09 de julho de 2026
Nacional

Só 1 em cada 4 defende direito a aborto, diz pesquisa

Estadão Conteúdo
| Tempo de leitura: 2 min

Pesquisa encomendada pelo Instituto Patrícia Galvão mostra que, embora o aborto seja proibido no País, ao menos 45% dos brasileiros acima de 16 anos conhecem alguma mulher que já tenha interrompido a gravidez. Dos entrevistados, somente 26% dizem ser favoráveis que mulheres possam decidir sobre a interrupção da gravidez.

Conduzido pelo Instituto Locomotiva de Pesquisa, o trabalho foi realizado em 12 regiões metropolitanas, que concentram cerca de 80% da população brasileira. O levantamento é divulgado no momento em que a Câmara dos Deputados discute a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 181, que, se aprovada, pode levar à proibição toda as forma de aborto no País, incluindo hipóteses hoje consideradas livres de punição.

Entre os ouvidos, 10% não são contra nem a favor. Outros 62% São contrários e 2% não sabem responder. Metade dos entrevistados acredita que a mulher que pratica o aborto deva ir para a cadeia. Mas o cenário muda quando o problema é com um conhecido. "Quando se humaniza o tema, os números são outros", diz a diretora de pesquisas do Instituto Locomotiva Maíra Saruê Machado.

 

Questionados sobre qual medida adotariam ao ver uma pessoa próxima fazer aborto, só 7% afirmaram que chamariam a polícia. Dos ouvidos, 47% disseram que não fariam nada; 12% dariam apoio e 19% afirmaram que apenas iriam brigar com a mulher.

"Mostra uma falta de traquejo da sociedade, o quanto é difícil de as pessoas verem o real impacto da questão", avalia a médica Ana Teresa Derraik, diretora do Hospital da Mulher Heloneida Stuart, do Rio

Para ela, os dados comprovam que a clandestinidade não impede os altos índices de aborto. "Todos conhecem alguém que fez", diz. "E todos estão sujeitos a ter alguém próximo que se vê diante de uma gravidez indesejada", completa.

Dados do Ministério da Saúde revelados pelo jornal O Estado de S. Paulo mostram que o País registra uma média de quatro mortes por dia de mulheres que buscam socorro nos hospitais por complicações do aborto. "Se o acesso fosse permitido, não apenas as complicações seriam menores quanto haveria um número menor de abortos", diz Ana Teresa.

Discordância

Já a presidente do Movimento Brasil Sem Aborto, Lenise Garcia, afirma que os números de aborto são superestimados. "E isso fica claro quando se vê experiências de países que liberaram a prática", diz. Ela não ficou surpresa também com os resultados da pesquisa.

Para ela, o fato de a população conhecer alguém que já abortou, condenar em tese, mas dizer que, se fosse alguém próximo não faria denúncia se repete com outros delitos. "É o caso de drogas. Todos dizem ser contrários. Mas quando é alguém da família, um conhecido, há tendência de se acobertar", diz.

"O fato de ser considerado crime é essencial. Com o aborto está se tirando uma vida. Além disso, a eventual liberação acabaria levando a atitudes mais irresponsáveis, o que poderia aumentar o número de gestações", completa Lenise.