08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Memória Memorável

Aguinaldo de Souza
| Tempo de leitura: 3 min

A sexta edição do Face - Festival de Artes Cênicas de Bauru - optou por tematizar sua mostra de espetáculos. Este foi o ano de trazer à cena a questão da Memória e, neste sentido, foram selecionados espetáculos específicos, que vieram apresentar nuances e desdobramentos desta temática. O formato pensado pelo grupo Protótipo Tópico, desde a criação do festival, privilegia o encontro de artistas com os espaços da cidade e com a plateia. Neste ano, a parceria com dois pensamentos universitários (Tusp e Unesp) vieram agregar não só espetáculos específicos, mas também um diálogo no campo da produção artística - esta área tão misteriosa para plateia, e às vezes, para os próprios artistas, mas que dá a sustentação a toda e qualquer manifestação ou evento.

Por duas intensas semanas, a questão da memória foi abordada e discutida, pricipalmente, em bate-papos mediados com os artistas, mas também nos encontros informais, naquela convivência diária e coletiva que dá sabor à vida. O documento histórico e a lembrança pessoal são recursos para a experimentação estética e para o posicionamento político. Numa lembrança específica de uma situação de opressão - o que pode até lembrar Augusto Boal - temos a chance de reviver um problema ético ou social e, a partir daí, evoluir para uma constução de cena; uma memória íntima e pessoal quando atravessa a zona do privado e aparece no mundo público pode se transformar numa declaração humana universal: um depoimento pessoal, a partir da memória, pode instaurar um território para que todos os presentes exercitem a lembrança e a atualização da mesma. Assim foi e tem sido nesta edição do FACE.

O status teatral foi ricamente exposto, contemplando uma diversidade de formas, estilos e linguagens, interligados pelo tema central. A abertura com o espetáculo Serestando (Grupo LUME/Campinas) foi um abre-alas íntimo e poderoso, dando o tom que seria assistido pelos dias seguintes. Até que - deu-se o desmastreio!, diria Guimarães Rosa - instalou-se o espaço de ABSMADOS, que , ao tentar se posicionar em relação à memória, tanto do inacabado (e futuro) espaço do MIS (Museu da Imagem e do Som) quanto das lembranças dos intérpretes, foi novidade, contruiu memória e se tornou memorável. Com o subtítulo "em sei lá o quê", o espetáculo abriu-se ao novo como uma fenda da memória passada, com força para projetar futuros. A ideia é de uma urgência de presente e de uma sede de futuro, provando que valorizar o passado é dialogar e não se aprisionar a ele.

A construção artesanal e tecnológica ao mesmo tempo e as cenas variando do teatro à performance, com a liberdade de a plateia assistir ao quadro que quisesse, pode até não ser inédita no mundo das artes, mas continua sendo um grito de liberdade quanto a formas e fórmulas do teatro. O bom e velho teatro que pode às vezes se refazer e renascer, mas que tem que lutar sempre para não ser mais do mesmo.

Fica desta edição o contraste entre a criação e a repetição, uma pedagogia política, uma produção atenta e batalhadora; e, principalmente, as tentativas válidas de manter a memória saudável da vida e da arte. Fica a crença de que a arte está resistindo, fica o desejo de que tudo isso nunca acabe frente às ameaças tão assumidas que temos vivido. Fica a fé no valor das amizades que se perpetuam, e nas que se originam agora; fica a confiança naquelas relações que se renovam e naquelas que se desgastam. De fato, no encontro que nesta cidade se realizou nos últimos dias, muita Fênix foi renascida, todos sabem de onde.

Sucesso aos grupos, vida longa ao festival.