09 de julho de 2026
Geral

Rótulo imposto a Maria Madalena esconde um preconceito milenar

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 4 min

Fotos: Malavolta Jr.
Camila Gonsales, Terezinha Santarosa Zanlochi e Sergio Henrique Ibelli Filho integram o projeto de iniciação científica chamado “Maria Madalena: entre o sagrado e o profano”
Mapa da região da Galileia, com destaque para a cidade de Magdala
Sítio arqueológico de Magdala, em Israel; a cidade inspirou a escolha do sobrenome de Maria Madalena

Há milênios, Maria Madalena é conhecida como a prostituta que Jesus Cristo salvou. Porém, a professora doutora em história social, com foco na mulher na Igreja Católica, Terezinha Santarosa Zanlochi, alega que o rótulo imposto à personagem bíblica esconde um preconceito milenar contra a mulher, difícil de se esquecer.

Essa foi a conclusão do projeto de iniciação científica "Maria Madalena: entre o sagrado e o profano", desenvolvido pela aluna do 2.º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Professora Ada Cariani Avalone Gabriela Seno de Souza e pelos estudantes do 3.º ano de História da Universidade do Sagrado Coração (USC) Camila Gonsales, Julia Campos Fernandes, Vinícius Sales Barbosa e Sergio Henrique Ibelli Filho, sob a orientação da professora Terezinha.

Segundo ela, uma arca com 52 documentos do século 2 foi descoberta em Nag Hammadi, que é uma aldeia egípcia, em 1947. Na ocasião, também foram encontrados documentos relativos ao Evangelho de Maria de Magdala, a Maria Madalena.

Tais papéis mostraram que a personagem bíblica era filha de um exportador de peixes salgados. "Logo, ela não era prostituta, mas uma mulher bem de vida - inclusive, financiava a missão de Jesus Cristo", complementa a professora.

Porém, Terezinha acredita que a maior revelação desse achado tenha sido a de que Maria Madalena foi rotulada como prostituta pelo papa Gregório I, na Basílica de São Clemente, em Roma, no dia 21 de setembro de 591.

Na ocasião, a professora relata que o religioso confundiu as Marias. "O papa disse que aquela mulher que lavou os pés de Jesus e os enxugou com os cabelos era Madalena. Já aquela da 'primeira pedra' também era Madalena. E que a irmã de Lázaro, ressuscitado por Cristo, era Madalena. Não era. Cada uma dessas três mulheres era uma Maria diferente", argumenta.

Terezinha informa que em em 1969 a Igreja Católica proibiu que cantassem o Cântico dos Cânticos - uma canção na qual os esposos declaram o seu amor de forma sensual - no Dia de Maria Madalena, celebrado em 22 de julho. "Exigiu, ainda, que os fiéis deveriam se referir a Maria Madalena como aquela que recebeu, de Jesus Cristo, a missão de evangelizar", acrescenta.

Para a professora, a religião cristã tornou-se universal através de Roma, cuja sociedade era misógina e patriarcal. "O papa a desprestigiou. Portanto, a história registra lendas que culpabilizam e demonizam a mulher", avalia.

A PESQUISA

O grupo de alunos, coordenado pela professora Terezinha, desenvolveu um projeto sobre o fato de Maria Madalena ter sofrido bullying por 1,4 mil anos. "Resolvemos adequar a nossa pesquisa à questão do bullying e do trato com a mulher dentro das escolas", completa a orientadora.

Em 2016, a história envolvendo a descoberta dos novos documentos foi contada aos alunos do 1.º ano do Ensino Médio da Escola Estadual Professora Ada Cariani Avalone. Neste ano, o grupo aplicou uma pesquisa de campo a 25 estudantes, que já estão no 2.º ano do mesmo colégio.

E a primeira pergunta do questionário foi sobre a vida de Maria Madalena. Do total, 80% dos alunos continuou respondendo que a personagem bíblica foi prostituta. "Depois de tudo o que foi dito, 80% da sala conservou o imaginário de que Maria Madalena foi prostituta. Paulo Freire costumava dizer que, para mudar uma ideia perante a sociedade, precisaríamos de 70 anos", analisa Terezinha.

Ainda segundo ela, é necessário ter muito cuidado ao rotular alguém, porque a pecha pode ultrapassar milênios, principalmente, quando diz respeito à mulher, ainda vítima de misoginia e machismo.

A pesquisa será apresentada no Encontro de Iniciação Científica da USC, em novembro, e no Encontro de História da USC, no mês seguinte. Em 2018, o grupo planeja levar o trabalho ao Encontro Nacional de História.

Não surpreende

Jornalista e ativista da causa feminista, Thamires Motta não se surpreendeu com o resultado da pesquisa orientada pela professora Terezinha Santarosa Zanlochi, “porque o machismo e a visão conservadora da mulher é uma ideologia propagada há milhares de anos e acabou sendo reforçada pelo cristianismo”. Por outro lado, Thamires afirma que não é de hoje que as mulheres lutam para reverter o cenário e tal atitude vem ganhando espaço na mídia. Segundo a ativista, elas estão no caminho certo. “Só a comunicação, a educação e a política vão conseguir alterar essa ideologia”, conclui.

Tradição e machismo

Antropólogo e professor da Unesp em Bauru, Cláudio Bertolli Filho argumenta que a perpetuação do rótulo de Maria Madalena se deu graças ao peso da tradição e à perversão masculina em relação ao gênero feminino. Segundo ele, a organização cultural do Ocidente ocorreu, basicamente, durante a Idade Média, quando a Igreja Católica era a maior instituição organizada de toda a Europa. É difícil reverter tal tradição. Bertolli discorre, ainda, sobre o machismo, também cultuado pela mídia. "Usar o termo 'prostituta' ou qualquer outro rótulo semelhante é uma maneira de o homem se sobrepor à mulher. Ele a coloca à margem, em estado de inferioridade", defende.

O antropólogo acredita que a solução esteja no diálogo, principalmente, junto a pessoas diferentes entre si. "Nós temos de fugir do nosso castelo e conviver, intimamente, com as diferenças. O homem é racional, sendo assim, tem instrumentos para conhecer e reproduzir o bem", finaliza.