09 de julho de 2026
Geral

Há uma década nascimentos não aumentam em Bauru, diz estudo

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

Aceituno Jr.
Rafael e Letícia da Silva: casados há quatro anos, eles contam ter vida completa mesmo sem filhos

Casados há quatro anos, o jornalista Rafael Rodrigues da Silva, 30 anos, e a escriturária Letícia Duarte da Silva, 26 anos, tomaram uma decisão importante na vida conjugal: não terão filhos. A falta de tempo e de recursos financeiros suficientes para cuidar de uma criança como gostariam pesou na hora de analisar prós e contras e, hoje, a ausência de um pequeno correndo dentro de casa é algo que não gera qualquer tipo de aflição.

Rafael e Letícia são o retrato de uma nova configuração familiar no País, em que casais decidem ter cada vez menos filhos - ou, às vezes, até mesmo nenhum. É o que demonstram as mais recentes Estatísticas do Registro Civil, divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo o estudo, o número de nascimentos por ano oscilou de 4,3 mil a 5 mil entre 2006 e 2016 em Bauru, com pequenas variações para mais ou para menos. No ano passado, foram registrados 4.766 novos bebês na cidade, 5,7% a menos do que em 2015, correspondendo à primeira queda desde 2009. A estagnação ao longo da última década é a consolidação de uma das modificações estruturais mais importantes no perfil demográfico brasileiro, também verificada no município. Trata-se de uma transformação, historicamente, ainda muito recente, já que, há 50 anos, as mulheres tinham o triplo de filhos do que têm hoje (veja quadro abaixo).

Iniciadas, de forma tímida, a partir dos anos 1940, essas mudanças se acentuaram após a década de 1960, com declínio expressivo nos níveis de fecundidade, redução na taxa de crescimento populacional e alterações na pirâmide etária, resultando no incremento mais lento do número de crianças e adolescentes paralelamente ao aumento contínuo da população em idade ativa e de idosos.

Aceituno Jr.
Pasquarelli: transformação também veio com a urbanização

"Foi uma mudança iniciada com a aceleração do processo de urbanização, já que o trabalho no campo demandava mão de obra dos membros de uma família grande. Com a industrialização, esta realidade mudou", pontua Bruno Pasquarelli, professor doutor em sociologia na Universidade do Sagrado Coração (USC).

SAÚDE E EDUCAÇÃO

A partir de então, a melhoria das condições sanitárias, o surgimento da pílula anticoncepcional e o maior acesso à saúde garantido pela Constituição Federal de 1988, que proporcionou a criação de leis específicas, como a que trata do planejamento familiar, contribuíram para intensificar a redução do número de filhos por mulher - a chamada taxa de fecundidade. "Houve, também, um maior acesso à educação formal. Com tudo isso, a noção de quais são as necessidades básicas de consumo para criar bem um filho foram mudando ao longo do tempo. Hoje, é um projeto caro para boa parte das famílias", observa.

Em um cenário em que os movimentos sociais ganharam destaque, o tempo disponível para se dedicar às crianças também começou a pesar, já que as mulheres ingressaram no mercado de trabalho, almejando realização e crescimento profissional. "Ao se verem diante de novas prioridades, elas passaram a retardar a primeira gravidez e a ter cada vez menos filhos", completa.

Queda acentuada em 2016

Na última década, a queda da taxa de fecundidade em Bauru foi mais acentuada em 2016, acompanhando um fenômeno de âmbito nacional. Segundo o IBGE, analistas de demografia afirmam que a redução pode estar associada à crise econômica do País, com a consequente elevação dos níveis de desemprego, e ao zika vírus, doença cujos primeiros casos foram registrados em abril de 2015.

Em 2016, o Brasil registrou 2.793.935 nascimentos, queda de 5,1% na comparação com 2015. Em Bauru, o índice foi de 5,7%. No estado de Pernambuco, por exemplo, onde o zika alcançou índices epidêmicos, a queda de nascimentos foi ainda mais acentuada, na ordem de 11%.

"No território nacional, foram 150 mil nascimentos a menos, o que corresponde a uma população maior do que a maioria dos municípios brasileiros. Foi uma retração superior ao esperado, cujo índice fica em torno de 1% a 2% de um ano para outro, o que nos leva a crer que muitos casais adiaram os planos de ter filhos pelo temor ou incerteza diante destes dois fatores", explica Klízia Oliveira, gerente do registro civil do IBGE.

Casais sem filhos: uma realidade consolidada

Se em um passado recente os casais que decidiam não ter filhos eram raros e os poucos que se “atreviam” eram alvo de uma enxurrada de questionamentos, hoje essa decisão já está se tornando algo comum e cada vez mais frequente. Rafael e Letícia da Silva, por exemplo, contam que a resolução por não ter filhos nunca foi uma dúvida, ainda que ambos gostem muito de crianças.

“Temos sobrinhos, afilhados que visitamos sempre, levamos para passear, mas isso é suficiente”, explica Rafael. Ele alega que, para a decisão, pesaram a falta de tempo e de renda suficiente para cuidar de uma criança da maneira como o casal considera ideal.

“Ter um filho demandaria muito sacrifício financeiro e de tempo, já que os dois trabalham. E deixar a criança a maior parte do dia com avós ou em uma creche, definitivamente, não é o que gostaríamos de fazer”, argumenta.

O tempo tomado pelo investimento nas carreiras também motivou o casal de empresários Gisele Cristina Mendes, 47 anos, e Marcos Semensato, 53 anos, a não ter filhos. Juntos há 21 anos, eles tiveram a conversa definitiva quando Gisele estava com 33 anos.

“Era o momento do agora ou nunca e muitos temores nos levaram à decisão: medo de, em um mundo tão violento, perder alguém que a gente amaria muito, medo de não conseguir educá-lo como desejaríamos, medo de não ter tempo mais para a gente e a relação mudar”, enumera Gisele.

Passados 14 anos, eles ainda entendem que a atitude foi a mais acertada, até porque ambos ainda têm uma rotina de trabalho bastante movimentada, inclusive no período noturno. “Preferimos não cumprir uma convenção social para atender às expectativas dos outros. Pensamos muito no longo prazo e não hesitamos em qualquer momento”, completa.

Você sabia?

Em um futuro não muito distante, a exemplo do que já ocorre em países mais antigos, como os europeus, o Brasil deverá começar a encolher. Segundo projeção do IBGE, este fenômeno - chamado tecnicamente de crescimento negativo - deverá ser verificado a partir de 2044, quando o País chegar ao limite de 228,3 milhões de habitantes. A estimativa de 2017 contabiliza, até agora, quase 207,7 milhões de brasileiros.

Casais sem filhos: uma realidade consolidada

Se em um passado recente os casais que decidiam não ter filhos eram raros e os poucos que se "atreviam" eram alvo de uma enxurrada de questionamentos, hoje essa decisão já está se tornando algo comum e cada vez mais frequente. Rafael e Letícia da Silva, por exemplo, contam que a resolução por não ter filhos nunca foi uma dúvida, ainda que ambos gostem muito de crianças. "Temos sobrinhos, afilhados que visitamos sempre, levamos para passear, mas isso é suficiente", explica Rafael. Ele alega que, para a decisão, pesaram a falta de tempo e de renda suficiente para cuidar de uma criança da maneira como o casal considera ideal.

"Ter um filho demandaria muito sacrifício financeiro e de tempo, já que os dois trabalham. E deixar a criança a maior parte do dia com avós ou em uma creche, definitivamente, não é o que gostaríamos de fazer", argumenta.

O tempo tomado pelo investimento nas carreiras também motivou o casal de empresários Gisele Cristina Mendes, 47 anos, e Marcos Semensato, 53 anos, a não ter filhos. Juntos há 21 anos, eles tiveram a conversa definitiva quando Gisele estava com 33 anos.

"Era o momento do agora desejaríamos, medo de não ter tempo mais para a gente e a relação mudar", enumera Gisele.

Passados 14 anos, eles ainda entendem que a atitude foi a mais acertada, até porque ambos ainda têm uma rotina de trabalho bastante movimentada, inclusive no período noturno. "Preferimos não cumprir uma convenção social para atender às expectativas dos outros. Pensamos muito no longo prazo e não hesitamos em qualquer momento", completa.

Números

Ano Nascimentos*

2006 4.494

2007 4.434

2008 4.470

2009 4.302

2010 4.440

2011 4.690

2012 4.774

2013 4.847

2014 4.933

2015 5.053

2016 4.766

Fonte: IBGE / * Em Bauru