08 de julho de 2026
Articulistas

Ai de ti, Jerusalém

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A decisão de Donald Trump de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel provocou mais um "dia de fúria" na Palestina. Houve morte, muitos feridos e os protestos dos árabes contra Israel reacende o conflito milenar que já fez correr rios de sangue. O pronunciamento de Trump, para cumprir promessa de campanha, isola os EUA numa das questões diplomáticas mais cruciais da atualidade. A lista dos países que manifestaram preocupação é longa e inclui aliados europeus, como a Inglaterra, Alemanha e França. Outros, menos amigos, também se insurgiram, como o presidente chinês Xi Jimping, o russo Vladmir Pútin; e o papa Francisco.

Há quem atribua a trapalhada do presidente americano como uma "provocação pensada." O objetivo seria desviar as atenções da mídia, ocupada com as investigações que acusam o comitê de campanha de Trump de manter ligações clandestinas com o governo russo. Os hackers de Pútin teriam gerado notícias falsas para influenciar na derrota Hillary Clinton.

Quando julgamos que Trump já cometeu todas as asneiras mais graves, eis que ele surpreende o mundo e mostra como a estupidez tem muito a ver com o Universo da teoria de Einstein: não tem limites. Lembra muito o personagem Tullius Venenus, da história em quadrinhos, companheiro de Astérix.

É um semeador de cizânia, provocador de brigas alheias. Condenado a ser entregue às feras, no Coliseu, Venenus usa o seu talento para fazer os leões brigarem entre si, e se salva. Trump fechou as portas ao diálogo entre árabes e judeus. Sob aplausos da comunidade judaica e dos evangélicos do seu país.

Jerusalém é uma das mais importantes cidades do mundo pelo que significa para as três maiores religiões monoteístas. A Cidade Velha, o coração de Jerusalém, é dividida em quatro bairros: cristão, muçulmano, judeu e armênio. Cercada por um muro de pedra e repleta de becos estreitos e edificações históricas, é lar de alguns dos locais mais venerados do mundo.

Dentro do bairro cristão, está a Basílica do Santo Sepulcro. Foi nesse local que Jesus teria sido crucificado, sepultado e ressuscitado. A igreja é administrada e repartida entre as Igrejas Católica Romana, Ortodoxa, Armênia, Coopta, Siríaca e a Ortodoxa Etíope. Em vésperas de Natal sempre acontece algum entrevero entre os diversos sacerdotes. Põem a cruz do lado e se transformam em apedeutas.

Um dos locais mais sagrados para os judeus é o muro que suportava o Segundo Templo de Herodes, o Muro das Lamentações. Alude à lamúria dos judeus em suas preces pela destruição de dois templos sagrados. No quarteirão muçulmano está a mesquita da cúpula dourada. Foi edificada sobre uma rocha. Abraão teria tentado sacrificar seu filho Isaque sobre essa pedra. Para os muçulmanos, a rocha seria o local de onde Maomé ascendeu ao céu acompanhado do anjo Gabriel. Ao lado do Domo da Rocha está a mesquita al-Aqsa, terceiro lugar mais sagrado do Islã.

A briga pelo sagrado vem desde o ano 1099, quando os cruzados cristãos conquistaram Jerusalém pela primeira vez. Massacraram os considerados "infiéis". Centenas de inocentes foram mortos. O sultão Saladino reconquistou a cidade para os árabes e tratou os povos conquistados com surpreendente generosidade. Na terceira Cruzada, em 1187 os reis, Ricardo I, da Inglaterra; Felipe II, da Espanha e Frederico, do Sacro Império Romano-Germânico, invadiram as fortificações que protegiam os locais santos.

Muito sangue correu em nome de Deus. Agora, vem Trump dizer que Jerusalém é de Israel. Deita por terra a resolução da ONU, que desde 1967 reconhece Jerusalém como uma "cidade aberta", repudiando a doutrina sionista de capital israelita, "una e indivisível".

Trump disparou sem pensar. Igual ao cowboy que entra bêbado pela porta vai-e-vem do saloon e dá no gatilho - Yahoo! Fez como vítimas anos de esforços diplomáticos pela paz e a favor do diálogo. O brasileiro Oswaldo Aranha, em 1947, presidiu a Assembleia-Geral da ONU, que aprovou a partilha da Palestina em dois territórios distintos, para árabes e judeus. A proposta da criação de duas unidades políticas seria derrotada. O diplomata brasileiro suspendeu a sessão, e os representantes latino-americanos foram convencidos a votar favoravelmente. Assim foi criado o Estado Judaico. Para árabes, o diplomata brasileiro é uma figura trágica.

Em Israel, Oswaldo Aranha dá nome a uma das mais importantes avenidas de Telavive. A intenção do brasileiro foi a de eliminar uma das maiores fontes de instabilidade da vida internacional. Contava com o espírito de compreensão dos povos árabes. Ingenuidade. Diferente da estultícia de Trump, que quis anunciar uma decisão histórica e só fez por incendiar o Oriente Médio, além de aprofundar o isolamento do seu próprio país.

O autor é jornalista e articulista do JC