08 de julho de 2026
Sacadas

Cartão de Natal


| Tempo de leitura: 6 min

Thomas Kimkade/https://thomaskinkade.com/art/santas-workshop/

Embora vivendo num País tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, com temperaturas altas e muito sol na maior parte do ano, somos, do ponto de vista do Natal, absolutamente inspirados na celebração de Santa Claus (Sinter Klaas), que depois foi chamado de São Nicolau, transformado na lenda do homem que veio da Lapônia e paramentado pelo frio de lá.

Isso, é claro, não sem antes o "Bom Velhinho" ter passado por um banho de loja no conhecido e vitorioso marketing da Coca-Cola na terra do "Tio Sam", e ter chegado por aqui todo de vermelho e conhecido pelo nome de Papai Noel.

Acrescentemos a isso a força do cinema, trazendo nos anos dourados do pós-Guerra o American Way Off Life, onde em lares com carrões bonitos, mesas fartas e eletrodomésticos com design inovador estava o sonho da Noite Feliz.

O Papai Noel Vermelho, claro, tem a missão principal de pintar de azul o balanço da maioria das empresas, pela circulação de riquezas e incremento da atividade produtiva, que geram emprego e renda. Nada contra, muito pelo contrário.

Estamos no jogo, mas será que só isso é suficiente? Será que o significado mercadológico que se apropria dos valores cristãos, para os que assim creem, ou apenas por princípios fraternais são suficientes para nossa alegria?

Bem, como o marketing se apropria dos valores e do cotidiano de todos nós e nos devolve isso em forma de propaganda e promoções, também podemos ser recíprocos, nos apropriando de suas mensagens, extraindo os valores originais para colocar mais dos bons sentimentos e boas atitudes em nossa vida.

Como assim? Você pode estar se perguntando.

É relativamente fácil, mas requer a retomada de uma prática que precisa ser repetida, como fazemos para voltar a andar de bicicleta ou para entrar em forma, com caminhadas ou exercícios. A proposta é praticar aquilo que nos momentos mais prazerosos da vida sempre fizemos: sonhar, ter ideais, desejos e esperanças.

O sonho estimula o cérebro, a mente e a alma, enriquece nosso imaginário, ajuda nos devaneios e, com certeza, se perguntarmos aos bioquímicos, deve produzir naturalmente em nós combinações de prazer e motivação que superam em muito qualquer outra substância produzida artificialmente.

Junto com esse exercício criativo, independente da nossa cultura religiosa, humildemente recomendamos para você o que vem sendo bom pra gente, única e exclusivamente pela alegria de compartilhar, que é o exercício prático da fé.

Como sempre diz nosso amigo Kazuo Yanaba, um homem que veio ao mundo para a alegre missão de servir, vamos praticar a "Oração" em sua totalidade, "OrAção", ou seja, "Orar e Agir".

Com mais imaginação, aproveitemos esse momento, que se por um lado tem uma forte pegada comercial, por outro traz à tona sentimentos da melhor qualidade, nos deixando mais próximos do humano que existe em cada um de nós, da criança que continua lá dentro, viva, esperando a porta se abrir para se apresentar de forma alegre e animada para as brincadeiras da vida.

E aí, quando as pessoas falam do espírito cristão do Natal, deste Ser que a gente ouve falar desde criança, que comemora aniversário sempre em dezembro, começamos a entender os muitos outros lados do homem que veio ao mundo para a salvação de todos.

Cristo fez prodígios, ressuscitou mortos, curou incuráveis, fez o milagre dos peixes, multiplicou os pães, converteu guerreiros implacáveis em corações fraternos, morreu pelos seus semelhantes, perdoou seus algozes e ressuscitou a si próprio para subir aos céus e ao mesmo tempo permanece entre nós para nos livrar da culpa e nos dar o que temos de mais precioso, a liberdade da vida.

Não sou nem de perto alguém com profundidade em conhecimentos teológicos, conheço as religiões de forma generalizada, mas tive a oportunidade de conviver com muitas pessoas evoluídas espiritualmente, de todas as denominações, creio na magnitude da Mãe, Nossa Senhora, me emociono com a vida em seus detalhes mais simples, com o papa Francisco e com todos os líderes de boa vontade.

Mesmo leigo, entendi que hoje deveria enviar um cartão de agradecimento ao aniversariante.

Aqui em Bauru, Coração de São Paulo, onde nasci e pude aproveitar todas as oportunidades de uma convivência entre familiares e amigos, posso afirmar: criamos o Natal Tamanho Família e a Casinha do Papai Noel e, antes disso, o evento Papai Noel Vem do Céu inspirados - e muito - nessa trajetória de vida.

Nos inspiraram as reuniões familiares com dezenas de parentes, amigos e visitas, todos recebidos carinhosamente, inclusive pela minha bisavó, na casa dos meus avós maternos, onde também eram muito bem recebidos os avós paternos, bem no Centro da cidade, onde convivi com um comércio de vanguarda para a época de lojas como a Casa Lusitana, Tilibra, Americana, Capristor, Clipper, Casa Burgo, Molina, padarias, confeitarias como a Lalai, Café Tudo Azul, Central e God Bread, Mercearia do Centro, Casa Brasileira, do G Petisco, Bella Napole, do Zé do Skinão, Paulistana, Tayano, Mazzeto, Casa Carvalho, Bar Benfica, Yara e Feira dos Calçados, Supermercado Sampaio, Júlio Meca, Farmácia do Julinho e tantos outros estabelecimentos.

Tínhamos a sessão das 6 no Cine São Paulo, a Discoteca de Bauru e tantas lojas, vitrines e ruas iluminadas e animadamente decoradas do nosso Centro, com as rádios tocando as baladas do Noel, das brasileiras, paraguaias, ao Jingle Bells, além da banda da Polícia Militar no coreto do jardim da Praça Rui Barbosa, onde todos iam passear após a missa, para depois "batistar".

Assim, nossa imaginação de criança, diante de todos esses apelos, não apenas voava, entrava em órbita. E o mais legal é que o que ficou não foram apenas as lembranças dos presentes das vitrines onde os víamos e que nos chegavam pelas mãos do Papai Noel enquanto dormíamos, pilotando seu trenó voador, para nossa surpresa, quando acordávamos na manhã de Natal.

Melhor ainda: o que mais ficou de tudo isso foram os sonhos, o espírito da época, a fraternidade, o acolhimento de uma casa da vó onde cabia todo mundo e ainda tinha lugar para mais muitos.

Que saudade gostosa de tudo isso. Que vontade de brincar de Noite de Luz, onde todos estão em seus lares aconchegantes, abrigados, protegidos, saudáveis, amados, presenteados, felizes em comunhão com o mundo ideal em que tudo será final feliz para sempre, sem nunca ter final.

Como nessa ilustração do artista norte-americano Thomas Kinkade, que conhecemos por volta da chegada do ano 2000 e nos encantamos.

Aprendi com alguns queridos amigos que a cruz tem vários significados, mas gosto especialmente de um deles, de que ela representa o equilíbrio perfeito entre o vertical e o horizontal, o concreto e o espiritual. O que temos e o que desejamos.

Aí, penso: a vida é mesmo uma escola com muitas aulas, mas também tem recreio, onde o ter imaginação, com fé e esperança, é exercitar o princípio criativo que nos aproxima do melhor de nossa essência, do Criador.

Imaginando e acreditando que numa dimensão total, transcendendo tempo, espaço e todas as diferenças, já somos todos felizes dentro daquela Casinha do Papai Noel.

Creio que assim consigo me aproximar mais do aniversariante, Cristo, o menino Jesus, que vejo nascer cada vez mais forte aqui dentro de mim, me aproximando dos próximos e dos distantes. Grato por tudo isso, ganho animo para imaginar e orar por um Ano Novo muito melhor para todos. Por tudo isso, Feliz Natal.

Renato Delicato Zaiden