Detesto escrever o que encomendam. Recomendar é uma coisa, encomendar é outra. Quando o que escrevemos não é espontâneo, tudo fica forçado, com cara de bolo comprado pronto. Como estamos no final do ano, tem-se a impressão de que devamos nos sentar diante do computador e jorrar uma cornucópia de doces e lindas palavras e desejos múltiplos de felicidade, bênçãos, sorte, sucesso, prosperidade a todos os parentes, amigos e conhecidos... Ora, eu desejo tudo de bom bem aos parentes, aos amigos, boa fortuna e bem viver sempre, e não apenas ao findar do ano. Está certo que essas datas estão aí para ser comemoradas, para manter a tradição e isso, na verdade, é bonito! Não sou contra as comemorações daqueles que gostam desses auês, dessas festas barulhentas, dessa troca efusiva de gentilezas. Cada um tem suas preferências, é ou não é?
Vou, com sua licença, manifestar meu ponto de vista. Eu não gosto dessa aproximação do final do ano. Não gosto, porque me dá tristeza. Na idade em que estou, tendo visto passar tanta coisa diante dos meus olhos, ao lado dos folguedos muito desalento marcou meus dias. Há que se admitir que uma dor seja mais marcante que um prazer. Está provado psicologicamente. Cumprimento, porém, quem só enxerga as belezas da vida. Cecilia Meireles também entendia assim: "Um pensamento belo para aquele que só entendia a vida quando inspirada para um sopro de beleza." Mas, como a própria poetisa ressalva: "Para que assim também se entenda a morte, um pensamento belo."
Devo confessar, meu desprendimento não chega a tanto. Não consigo enxergar a morte apenas como aquela curva da estrada de que falava Fernando Pessoa e para quem "morrer é só não ser visto". Morrer é muito mais que isso. Por isso, não gosto dessas confraternizações de final de ano. Relacionamentos cordiais onde espocam os champagnes, as risadas, os abraços, as manifestações de prazer. Não consigo suportar a ausência dos que já não estão mais comigo, dos que se foram para sempre e dos que, por motivos nem sempre sabidos, sumiram também, como se mortos estivessem, nas nossas vidas.
Ah! Invariavelmente, alguém vai perguntar: e os que aqui estão, não contam? Claro, amigo, mas estou falando do que me falta e não daquilo que tenho. Pensa, por acaso, que não cultivo os que me rodeiam como se cultiva uma rosa no jardim? Que não os prezo e não os louvo? Só se fosse um otário, um cândido como aquele personagem de Voltaire. É que enquanto estou no meu aconchego, lembro-me das grades da varanda que levaram; enquanto saboreio a fruta doce, lembro-me da sombra do limoeiro que não mais existe; enquanto ouço a música dolente, lembro-me que "levaram a dama e o seu velho piano que tocava, tocava, tocava a pálida sonata"; enquanto leio os versos do poeta, "levaram as pálpebras dos antigos sonhos, deixaram somente a memória e as lágrimas de agora". Perdoe se exalo, à minha maneira, embora imperfeitamente, um pouco de Cecilia Meireles.
"Estou cansado, é claro, porque a certa altura a gente sempre está cansado. De que estou cansado, não sei: de nada me serviria sabê-lo, pois o cansaço fica na mesma, a ferida dói como dói"... no dizer de Fernando Pessoa. Parabenizo-o, se conseguiu ler até aqui estas palavras não tão doces. A vida vai tirando da gente um pouco de ardor e de entusiasmo. E relembrando Fernando Pessoa pela última vez: "Sou inteligente: eis tudo". Ninguém escapa dos momentos de nostalgia. Nem a mãe do Salvador foi imune. Vem-me à mente Adélia Prado que, com sua fé inabalável, chegou a perguntar: "É inapelável morrer? Não há um álibi, um fato novo, um homem novo portador de alvíssaras?"
Mas, ao que parece, disfarça não logo ali onde cravou esses versos, mas em outro local, dissimuladamente: "Ó Deus não me castigueis se falo, minha vida foi tão bonita! somos humanos, nossos verbos não têm tempos não são o Vosso, eterno". E se Ele vai dar uma palhinha à Adélia, com certeza dará a mim, também, não levando em conta minhas impertinências!
A autora é pedagoga, jornalista, advogada, professora doutora aposentada da Unesp - mg-de-rosa@hotmail.com