Se o Brasil fosse um país revolucionário, emancipado, ou no mínimo politizado, todo brasileiro teria faltado ao trabalho no dia 29 de novembro. Qualquer cidadão poderia, legitimamente, alegar que ficou a noite inteira vomitando por causa da propaganda do PMDB em defesa da gestão Temer, que foi exibida na TV na noite anterior ao dia 29. A essas alturas do campeonato, eles deveriam saber que o povo não acredita mais nesse tipo de desculpa. Nem o nosso povo.
Em outros países não tão emancipados, mas com um povo que tem sangue nos olhos - como por exemplo a Romênia ou a Albânia -, depois de tudo o que foi revelado nos últimos tempos, Temer já teria sido linchado pela população, ou executado pelo exército.
Em nações como o Iraque, o Afeganistão e o Líbano, geralmente uma figura como Temer tem vida breve. Isso porque a população desses países tem um limite bem curto entre a idolatria e o ódio, e quando acontece um episódio como aquele da gravação do Joesley, não tem Gilmar Mendes, Reinaldo Azevedo ou recurso jurídico que segure. A certeza do engodo é explosiva nesses lugares. Lá é olho por olho, dente por dente.
Aqui no Brasil ele está mais confortável. Mas se Temer estivesse em um país como os Estados Unidos (outro exemplo), talvez encontrá-lo-íamos em maus lençóis. E esse talvez tem um porquê. É que nos Estados Unidos, ao contrário do senso comum, tem corrupção a dar com pau. Políticos vendem seus votos para aprovar isso ou aquilo o tempo todo, mas o negócio não é tão tosco como aqui. No documentário do cineasta Michael Moore sobre o capitalismo americano - "Capitalismo, uma história de amor" -, um senador do partido democrata consegue um crédito extremamente paternal de um grande banco, porque ajudou a aprovar a lei de desregulamentação do sistema bancário - o que impede, na prática, que os fiscais do estado coíbam as tramóias que os bancos fazem. Foi um escândalo, e vários políticos viram seus nomes envolvidos nessa maracutaia.
É verdade que eles não foram presos, mas há uma diferença entre eles e nós. Lá nos States, essas negociatas são muito mais veladas. Não é comum que o braço direito do presidente seja flagrado com malas contendo 51 milhões no apartamento que ele alugou. Nem que o outro braço direito seja filmado correndo na calçada com 500 mil que haviam sido negociados em uma gravação com a voz do presidente combinando a treta. Ninguém aceitaria. Não haveria nenhuma desculpa para isso e o presidente renunciaria, mesmo que estivesse correndo o risco de ser processado e preso, como é o caso de Temer. No mínimo, um impeachment.
Nós até somos uma democracia, mas a diferença entre os americanos e a gente é que lá o Temer já estaria "na roça". Não teria propaganda do PMDB. Não haveria como tentar um argumento salvador, usando os erros dos procuradores na tomada de provas, uma vez que tudo já se tornou muito óbvio e todo mundo está careca de saber o que aconteceu e continua acontecendo. Ninguém nos EUA iria supor que essa lorota da propaganda poderia funcionar. Ela não seria nem cogitada e eles tentariam enganar o povo de outra maneira, bem mais sutil.
Mas é claro que todos os povos têm um limite. Até o nosso. Aqui, supostamente, será quando o futebol, o carnaval, o samba, as novelas e o churrasquinho do fim de semana não funcionarem mais como instrumentos de alívio do batidão diário e escravizador, diante de tanta merda na política. Aí o povo derrubará a estrutura que está no poder. Ou pela violência, ou pelo voto, ou até pela desobediência civil. Essa hora deve estar chegando, apesar da aparente apatia dos brasileiros. Oremos.