09 de julho de 2026
Articulistas

Para onde se dirige o trabalho humano?

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 4 min

No aeroporto de Congonhas crachás conversam com crachás e movimentam pessoas e veículos nas operações de embarque e desembarque. É a internet das coisas. Em Lisboa aconteceu a Web Summit, o maior evento anual de tecnologia e tendências digitais, com o tema centrado na tecnologia da internet. Foram 21 conferências e entre os palestrantes famosos, dois oradores muito especiais, a Sophia e o Professor Einstein, dois robôs desenvolvidos pela Hanson Robotics, que estiveram no palco discutindo temas da atualidade. Matéria da Folha de 05/11, feita pelo pesquisador físico Ivan dos Santos Oliveira Jr. diz que os computadores quânticos estão chegando e, ao que "tudo indica, será capaz de resolver em segundos problemas que levariam até bilhões de anos (sim, bilhões) para o mais potente dos supercomputadores atuais".

Essa introdução é apenas para chamar a atenção para mais uma das grandes preocupações da humanidade, desde que o homem deixou de ser coletor/caçador, para conseguir o seu sustento através do trabalho - o desemprego tecnológico. Com o domínio da agricultura e da criação de animais formaram-se os povoados, que depois se transformaram em vilas e cidades. Nessa nova condição aumentaram as suas necessidades - além da alimentação, vestuário, casa, ferramentas e máquinas. E assim surgiram os ofícios - sapateiro, ferreiro, carpinteiro, tecelão etc. Esses ofícios exigiam um aprendizado que transformava o aprendiz em artesão. Com isso, enquanto uma parte da população se ocupava da produção de alimentos, outra se ocupava da produção artesanal de coisas e todos tinham com o que se sustentar.

A atividade artesanal foi desenvolvendo um conhecimento empírico das ciências e criando técnicas apropriadas, que vieram a ser o que hoje se chama tecnologia. Na metade do século 18 a ciência já permitia combinar conhecimento com técnica para a produção de máquinas que substituíam o esforço humano e permitiam produzir mais que o artesanato. Com elas surgiram as fábricas que tiraram o trabalho dos artesãos.

Foi a primeira Revolução Industrial e o primeiro desemprego em massa. Mas a invenção da máquina a vapor compensou com a criação de trabalho na construção de ferrovias, trens, navios a vapor, nas minas de carvão e nas fábricas.

No final do século 19 o conhecimento da eletricidade e a invenção do motor de combustão interna produziram a segunda Revolução Industrial. Houve uma combinação de tecnologia com divisão do trabalho, capitaneada pela Ford, com sua linha de montagem, que gerou muito emprego, mas de categoria inferior, com a fragmentação dos ofícios, bem retratada no filme Tempos Modernos, de Chaplin. Nesse período as ciências avançaram, a eletrônica aumentou o campo da eletricidade e surgiu o computador. O espírito inovador desenvolveu a automatização, que passou a chamar-se automação, trazendo nova ameaça de desemprego em massa. Não houve, entretanto, a catástrofe imaginada, porque o crescimento da população mundial urbana aumentou e diversificou as necessidades, criando novas ocupações.

Para usar uma metáfora, a computação nas nuvens está escurecendo o céu dos empregados. O bicho papão é a Inteligência Artificial. As máquinas viraram aprendizes de ofícios - 'machine learning', máquinas que estão aprendendo comportamentos exclusivos da mente humana. Não se contentaram em substituir o esforço muscular e querem ter cérebro também. E enquanto muitos se divertem com robôs que falam, cumprimentam, dão informações, eles, em suas mais diversas formas, vão ceifando empregos. As ocupações que a automação cortou na indústria foram supridas pelas que foram criadas no comércio e nos serviços. Mas os empregos que agora estão sendo cortados pelo e-comerce e a infinidade de aplicativos no setor de serviços, terão dificuldade de encontrar substitutos.

E para onde se dirige o trabalho humano? O sociólogo francês Georges Friedmann, estudioso da evolução do trabalho, respondeu na apresentação da 3ª edição de seu livro: "para a ruína". E aqui no Brasil, com a indefinição sobre o destino da educação e da pesquisa científica? Com iniciativas isoladas de universidades e alguns centros autônomos de pesquisa e com educação básica deficiente, certamente ficaremos fora do cenário científico-tecnológico.

O Senai, com seus Institutos de Tecnologia é uma ilha na preocupação com o futuro do trabalho. Já está se planejando para a 4ª Revolução Industrial, preparando seus alunos em futuras ocupações, como mostrou sua participação no torneio mundial de profissões, o WorldSkills, realizado em Abu Dhabi no mês passado. Representando o Brasil, seus alunos foram os melhores do mundo em novas ocupações como mecatrônica, polimecânica, automação e manufatura integrada. Mas ainda é pouco para nossas aspirações, que não morreram.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.