O linchamento moral a que se submete o jornalista William Waack demonstra, mais uma vez, o poder desmedido das redes sociais no papel de deus vingador dos profanadores dos novos valores morais. A rede revive o deus Moloch (1.900 a.C.), com uma fogueira no ventre, onde são atirados todos os acusados de heresia contra símbolos eleitos como politicamente corretos. Poderão ser submetidos a esse tipo de execração todos aqueles que ousarem um dia brincar, ainda que em ambiente confinado, com mulher, velho, gordo, preto, vermelho, branco, magro, baixinho, alto demais, pobre, burro, gago, vesgo, careca, japonês, turco, argentino, deficiente físico, virgem, favelado, rico cafona, sem bunda (imperdoável, no Brasil), gay, católico, espírita... e por aí vai. Significa que todos, mesmo os santos beatificados, poderão ser submetidos a esse tipo de julgamento pela besteira que um dia disseram. De perto, ninguém é normal, dizia Caetano. Nelson Rodrigues alertava: "O dia em que as pessoas souberem o que se faz - e o que se diz - entre quatro paredes, ninguém mais olha na cara do outro". Parece que esse dia chegou.
Racista ou não, William Waack foi imprudente. Como jornalista experiente sabe que, estabelecido o link, mesmo que a imagem e o som ainda não estejam nos monitores de milhões de lares, o satélite já espalha a cena para o mundo. Em privado falamos coisas terríveis. A rede tem olhos, orelhas, nariz e boca grandes. O sábio Millôr Fernandes chegou a dizer que "Tarado é um homem igual aos outros, só que pego em flagrante". Hoje, nem o flagrante é preciso. Basta denunciar na rede por assédios sexuais sofridos lá atrás, no tempo. O acusado fica numa posição indefensável. Melhor mesmo é reconhecer o erro, pedir desculpas e sair de fininho, diante da forte evidência. Discutir com a rede é tarefa impossível.
No caso de Waack, a lamentar que uma carreira brilhante, com mais de 40 anos, sem muito o que corrigir, possa terminar assim, de uma maneira tão inglória. O preço é alto e não há como pedir desconto. Mas, não me venham dizer que a Rede Globo, ao afastar Waack, esteja combatendo o racismo. O próprio diretor geral de jornalismo da Globo, Ali Kamel, escreveu um livro publicado em 2006 com o título "Não somos racistas", que ao analisar as relações sociais no Brasil parece ignorar os mais de trezentos anos de convivência dos nacionais com a escravidão. Para Ali Kamel, o racismo não teria um peso cultural na sociedade brasileira. A política racial "dividiria o país entre brancos e negros". Naquela ocasião, avaliou que as cotas raciais iriam iniciar uma política de segregação racial no país. Como chefe, deve ter contaminado o ambiente no jornalismo da Globo. O âncora Alexandre Garcia teve a desfaçatez de dizer que "O Brasil não tinha um ambiente racista, até criarem a política de cotas".
A dramaturgia da Globo derruba, de vez, o mito da Democracia Racial no Brasil. A atriz Solange Couto interpretou 37 papéis, 25 deles como empregada doméstica, faxineira e escrava. Esse estereótipo de subalternidade só pode ser explicado pela sua condição de mulher negra.
Na ficção de suas novelas, a Globo tem lidado com temas como homofobia e intolerância religiosa, mas ninguém se lembrou ainda de criar uma personagem negra, universitária, construindo um futuro diferente dos pais favelados, porque lhe deram um instrumento para competir com a elite branca, em condições menos desiguais. Na atual novela "O Outro Lado do Paraíso", a dondoca Nádia insurge-se contra o namoro do filho com a empregada negra Raquel. "Já pensou ter um filho preto? Troco no berçário". É claro que, na sequência, o autor da trama, Walcyr Carrasco, vai colocar tudo em termos politicamente corretos, com a vilã pagando o preço pela bobagem que disse. Ainda mais agora, com a repercussão do caso Waack. O antropólogo francês René Girard, falecido em 2015, investigou a carência dos bodes expiatórios na sociedade.
Quando aparece um, a sanha persecutória responde forte, pela falta de candidatos que possam polarizar o ódio de muitos. Temos que fazer as coisas certas antes de exigir que os outros o façam. Quem quer que atente contra valores sagados será julgado e condenado, sem piedade.
Os profanadores do templo do racialismo, aqueles que fazem troça do feminismo ou defendem teorias de gênero, serão perseguidos, em qualquer lugar, em toda situação.
Mortos a pauladas, como ratazanas prenhes - como vaticinava o velho Nelson, ele mesmo acusado de machista e homofóbico. Mexeu comigo, mexeu com todos.
O autor é jornalista e articulista do JC.