11 de julho de 2026
Esportes

Artes Marciais: Muay thai de Bauru foi do vale tudo ao MMA

Bruno Freitas
| Tempo de leitura: 5 min

Fotos: Aceituno Jr.
Grão mestre João Emílio Gomes demonstrando tradicional joelhada voadora em Jefferson Rodrigues da Silva
Marcelo Rocha aplicando joelhada, com aluno Guilherme Marques

O JC traz a sétima reportagem da série Artes Marciais, que conta, aos domingos, como evoluíram as modalidades de luta em Bauru nos últimos anos. E o tema desta edição é o boxe tailandês, popularmente conhecido como muay thai, cuja origem, de acordo com pesquisadores, é datada de cerca de 2 mil anos. Dados históricos apontam que a luta surgiu do kung fu, mas sofreu mudanças e passou a ter o que é considerado hoje como os golpes mais poderosos do mundo, dentre as lutas em pé, como as cotoveladas, caneladas e joelhadas, preferidas dos nocauteadores do MMA. Diferentemente das modalidades abordadas nos capítulos anteriores, o muay thai bauruense visa a transição dos tatames para os octógonos por todo o País. A luta não usa faixa amarrada à cintura, mas sim uma corda colorida no braço, chamada de kruang.

O JC entrevistou dois especialistas de Bauru, João Emílio, grão mestre líder da Chute Boxe no Interior, e Marcelo Rocha, grau preta da equipe Strike Thai e professor em três academias de Bauru. Ambos concordam que na cidade são poucos os que se interessam pelos campeonatos paulistas e brasileiros, porque os eventos de MMA remuneram e proporcionam aos atletas a possibilidade sonhar com eventos milionários internacionais.

JOÃO EMÍLIO: A FERA!

Se tem uma unanimidade dentro do muay thai bauruense, esse alguém se chama João Emílio Gomes. Hoje, aos 50 anos, além de professor e ex-competidor, é também empresário e promove carreiras de lutadores de muay thai no cenário nacional, inclusive de norte-americano, como é o caso de Roney Wallace, que luta o Bellator. Aos 50 anos, ele é responsável, no Interior de São Paulo, pela Chute Boxe, famosa equipe curitibana, que ficou conhecida graças aos sucessos de Anderson Silva, Maurício Shogun, Wanderley Silva e Cristiane Cyborg, no UFC e extinto Pride.

"Conheci o muay thai na época de escola, em Curitiba (PR), em 1982, por intermédio de amigos que falavam sobre uma nova arte marcial que acabava de chegar à cidade. Foi então que conheci a academia Chute Boxe e o Grão mestre Rudimar Fedrigo, que junto com Luis Alves, do Rio, foram os pioneiros da modalidade no Brasil. E graças a eles o muay thai chegou a Bauru, na década de 90", recorda o curitibano, que passou a viver em Bauru, agora como professor e empreendedor, que administra as filiais de Piraju, Santa Cruz do Rio Pardo, Ourinhos, Jaboticabal e Taquarituba.

"Antes de eu vir para Bauru, os gêmeos bauruenses Juliano Juliani e Adriano Vilela foram a Piraju e passaram a fazer parte da equipe, como meus alunos, conquistando o grau preto de muay thai em 2006 e passando a oficializar a modalidade nas aulas em Bauru. Antes disso, alguns outros professores de outras lutas, por questões comerciais, ensinavam a luta, mas incorretamente", destaca João Emílio.

O grão mestre contou que antes de 2006, o muay thai era marginalizado e muitas pessoas vinculavam a luta à agressão física e brigas. João Emílio revela ainda que não existia sequer protetor bucal, caneleiras, aparadores de chute e as luvas eram muito pesadas e feitas crina de cavalo. Ele conta que nestes últimos 11 anos a luta em Bauru deu um salto enorme em qualidade. Os competidores perderam a estigmatizarão de brigões - assim como a reportagem revelou que ocorreu em outras modalidades - e os tatames bauruenses contam agora com mulheres, jovens de várias idades, inclusive crianças. "A maioria procura pela atividade física. São poucos os que querem seguir carreira como lutadores. Temos famílias inteiras treinando", ressalta.

João Emílio destacou que em Bauru existem muitos lutadores bons, citando Jefferson Silva e Andrine Dalla, ambos campeões do Epic Muay Thai, o maior torneio de muay thai tradicional do País, que buscam vaga no Mundial da Tailândia. E no feminino, o grão mestre citou que a única professora nível preta da cidade é Rosangela Gomes, que integra sua equipe.

MARCELO ROCHA: VALE TUDO AO MMA

Um leitor desatento poderia até confundir muay thai com MMA, antigamente chamado de "Vale Tudo". E essa confusão, para os leigos, pode ser causada porque a muay thai é a principal luta em pé utilizada para os combates de lutas mistas, incluindo, claro, lutas de solo. O professor de nível preta, Marcelo Rocha, bauruense do Núcleo Mary Dota, começou a treinar na academia precursora de lutas mistas em Bauru, a academia Clube da Luta, que era localizada no cruzamento da rua Treze de Maio com a avenida Duque de Caxias. "Comecei no kung fu, mas a febre do vale tudo me levou ao muay thai, em 1998, na Clube da Luta. Anos depois, tornei-me grau preta oficial e passei a dar aula desde então. Hoje, sou professor em três academias, a Speed Fitness do Vista Alegre, no Sindicato dos Metalúrgicos, no Centro, e na Academia Companhia Atlética, na quadra 31 da Castelo Branco", comenta. Marcelo Rocha diz que sua vida é dedicada ao muay thai, mas que ele dá aulas à noite, porque durante o dia trabalha em uma empresa do segmento de segurança.

Marcelo Rocha relata que já lutou na época do "vale tudo" em Bauru e que, entre os lutadores, era normal o confronto de academias. "Quando eu competia havia mais vale tudo, sem regras. E a gente fazia lutas misturando estilos. Não havia competições específicas de muay thai. Hoje é diferente. O esporte e a tecnologia trouxeram mudanças e o profissionalismo. Em Bauru, o crescimento de eventos de MMA tem sido notório, com bom público e respaldo de segurança médica aos lutadores", enfatiza Rocha.

O professor disse ainda que o muay thai hoje é muito mais esportivo e tem espaço para todo mundo que quer trabalhar sério, treinar, aprender a se defender, ter uma qualidade de vida melhor e emagrecer. Segundo ele, para o muay thai se desenvolver mais, precisa de eventos específicos. Ele destacou os bauruenses Guilherme Marques e Fernando Vasconcelos. A reportagem apurou ainda que outros bons lutadores de Bauru são Kaynan "Bahia" Kruschewsky e João Paulo "Bomba", ambos da Thai School.

Sobre projetos sociais no muay thai, João Emílio diz que tem aulas gratuitas para crianças carentes em todas as cidades onde leva a Chute Boxe. Para 2018, ele conta com a Semel para abrir espaço para um projeto social em Bauru também.

SERVIÇO

João Emílio – Chute Boxe Bauru, rua Agenor Meira 15-15, Centro. Tel.: 99767-7613.

Marcelo Rocha – Strike Thai, avenida Castelo Branco, Vila Ipiranga. Tel.: 99810-9753.