Esta crônica faz homenagem a minha rua. Atualmente apresenta o maior índice de reformas e construções urbanas que se vê na cidade paroquial. O estado de agitação é visto diariamente, com operários, engenheiros, caminhões, material de construção - madeiras, pisos, azulejos, encanadores, pedreiros, meia-colher, poeira, eletricistas, ajudantes, serviços públicos, desempregados procurando alguma vaga, vendedores de sorvetes, de tijolos, de areia, de cimento, ferro, telhas, calhas, pinturas, escadas, acabamentos etc etc. Roda de vizinhos comentando o lufa-lufa que ocorre com tanta movimentação, cachorros latindo, gatos assustados com tanto barulho de manhã à noite, transformaram essa outrora pacata rua, iniciada à beira de um ribeirão e terminando na muralha de gigantesco prédio. Foi por mim batizada carinhosamente de Rua de Pito Aceso, com todo o respeito ao seu ilustre Patrono dr. Jorge Tibiriçá.
Uma certa manhã, cones apareceram na esquina impedindo o trânsito de veículos. A Prefeitura, colocando em prática o novo programa asfáltico, deslocou para ela máquinas, caminhões, guindastes, caçambas, toneladas de asfalto e inúmeros operários especializados que se encarregaram de dar uma beleza moderna, com asfalto zero bala em toda sua extensão, valetas novas também foram criadas para desespero de alguns motoristas ligeiros, em função do desnível entre o piso antigo e o piso moderno. Minha rua já foi palco de dois incêndios: por ser em declive, já assistiu motoristas perderem o freio, um fusca capotando na esquina, um criador de galos e galinhas que, nas tardes tranquilas, passeava suas aves pela rua procurando alguns comestíveis para o mastigo noturno e, após satisfeitas, dormiam nas frondosas árvores que havia no seu quintal. Nas manhãs, ouvia-se o cantar dos galos anunciando um novo dia. Era, e é, uma rua citadina com ares bucólicos próprios aos encontrados na vida rural, sufocada agora pelo chamado canteiro de obras em que se transformou em nome do progresso. A rua transversal, em época própria, exibe vaidosa o encanto das flores dos Ipês cinquentenários. Minha rua não foi contemplada com nenhuma árvore e por esta razão fica mais bonita com a beleza da rua vizinha.
O progresso derrubou na esquina um perfumoso manacá-da-serra. Árvore que na sua florada azul e branca inebriava os passantes e os moradores circunvizinhos. A rua sente a sua falta e nós sentimos faltar, nas noites de lua, um pouco daquele inebriante aroma.
Nas primeiras horas da noite suas calçadas ficam vazias. Seus moradores não se encorajam em sentar-se por ali para jogarem conversa fora. Protegidos por cercas elétricas, alarmes, animais ferozes, visores eletrônicos, vigilantes a pé e/ou motorizados zelando pela segurança noturna, todos se recolhem na bolha doméstica. A possível violência externa, aparentemente, está sob controle. Neste momento, o Pito apaga e a cidade dorme... Resta aos moradores da minha rua suportarem a intermitente publicidade televisiva para um possível Feliz Natal!