08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Hitler comunista

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 4 min

Nos últimos dias, esta Tribuna do Leitor foi palco de um debate, fruto da chamada "pós-verdade" e do trabalho árduo de sites de desinformação, sobre o viés ideológico do nazismo - ou seja, se era ele um regime de direita ou de esquerda. Sugiro a leitura da biografia máxima do ditador nazista, escrita por Ian Kershaw. É um tijolo de 1.100 páginas, que não apenas disseca a vida de Hitler, desde a infância no interior da Áustria, como explica profundamente a situação social e política da Alemanha daqueles tempos.

Hitler nutria um ódio profundo pelos judeus e pelos comunistas. Atribuiu a ambos a culpa pela derrota na guerra e pela queda da monarquia. A primeira coisa que ele fez quando teve o poder nas mãos, antes mesmo de assumir o governo, foi mandar descer o sarrafo em todos os comunistas. Desesperado por causa da crise, o povo alemão apelou aos extremos nas urnas e nas ruas, durante as eleições de 1932. A sociedade se viu dividida em duas correntes radicais: comunistas, de esquerda, e nazistas, de direita - e não o contrário, como querem os nossos bolsonaristas. O nome nacional-socialismo era um chamariz, pois atraía aqueles que nutriam simpatia pelo socialismo, transformando-os em nacionalistas extremados. Enganava bem.

Antes disso, quando a Primeira Guerra terminou, Hitler tornara-se um palestrante de quartéis, incumbido pelos dirigentes do exército de tirar a ideia do comunismo e o apoio ao bolchevismo da cabeça dos soldados. Berlim havia sofrido um golpe comunista, logo após a dissolução da monarquia. Na Baviera, foi declarada a República Soviética da Baviera, de curto período, e Hitler agiu como um espião na derrubada dos comunistas, denunciando todos os seus simpatizantes.

Já no poder e "jogando para o povão", o ditador nazista dizia ser contra os grandes capitalistas, identificados como intimamente ligados ao capital judeu. Mas naquela época você não precisava ser comunista para ser contra o liberal-capitalismo financista; todo mundo era. Até nos EUA e na Inglaterra o liberalismo desapareceu, para dar lugar ao keynesianismo - o capitalismo com controle do Estado. Hitler apenas seguiu a tendência econômica de um mundo em crise capitalista, para firmar suas PPP's.

Na Alemanha nazista, os industriais e comerciantes tinham inúmeros motivos para sorrir. Tal qual uma Odebrecht, as grandes empresas germânicas lucraram sem dó, executando todas as obras que o governo nazista encomendava para mostrar ao mundo o "renascimento" do país. O próprio Hitler ficou riquíssimo com a venda de 45 milhões de cópias de seu livro, Mein Kampf, devidamente turbinada pela ação do Estado - todos os noivos ganhavam do governo um exemplar do livro quando se casavam, bem como aqueles que se formavam na faculdade.

Em seus pressupostos econômicos e no trato com a coisa pública, o nazismo parecia muito com o Brasil de hoje. A corrupção grassava como nunca e todos os ministros e altos funcionários públicos ficaram incrivelmente ricos. Ao contrário de um país comunista, onde se tenta vender a ideia da inexistência de classes sociais, na Alemanha nazista a divisão de classes era levada a ferro e fogo: "cada um no seu quadrado e todo mundo feliz". A ideologia do "organismo único", positivista e durkheiniana (capitalista, portanto), era uma perfeita alusão ao corpo humano azeitado e em funcionamento ideal. "Não fale em crise, trabalhe", funcionaria muito bem como slogan entre os alemães nazistas. Hitler também destruiu os sindicados trabalhistas, pois para ele não havia o interesse do trabalhador, e sim o funcionamento do país a todo vapor.

Para os outros chefes de governo e de estado, não havia dúvida nenhuma de que Hitler era de direita. Houve um certo alívio na Europa e nos EUA quando ele assumiu o poder em 1933, pois com a terrível crise capitalista em curso, pelo menos a Alemanha não viria a ser comunista enquanto o ditador estivesse reinando.

O trecho a seguir é um discurso de Adolf Hitler na chancelaria do Reich, em 30 de março de 1941: "-O comunismo é um perigo enorme para o nosso futuro. Devemos esquecer o conceito de camaradagem entre soldados. Um comunista não é nenhum camarada, antes ou depois da batalha. Esta é uma guerra de aniquilação. Se não entendermos isso, poderemos ainda assim bater o inimigo, mas trinta anos depois teremos de lutar de novo contra o inimigo comunista. Não travamos uma guerra para preservar o inimigo".

Palavras de um comunista?