08 de julho de 2026
Articulistas

O Natal da molecada

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Dono de uma funerária em Itatiba (SP), Luisão, empresário de boa alma, cumpre religiosamente antiga tradição. Ao final de cada ano, esquece o comércio dos mortos para se lembrar das crianças pobres. Ele vira Papai Noel e sua caminhonete, trenó. Na carroceria, vai - Hô! Hô! Hô! - jogando balas e doces à molecada. Coisa emocionante. Numa farra incrível, os moleques vão disputando, entre empurrões e tombos, cada saquinho atirado. É uma festa divertidíssima, esperada por todos. Mais ainda, pelos moleques que adoram o "Papai Noel Luisão". Para os adultos, ele é simplesmente o "Luisão do saquinho doce". Emocionante, mas previsível. Toda criança (até os bebês sabem disso) é apaixonada por Papai Noel.

Este ano deu tudo errado, faltaram doces e balas. O saco do bom Luisão murchou antes de cumprir o trajeto programado. Era de se esperar a tristeza e o tamanho da decepção dos meninos. Mas o que ninguém esperava, aconteceu. Revoltados, os moleques passaram a homenagear a mãe do pobre velhinho e a atirar contra ele uma chuva de pedras das mais contundentes. Deitado na carroceria da caminhonete, o Papai Noel esperneava e gritava ao motorista que acelerasse e sumisse dali pelo amor de Deus! Crianças atirando pedras em quem? No Papai Noel?!! Absurdo! Para onde estamos indo, meu Deus? Um amor tão puro entre netinhos e vovô tão querido acabar assim em pedrada! Não sei não, mas o mundo que se anuncia mete medo, nada tem de cristão, tampouco de natalino.

Claro que houve um erro de cálculo do Luisão na contagem dos saquinhos. Se ele tivesse prestado mais atenção à queda de venda de caixões da sua funerária, teria aumentado a oferta dos doces. Afinal, crise econômica tem consequências. Era de se esperar que, em tempo difícil, aumentasse consideravelmente o número de crianças pobres correndo atrás das guloseimas. Relendo o texto, percebi uma impropriedade, pela qual me desculpo e me corrijo. Não é que as vendas de caixões tenham diminuído. Não faz sentido imaginar que, nos momentos de crise, as pessoas decidam morrer menos. O que faz sentido é que decidam comprar caixões mais baratos, já que as urnas de primeira classe, em que fariam a derradeira viagem, ficam proibitivas para a maioria dos mortais pobres. Menos caixões de primeira, mais doces de segunda. Essa foi a conta que o Luisão deixou de fazer. Deu no que deu.

Essa explicação é a menos preocupante. Crise econômica é coisa que passa. Agora, o que não passa, não muda e assusta é o que está programado no nosso DNA de bicho. Claro que esses meninos agiram por brutal instinto. Ninguém (pais, professores, religiosos...) lhes ensinou tacar pedra em Papai Noel. Isso não é coisa ensinada. É coisa do violento instinto humano. Assusta-nos reconhecer que somos movidos por puro interesse. Faz lembrar Nelson Rodrigues para quem "o dinheiro compra até amor verdadeiro." Num mundo extremamente ególatra, onde o que mais se vê são caras e boquinhas em selfies (kkkkk), o valor do outro ficou condicionado ao que de bom ele pode nos fazer. Não o fazendo, pedra nele!

Todavia, relembremos, essa egolatria é instintiva. Por isso, começo a acreditar que tudo está no seu devido lugar. A natureza sabe o que faz. Começo a entender que esse acentuado autoamor é uma questão de sobrevivência. Para nos defendermos, somos capazes de qualquer coisa. Matamos em legítima defesa, matamos em estado de necessidade e, tudo bem, o direito nos absolve. Sem esse egossentimento, estaríamos indefesos. Faz sentido a poesia ultrajante do rock: "Eu me amo e não posso viver sem mim."

Li, agora, que o Luisão, muito chateado, quer reatar o antigo amor com a molecada. Promete voltar ao bairro "Porto Seguro" (nem tanto assim, né!), onde o tudo ocorreu. Agora, com nova e farta munição de balas, dessas de hortelã (claro). Eis o lado bom humano, também genético. Se o instinto nos programa para atacarmos o outro, também nos programa para que o amemos. Assim se garante a reprodução da espécie. Agora, as coisas ficam mais claras e mais tranquilas. Não estamos nos aproximando do fim do mundo, não. A vida tem dois lados e um deles é bom. Sempre assim foi e assim sempre será. Entre tapas e beijos, vamos indo. Pra onde, não sei.

O autor é professor de redação e membro da Acade mia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br