Estamos vivenciando uma fase de dedicação à Consciência Negra. Nos livros 1808 e 1889, de Laurentino Gomes, e no romance Os tambores de São Luís, de Josué Montello, são mencionadas as sagas dos escravos oriundos do continente africano. Também o livro sagrado do cristianismo descreve muitas batalhas em que os perdedores eram escravizados pelos seus vencedores.
Numa postagem recente pelo WhatsApp, há um gráfico que revela que em 11 gerações, nesses últimos 300 anos, cada um de nós é o fruto de 4.094 pessoas que nos antecederam, desde nossos pais até nossos decavós. Meu querido e falecido pai contava que seu avô, imigrante italiano, juntou alguns membros da família e, fugindo das dificuldades de emprego, deslocamentos frequentes para outros países europeus devido ao frio, condições financeiras muito limitadas, falava quatro idiomas, migrou para o Brasil. E sua primeira parada foi na Argentina, onde foram alojados no subsolo da casa do grande senhor juntamente com os animais, dividindo inclusive o coxo onde recebiam sua alimentação diária.
Conseguiu transferir-se para o Brasil, morando e trabalhando numa fazenda de plantação de café, onde o proprietário tinha também um armazém onde os empregados eram obrigados a ali comprarem suas necessidades a preços extorsivos, de forma que ao final do mês, o que restava de salário era pouco. Milhares de imigrantes, principalmente espanhóis, portugueses e italianos, aportaram no Brasil cheios de esperança de uma vida melhor.
Agora, em tentativa de reforma, a Consolidação das Leis do Trabalho, promulgada nos anos 40, tinha como fulcro legalizar as relações entre trabalhadores e patrões. No século 17, o filósofo Thomas Hobbes popularizou a frase "O homem é o lobo do homem". Em 2107, a escravidão e os escravizadores ainda estão presentes, nas diversas esferas sociais. Pais que utilizam seus filhos para angariarem dinheiro nos semáforos. Divulgação de notícias diárias de trabalho escravo por esse imenso Brasil.
Na pequena rua em que meus pais moravam em São Paulo, algumas casas funcionavam como fábricas de roupas, dirigidas por imigrantes que empregavam seus compatriotas e os exploravam em nome da empregabilidade e proteção à ilegalidade de suas presenças. E a escravidão a que são submetidas as prostitutas em troca de ao menos um prato de comida? E nas penitenciárias, onde os líderes fazem uso dessa prerrogativa?
Na política, vemos a nítida escravidão pela troca de parcas benesses pelo voto nas eleições. Por isso, acho que deveria ser o "Dia das Consciência" de uma forma geral e reflexiva para todas as formas de escravidão ainda presentes e que nos dediquemos 365 dias de reflexões e atitudes sobre esse tema, não apenas em mais uma data dentro do calendário. Como estamos entregando esse mundo aos nossos filhos e netos? Relembro as palavras bíblicas de Cristo: "Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância".