10 de julho de 2026
Articulistas

Manual de sobrevivência para o Natal

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

No exercício deste trabalho "análogo ao de escravo" que é escrever na antevéspera do Natal, quando todos já comemoram, repassei a leitura do episódio ocorrido em 24 de dezembro de 1914, quando tropas britânicas e alemãs resolveram fazer uma trégua numa das mais sangrentas lutas da história moderna. Os dois lados foram invadidos por um espírito natalino e decidiram distribuir presentes, canções e uns momentos de reflexões em meio à loucura devastadora da Primeira Guerra Mundial. Certamente que custou a todos eles uma boa dose de empatia, compreensão, generosidade, comunicação e pensamentos positivos. Os ingleses usam a palavra "mindfulness" para conceituar essa consciência ampla e tolerante do que se passa à nossa volta - fantasias, emoções, sensações percebidas e aceitas como de fato são.

Dizem que houve até um jogo de futebol na "terra de ninguém". Deve ter terminado empatado, para alimentar, ainda mais, o clima pacifista. O soldado britânico que fazia tricô, no intervalo entre as sangrentas batalhas, fez questão de presentear com um pulôver o inimigo alemão, que, na trincheira oposta, não hesitaria em puxar o gatilho se o tivesse na alça de mira. Fazia um frio congelante. O alemão, sem ter com o que retribuir, arrancou o botão do casaco e deu ao amigo-inimigo.

Os comandantes de ambos os exércitos julgaram esse ato espontâneo como antipatriótico e indigno. Proibiram que se repetisse no ano seguinte, sob ameaça de levar todos à corte marcial. Fizeram o papel daquele cunhado chato e da tia antipática que nunca se casou. Só servem para provocar brigas no Natal em família. Os desmancha-prazeres são frequentes, justamente pela falta de "mindfulness". Natal, tempo de paz, de alegria, de família... Ou, para alguns, tempo de tensão, de discussões, de remexer em velhas feridas. Os jornais europeus, nesta época do ano, estão recheados de entrevistas com especialistas em Mediação Familiar. Cada um oferece uma espécie de manual sobre como dominar a ansiedade, o que se deve levar para a festa de Natal e como evitar os conflitos. As famílias, hoje, juntam-se por que há um pretexto. O resto do ano passam, cada membro no seu canto. É comum o filho que ceia com o pai e almoça com a mãe, porque estão separados. Nos restaurantes que abrem em datas festivas, são várias as mesas com uma só pessoa. Os cinemas ficam cheios. Gente que prefere se isolar a "enfrentar" os parentes. Solteiros ou descasados, carregam algum tipo de trauma oriundo, quem sabe, da infância. Nas grandes famílias, a harmonia pode ser apenas aparente. Sobrevive enquanto existe o patriarca e não se sabe o teor do testamento guardado em sigilo no Cartório. Depois que morre o "chefe" geram conflitos as heranças pendentes e sobre a quem incube cuidar da avó. Fora outros assuntos banais como política, futebol e religião. Nem se atreva a dizer que o Palmeiras não ganhou título.

Plínio, o Velho, na antiga Roma alertava que, no vinho está a verdade. E não porque a bebida nos deixe mais sábios e comecemos a entender os segredos do cosmo, mas porque solta a nossa língua. Por isso não beba demais, se não quiser falar demais. Há os que se julgam "autênticos". Se não conseguirmos ser genuínos na nossa família o que dirá no mudo lá fora. Também não precisa chegar na festa com o pé atrás. Certos assuntos requerem um fórum de discussão diferente. Temos que ter momentos de vida que sejam destinados ao perdão, ao apaziguamento, à aproximação, ao mostrar - não exibir - o lado melhor de cada um.

Os psicólogos propõem que se dê atenção às histórias que os avós tanto gostam de contar (e recontar). No fundo, é bem-vinda qualquer atividade que faça todos sentirem alegria por pertencerem àquela família. Ninguém vai desligar o smartphone. Aí já é querer demais. Mesmo assim, há lugar para delicadezas. Até na guerra tem. Por que não oferecer um elogio genuíno à leitoa crocante do seu cunhado ou ao chester da tia, mesmo carbonizado. Vivemos num tempo em que as pessoas são muito autocentradas e pouco delicadas umas com as outras.

Cabe também uma dose de humor, sem ser agressivo. Serve para interromper discussões e dissonâncias. Também não precisa dizer que não vai tocar no assunto "porque hoje é noite de Natal". Seria o mesmo que assoprar a farofa do peru. Continua, mas com um novo enfoque, ou conte uma história agradável. O "parente serpente" dos napolitanos pode ser uma rima, mas não uma solução. Se alguém vai a uma festa com a intenção de sofrer, que não sejamos nós. Feliz Natal.

O autor é jornalista e articulista do JC.