08 de julho de 2026
Articulistas

Aos jovens

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

No espaço de uma geração, apesar do progresso econômico e do avanço tecnológico, aumentaram o alcoolismo, o consumo de drogas, a imoralidade, a depressão e as tentativas de suicídio entre os jovens. Quando o mundo se transforma mais depressa do as respostas mentais e emocionais dos jovens, esse mundo torna-se para eles confuso e ameaçador. O consumismo da sociedade, a omissão ou a liberdade excessiva que os pais deram a seus filhos para escolher quase tudo: o que fazer, aonde ir e com quem, dissolveram as coisas que antes davam continuidade e dignidade à vida.

Os jovens precisam aprender que a vida não é linear. Assim como as batidas do coração não são estáveis, a vida também não é. O equilíbrio está na flexibilidade e na compreensão dos acontecimentos para que esses jovens possam estar íntegros tanto no ponto mais alto como no ponto mais baixo, tanto na expansão como na contração. A expansão e a contração fazem parte da vida e ninguém pode viver só na expansão ou só na contração.

Os jovens precisam aprender a respeitar a euforia e a introspecção; o movimento e a parada; a fartura e a escassez; a alegria e a tristeza, o direito e o dever. Mas, infelizmente, nossa sociedade e os pais de hoje fazem tudo para negar-lhes a contração, criando artifícios para estarem sempre em uma aparente expansão por meio de uma rápida sucessão de desejos artificialmente induzidos e temporariamente satisfeitos. Esses jovens não conseguem tirar proveito daquilo que se lhes apresenta no momento. Um dia de chuva é um tempo feio, mas um convite para o prazer do auto acolhimento. Um período de restrição financeira é uma possibilidade de reavaliação ou até mesmo de contemplação do que já foi construído.

Por conta disso, a sociedade deixa de ser uma casa e se transforma em um motel dos mais vagabundos e o jovem chega à conclusão que não deve nada a ninguém, nem ninguém deve nada a ele. Virtudes como a modéstia, humildade, discrição e comedimento viraram objetos poeirentos em exibição num museu de curiosidades culturais. Palavras como "dever", "obrigação", "juízo", "sabedoria", "futuro", têm uma carga negativa e nenhum sentido. Vale o presente, vale o prazer temporário do corpo que gera um ciclo de insatisfação e frustração. O jovem parece desconhecer o prazer real, aquele prazer que nutre a alma.

Por sua vez, o Estado, corrupto e perdulário, comete o grande crime da escravidão contra a dignidade humana ao roubar o futuro desses jovens, ao privá-los da posse da riqueza que um dia poderiam produzir para si e para o País.

Os jovens precisam aprender que estão aqui para evoluir, então tudo aquilo que lhes acontece serve a esse propósito. Nada existe ou se faz que não cumpra um propósito, ainda que na maioria das vezes não tenham consciência disso. Desde um telefonema, um restaurante que escolhem para almoçar, o lugar em que estacionam o carro, até os maiores acontecimentos da vida deles, tudo serve a um propósito.

Os jovens precisam aprender que a vida traz diariamente a oportunidade de transformação, basta estarem perceptivos a isso. Eles precisam reconhecer que cada um tem sua vocação, seu lugar e suas próprias tarefas que somente eles podem realizar. A competição acontece, mas cada um tem exatamente o que precisa para realizar-se na vida. O que cada um tem, faz ou é, é único e a única intenção legítima que um pai ou uma mãe pode ter sobre um filho é que ele seja quem ele é. Afinal, essa é a única possibilidade de que ele seja realmente feliz.

O autor é professor titular aposentado do Depto. de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp Bauru.