.
Se o Cabral tem alguma culpa, não é pelo recente aumento da pobreza, são outros atores que estão atolados até o pescoço de denúncias, mas que fazem caravanas como se não tivessem nenhuma responsabilidade sobre a queda dos indicadores sociais do País.
O autor é economista e articulista do JC.